Thursday, December 5, 2019

61 - Veludo azul


A sensação desta aproximação de lábios alheios é docemente dilacerante. O querer recuar quando por detrás de mim só existe uma parede que me empurra para a frente, para uma espada imaginária que trespassa o meu estômago e lança arrepios pela espinha fora ao sentir uma outra respiração entrar na minha boca. Um outro sabor, um outro pormenor. Está calor lá fora na rua, está ainda mais calor aqui dentro deste quarto que se tornou subitamente escarlate. Os meus lábios libertam-se descontrolados ao seguirem as minhas mãos invasoras. Sinto um leve sorriso feminal a nascer na minha boca, alimentando-se dela. Será a perceção imediata de quem vê cair toda a minha fraca resistência perante um mero ímpeto carnal? Será o sentir do pulsar do meu coração que parece querer arrombar o meu peito? Talvez todos os detalhes que se desenham deste impulso imparável entre corpos limite não sejam mais do que uma sequência de truques lascivos estudada para me enfeitiçar. O sorriso débil procurando mumificar o meu, uma pequena dentada quase canibal nos meus lábios, vários desenhos do mesmo desejo concebidos neste plano intensamente erótico. A minha pele ferve incontrolável. É o inferno a nascer dentro de mim, a elevar o meu sexo contra um corpo que se desnuda ao ritmo de uma sensualidade magnética. Há uma imensa violência neste momento que não posso controlar. Uma derrota definida na fronteira entre não já poder voltar atrás e na verdade não o querer. Obedeço apenas à inevitável instrumentalização do desejo humano, rendido como nunca poderia estar mesmo que me atassem as mãos atrás das costas. Sobre esta cama há um manto azul. Veludo azul, onde me deito misturado num outro corpo que não detenho nem amparo… consumo-me nele. A sensação do veludo na minha pele assemelha-se a uma carícia antes de um golpe fatal. Na verdade já nada me pode salvar agora.

Penso em ti. Há momentos assim. Do beijo maquilhado por vezes um resto do teu sabor, açoitando-me.  

As fantasias que não podiam ser e agora o são neste corpo estranho, estranhamente à minha mercê. As rotinas de corpos descodificados a ganharem novos esboços e cores, acima de tudo uma vingança sobre o mundo que insiste em repetir-se e repetir-me. A frivolidade da cena carnal que alimenta tanto esse orgulho passageiro e é tão pouco quando não sentida (na alma?) a ser peculiarmente mais forte. Neste sexo traidor de querer e não querer, acabo por deixar-me ir atrás da indecisão como quem desce estrada fora sem travões e só pensa como é que poderá parar sem fazer nada. É um verdadeiro gosto a mel e a fel a confrontarem-se, derivando no meu corpo suado que não reconhece as mãos que percorrem a minha pele, do beijo que nunca sacia e que na verdade ainda agrava esta sede, do prazer que revela o vermelho e o negro. Tudo na verdade acaba depressa demais. Poderia fingir que esta noite não foi verdadeira. Com o tempo a mentira irreconhecível.

Cinco da manhã. Acordo subitamente como se fosse um outro homem a sonhar comigo no passado. Olho para o corpo ao meu lado, um profano deus, construído por mim, desejado por mim, a mentira precipício por onde caía, celebrando o chão que se aproximava. Preciso sair porta fora desta casa clandestina, porque lá ao fundo na noite tu nunca me imaginarás uma ave de rapina. Atravesso a cidade de uma ponta à outra sem saber para onde vou. Quero regressar mas temo nunca mais poder fazer o mesmo caminho de sempre. Na verdade já me perdi. Veludo azul.

Monday, November 18, 2019

60 - Amor não correspondido


Escrevo-te esta carta porque são mais duras as palavras que guardamos dentro de nós. Essas palavras às quais não permitimos pequenas fugas, muito menos gritos através das grades que as aprisionam, por temermos a alteração de toda a nossa realidade se as libertarmos e inevitavelmente nos tornarmos reféns do seu alcance. Não poderás nunca saber o que sinto sob pena de todo este amor morrer aos pés da tua renúncia. Talvez o meu medo de soçobrar perante a impossibilidade dos meus desejos irrealizáveis seja maior que esta paixão que guardo secretamente por ti. Ainda que estas páginas de papel nunca te manchem as mãos, é-me necessária esta mecânica literária de exteriorizar o que não tem destino para ter a certeza de que tudo isto não passa de uma fantasia que avassalou selvaticamente a minha consciência. Por vezes imortalizamos os nossos sentimentos nos objetos que deixamos para trás. Estas páginas serão o meu único e verdadeiro testemunho. Poderia contar-te sobre como me é querida a rotina de ir ao teu encontro. A felicidade de todos os dias entrar no edifício do escritório onde trabalhamos há cerca de seis anos. Passar pelo vigilante desmaiado de tantos dias copiados na cúbica receção aquário, inundada pela luz exterior. Subir pelo elevador e ir ao teu encontro, como se de um verdadeiro encontro amoroso se tratasse. Poderia tentar explicar-te em algumas linhas a sensação de ansiedade que me assalta por saber que após a abertura das portas do elevador por onde fui subindo poderei finalmente ver a tua face. Diariamente percorrer a pequena distância até à sala do estúdio e procurar-te imediatamente dentro do espaço amplo, quase industrial. Quando te encontro é a felicidade que me fala ainda que todas as vozes se calem à minha volta. No meio de tantas pessoas que vão martelando os teclados dos computadores, sentadas atrás das diversas secretárias perfeitamente alinhadas, danças por ali de um lado para o outro perfeitamente harmoniosa, o teu rabo-de-cavalo a marcar o ritmo dos teus passos e dos desejos percetíveis nos vários olhares que vão atravessando a sala na direção do teu corpo feminino perfeitamente torneado. O teu sorriso na minha direção, o bom-dia nos teus lábios sílaba, o meu nome prolongando-se na tua voz são beijos sem contacto, são carícias sonhadoras. Eu apenas posso admirar-te de uma distância involuta enquanto o meu coração acelera descompassadamente indefinido. Compreenderias a minha angústia se lesses estas folhas de papel, o meu testamento desse meu sentimento por ti, o livro de instruções que descodifica o meu olhar alheado quando passas na minha linha de visão, papéis na tua mão, um deles poderia ser a minha carta, tu a distribuir cópias por todos os lados, o meu segredo desvendado na boca de toda a gente e eu sem ter para onde fugir. Se lesses tu a minha carta terminarias as suas linhas com um sorriso inesperado ou a rasgar esta inconfidência em mil pedaços? Não tenho coragem para descobrir. Ainda que durante estes últimos meses nos tenhamos aproximado mais do que alguma vez imaginei. Uma amizade a crescer diariamente, nascida nos cafés da manhã na copa do escritório, onde fomos revelando aos poucos partes de nós, velando segredos nos nossos cofres de intimidade. Temo, para meu infortúnio, que tenhamos ido na direção errada. Chegas-me a contar os teus desamores, os teus desaires do coração, os quais se cravam no meu peito como facas. Seguro-te nas mãos, ouço-te pacientemente enquanto lamentas a falta de sorte no amor. Rio-me para fora desse teu lamento e grito por dentro enquanto afasto o cabelo do teu rosto. Pode ser que um dia ouças este meu clamor surdo. Hoje voltou a acontecer novamente ainda mais intensamente. Pensei em beijar-te enquanto vertias umas lágrimas por um desgraçado qualquer não saber ver o que vejo a cada segundo. Recuarias perante o meu beijo ou render-se-iam os teus lábios? Morro de desespero por não saber. A tua face estava tão próxima que podia sentir o calor da tua respiração na minha face. Os nossos perfumes a formarem uma nova fragância. O bater do teu coração a falar tão alto para dentro das minhas mãos. O tempo repentinamente parado à nossa espera. Terei fantasiado tudo na minha cabeça? Não sei. Resta-me este caminho. Esperar que dês um passo adiante por não ter coragem de ser eu a fazê-lo. Sonhar com uma paixão a nascer destemida no teu coração e que arrebate o meu de um só golpe. Para já vou sobrevivendo com estes momentos em que na desculpa de um consolo distribuo algumas cândidas carícias, abraço-te para dentro do meu peito sem saberes, alimentando aos poucos um futuro alternativo. Guardo tudo nesta carta à qual provavelmente nunca terás a oportunidade de responder. Não passa de um mero mecanismo de sobrevivência. A ingenuidade da esperança. Porque por momentos, hoje, senti-te minha. Como eu sou, fatalmente, tua.

Tuesday, November 12, 2019

59 - Ausência


Imagino-te ainda nessa rua onde nos conhecemos
O mesmo padrão de cores inaugurando o céu.
Ali perto do mar, do sossego ao beijo que contivemos
na boca sem respirar, celebrando um momento réu.

Imagino-te ainda naquela cama onde nos inventámos   
A mesma luz ténue acariciando a intensidade do teu clamor.  
Esquecidos do mundo, da ausência à saudade que guardámos
Nas nossas almas sem fundo, incendiando todo esse fulgor.

Imagino-te ainda nessa despedida onde nos traímos
Os ínfimos pormenores elevando a memória imortal.
Ali perto do mar, de uma palavra ao grito que ouvimos
na solidão ao regressar, perdurando no gosto a sal. 

Sunday, October 13, 2019

58 - Alma Escondida


Escondes-me por detrás de cada conto, de cada fábula, por detrás de cada episódio espinhoso, cada história meio anedótica como fosse apenas uma personagem secundária ou uma mera figurante esquiva e silenciada. Nas conversas dispersas a meio tom, o entusiasmo estranho de quem não as ouve pela primeira vez, repetindo as mesmas gargalhadas como se fosse obrigatório sobrepô-las sempre às tuas palavras numa clara demonstração de veneração contratual. Olho para ti e culpo-te. No meu íntimo. Ninguém me vê. Tu não me vês. Há muito tempo que me tornei invisível. Sinto-me um esboço de gente servindo apenas como teu adereço, única possibilidade de transformar a minha existência em algo visível ainda que para ti, de pouco valor. Hoje sei que é assim. Tantos anos a convencer-me do contrário, inúmeros rasgos de esperança por mudanças que nunca chegaram aos meus pés, com tanto de inocentes como de culpadas, uma vida corrida, filhos e netos, mágoas e mágoas trazidas para casa por ti para eu as carpir devotamente. Deve ser isto a que chamam de amor dependente. Não saber deixar de amar apesar de tudo, quando esse tudo é uma avalanche, um maremoto na nossa direção que devasta meio mundo com a sua passagem e ainda assim entendo reerguer os escombros, sobrepondo pedra sobre pedra no meio do caos sem qualquer plano ou projeto, alicerçando a minha convicção de que do passado é possível resgatar algum sentimento que já não tenho a certeza de alguma vez ter existido. Resta-me a celebração de algumas boas memórias para me convencer… Continuas a lançar sobre esta mesa toda essa impercetível necessidade de atenção. Os teus filhos e derivados atentos a cada pormenor das tuas reminiscências, talvez se lembrem que estou aqui também. Sempre conseguiste chamar a ti uma atração quase incompreensível apesar da tua personalidade fechada, desse mau-humor característico de quem acredita genuinamente ser maior que o mundo ainda que não saiba o mundo quem és. Apenas um restolho quase abafado de gente, igual a tantos outros de quem não se guardará memória depois da última vez que o teu nome for pronunciado nos lábios de alguém que contigo se cruzou nesta vida aflita, por muito ou pouco tempo, pouco importa. É assim que morremos de vez...

- Não digas asneiras…

… e assim morro eu um pouco mais quando na tentativa de corrigir um pormenor da tua história secular me fazes sentir tão pequena. Tinha eu a certeza que tal história se passara numa outra rua, num outro ano, numa outra vida talvez… quando os meus sorrisos ainda eram por ti e só por ti, a galgar sonhos e fantasias juvenis. A minha voz a sumir-se assim para dentro da minha garganta como se fosse um poço donde só regressa uma água parada, acabando por conter cá dentro todos os impropérios que me apetece dizer, ciosamente levantando os pratos da mesa quando na verdade os quero atirar todos ao chão que sempre adornei para ti. É assim o fim da história desta noite. Ficamos apenas os dois, as vozes da nossa descendência logarítmica afastando-se pelo corredor da casa, pela rua, cada vez mais longe até os deixarmos de os ouvir, um sossego cada vez mais amiúde e desencantado de velhos desorientados. Sobes para dormir e perguntas-me se não subo também. Por que razão quererás saber se vou já dormir também? Não respondo e já não te ouço novamente. Acabo por seguir-te pouco tempo depois não vá o meu mundo desaparecer e eu sem saber o que fazer… Sentes deitar-me ao teu lado, ainda não dormes porque não sabes dormir sozinho, nesta ou noutra cama qualquer, a solidão sempre te fez péssima companhia. Dizes que tens frio que não te consegues aquecer, que o quarto se assemelha a um túmulo. Abraço-te para te aquecer. Se nos vissem agora nunca conseguiriam descobrir onde guardo eu a minha alma.  

                                                           13 de Outubro 1945
Uma data como qualquer outra, mas ainda assim,
 nesse dia, talvez o céu estivesse diferente…

Thursday, October 10, 2019

57 - Desbloqueio


Não te amo. Olho para ti adormecido ao meu lado, a tua respiração a mergulhar fundo no sono como um vento açoitado, manifestando a espaços os seus lamentos compassados. Sobre ti, o lençol desfigurado e erróneo como tempestade petrificada, moldado parcialmente ao teu corpo, amparado pela tua pele… a nu retalhos do teu figurino escultura bronze, antecipando novos desejos por descobrir. Ainda agora éramos um. Silabando loucuras…

Não te amo. Descobriste-me numa esplanada num dia de sol, o meu sangue frio quase solidificado, fantasiada de alguém que não sabia ser eu. Como se desmascarasses um impostor, sentaste-te na minha frente e ouviste concentrado as minhas verdadeiras palavras que não ousava dizer por ainda não saber como falar sem que a minha voz denunciasse todas as mágoas lançadas sobre a mesa. As tuas perguntas falcão consumindo essa sensação de estar num jogo de querer e não poder, angustiada pela fome que não sabia como saciar por julgar já não ter o direito de ser um monumento nas mãos de um hábil homem talento. Tudo o que era eu tinha sido antes numa vida fechada de um amor volvido amargo agora já sem nenhum depois. Do meu corpo habituado a lançar-se sempre com rede, uma repentina queda infinita até aos teus braços que estavam ali para me agarrar e do nada ensinar-me a dançar sem chão. Foi tudo o que precisei, por um momento, por vários sucessivos momentos até deixar de prender a respiração dentro de mim como sempre o fizera.

Não te amo. Ainda que saiba agora de cor no teu corpo o que não sabia do meu. Por não me saber mulher, sobrepunha-se o medo de não o voltar a ser. Essa palpitação visceral que dispara sem rumo vinda das entranhas e nos deixa na boca um sabor a sal… Olho para ti perdido nesse sono renovador e só quero trazer-te de novo para mim, voltar a esse momento em que a tarde se faz noite nas tuas costas e posso deixar-me escurecer sob o teu corpo que se faz condor, enquanto de mim se solta um palavrão que me chega à boca como se fosse um louco louvor.  

Não te amo. Porque não tenho que te amar. Porque não tem de ser uma história de amor o que se deixa para contar nas entrelinhas do acaso, quando na verdade só quero esquecer todas as minhas fantasias irresolutas e por um momento viver numa fantástica cena de filme. Faz parte… talvez faça parte. Reaprender a ter uma solução nas mãos desarmadas, uma intenção nas pernas trémulas que se abrem como portas escancaradas, um destino no sexo que se rende. Talvez tenhas sido tu por não saberes pedir licença, por tocares no meu corpo como se fosse algo inexperimentado, por me convenceres hipnotizado que tens uma história para me contar num quarto de hotel, por me resgatares de uma sombra para calmamente atravessarmos o luar sem o comtemplar… olhando-nos na boca.       

Não te amo mas amo a tua presença. Amo a tua salvação, a forma como a tua mão entrou pelo meu peito adentro para me apertar o coração e pô-lo a bater de novo, secretamente... O ar fresco da manhã ainda criança recai como um impercetível véu na minha face, como um carinho inusitado, as ruas vazias conduzindo-me os passos para um caminho sem rumo mas desejado, todas as chamas deflagrando atrás de mim como a queimar os vestígios de um passado que não quero reviver.

Não te amo. Sento-me nessa esplanada a admirar o sol que renasce e em mim há um outro fogo que arde.

Sunday, September 29, 2019

56 - High and Dry


As cores nos meus quadros são réus dos teus reflexos intermitentes. Paisagens urbanas desérticas que antecipam a tua ausência, a forma como me foges das mãos ainda antes do crepúsculo ser extinto pelo negrume profundo da noite, submergindo numa qualquer rua noturna para te esconderes de mim, misticamente centrada na tua personagem de encenar outras personagens, envolvida na exuberância de momentos capturados por essa fome de uma imortalidade irreal e singular. Um ponto de fuga interminável que reproduzo e aprofundo uma e outra vez através de fotografias ampliadas pela arte de sutura dos meus pincéis. Dessa paleta tons melancólicos vou construindo um mundo de beleza mística e perfeita onde se perdem olhares e falsas perceções, estranhos ao verdadeiro sentimento exprimido na simples ausência de silhuetas arcanas. São apenas edifícios e ruas ultrapassadas pelo tempo mas não pela virtude da sua antiguidade que determinam este falso contexto de espiritualidade urbana adormecida. Ali escondido por detrás dos reflexos das sombras o verdadeiro e simples sentimento oculto. Vão-me sobrevivendo os longos silêncios que deixas aqui, como vocábulo de um cenário que transporto para as telas brancas de saberem já a tua inexistência e onde só eu posso definir-te. Falo aqui, nas cores dos meus pincéis, um monólogo de um sentimento disléxico de quem amplia o seu amor mas reflete desamor…  

Acabas por regressar. Regressas sempre. Numa antecipação da noite que se afasta e te deixa entrar. O teu corpo sombra procurando o meu como quisesses mergulhar para dentro do meu peito e interromper a revolução que ali permanece desde o teu último beijo. Entras ao de leve na cama e sobes imediatamente ao meu corpo altar, onde sabes ser deus. Não há palavras que parem a tua intenção de viver um momento indistinto que ainda assim em ti perdura mais do que qualquer outro. Penso sempre que se regressas é porque precisas de alguém que saiba onde está o teu coração, ainda que saiba que este é o teu filme e eu seja apenas um personagem que desempenha um papel no teu drama arquitetado em emoções desarrumadas. Longas são as horas dos nossos corpos demorados um no outro. Adormeces sem te despedires… Ficas por uns dias. Mergulhas nos meus quadros. Ocupas-me as mãos indefesas. Sobes-me ao pensamento e desmontas pequenos enigmas. Espalhas sorrisos no meu rosto apenas por ter o teu rosto no meu. Falas-me das rotinas de dias copiados que são na verdade medos futuros. Vivemos juntos o que se vive quando se partilham espelhos. Durante dias não necessitas de uma personagem e deixas que me apaixone por ti por te apaixonares assim. Guardo estes dias por saber que a tua impaciência vai crescendo à medida de saberes serem insuficientes as minhas conquistas que mais parecem derrotas inevitáveis. Vou percebendo como se prolongam os teus silêncios perante o meu esgotamento de intenções, como se funde o teu gosto no meu sem que daí sobressaia um sabor, como te isolas demorada num canto como a anunciar uma partida porque acreditas que a prisão do amor é ser livre. Ficas por uns dias. Haverá noite outra vez.

                                                                                                                       De High and Dry dos Radiohead


Wednesday, September 25, 2019

55 - Transparente



Ainda anseio por essa paixão. Esse fogo que nasce na pele intocada mas que logo deseja extinção. Estou só. Lá fora um mundo vazio para mim, de ruas que me perseguem por já não saberem o meu nome, um céu desabrigado das noites que já não se despem devagar. Volto a recordar como me inventava num coração alheio e regresso sobrevivente nessas memórias momento de palpitações que iam submergindo misturadas, para num instante se suspenderem as palavras, fundindo-se orações pequenas de um só verbo. Era sol e lua num só corpo… Podia fazer nascer amor em qualquer rua como se cantasse feitiços mas deixando-me enfeitiçar também por quem me seguia. Esse jogo de um olhar que se fixa e avança antes mesmo do nosso corpo ceder, denunciado pelas palavras que atropelavam todo o sentido de estar ali, sem chão, mas resgatado pela vontade do outro lado, perdida também nesse labirinto infinito de antecipação latente. Olho para o meu reflexo. O cabelo desagregado como se fosse ele mesmo o tempo desfiando-se, uma ou outra memória mais dura marcada na face, deixando transparecer a agonia de envelhecer e ter de esquecer todas as estórias de corpos sagrados guardados nas mãos sem os poder reaver e reviver. A beleza que se desvanece aos poucos e vai deixando a alma cada vez mais escondida sob este corpo endurecido e consumido. Sinto-a cansada e desiludida. Vejo-a diariamente no espelho, algures entre o meu olhar meio desfeito e a cobardia de me enfrentar. O passar dos anos abatendo cada vez mais o seu ímpeto, a sua aura desvanecendo devagar como fosse condição necessária de uma normal aceitação observar o seu declínio de mãos atadas, a boca silenciada, o corpo castigado pela ausência de emoção de uma imaginação cada vez mais infértil. Já não ouso repousar as minhas intenções voluptuosas num olhar incógnito, invadir um pensamento feminal como se fosse um quarto imaginado, sem ocultar intenções, apenas poder ser predador e cru de uma fome natural. Capturar e ser refém. Ser transparente em qualquer imaginação que me descodificasse nessa pequena realidade de homem que não se podia render. Fantasio com o passado amando o amante que fui, revisitando essa beleza natural das idades que só sabem segredar paixões. Procuro-a nos olhos distraídos de rasgo felino do outro lado de um balcão, um corpo desembaraçado e esguio alimentando devaneios, pequenos mapas de pele descoberta apressando tesouros que já não consigo meus; na antecipação de um perfume que satura o ar matinal e inunda os meus vagos sentidos, sobrevivendo angustiadamente encantado numa pequena fantasia cruel de impossível, já fugindo pela rua fora preso a um véu cabelo negro; na silhueta boneca porcelana que me segue na viagem de regresso de comboio até casa, lado a lado como se fosse já metade do meu desejo mas que termina silenciosamente na estação seguinte sem uma inglória despedida que possa prolongar um pouco mais este romance ignorado; num olhar denunciado que se prolonga tempo demais; nas curvas pronunciadas de uma cintura dançarina que chama as minhas mãos; nos lábios que sabem pronunciar de cor o meu nome sem o dizer… sou um penhasco invertido. Ainda anseio por essa paixão. Esse fogo queimando-me amargamente a pele de intocada, desesperado por essa eterna extinção. Procuro-me nos reflexos. Sou apenas um homem transparente que ninguém quer encontrar. Envergonhado nesta comoção por mim próprio que todos podem reconhecer.

Thursday, August 15, 2019

54 - Insuficiente


Queria ser céu romance que te inunda
No teu quarto um imenso teto cor de mar
Onde renascem as ilusões do teu corpo a naufragar
Mas sou uma noite desamparada de profunda
Na solidão noturna uma consequência fatigante
De um desabrigo contínuo, a fantasia inconstante.  

Queria ser melodia que te embala morena
Na tua boca o soletrar de uma paixão intensa
O meu nome correndo num clamor fatal de sentença
Mas sou silêncio estridente de uma vulgar condena
Na tua face teatro vazio memorizado o delito
De um tempo aos poucos adiado num compasso infinito.

Queria ser sangue revigorante que se devora
Nas tuas veias o calor abrasando a pele afogueada 
Desses labirintos em chamas uma pulsação desgovernada
Mas sou fome tumultuosa que se prolonga na demora
Na tua alma ilimitada o vazio de um jejum indolente
De palavras isoladas, cartas queimadas, um beijo insuficiente

Saturday, June 15, 2019

53 - Fantasia


Entras. Sais. Não resta nada. É um hábito perder-me nos teus braços até desaparecer. Duas ou três palavras tuas ao telefone, um silêncio absurdo de infinito entre nós a inundar a minha resistência, a minha voz a resgatar-te como tudo tivesse sido ideia minha apenas para te voltar a ter aqui. Durante o tempo em que sou uma fantasia tua submersa foge-me a consciência devagar e vou perdendo a perceção da realidade depois de me ver nos teus olhos lânguidos por momentos terrenos furtivos. Quem sou eu quando chegas até perto de mim e me atravessas a alma, agarrando-me com ambas as mãos pela cintura, capturando-me? Não reconheço esta voz que sai da minha boca, engolindo aos poucos os sussurros retidos entre uma respiração desgovernada e uma súplica desnecessária de incompleta. Neste lugar abandonado sou o que queres que seja, num minuto, ao longo das horas, até a minha perceção de tempo se transformar em viagens a anos-luz fora de rota. Sou uma fantasia tua e nada mais. Erguendo delírios ao entardecer, repetindo devaneios ao luar… recordar-te ao amanhecer. O meu corpo alado descontrolado sobrevoa o teu, rendo-me facilmente perante o teu ímpeto ao depor todas as minhas armas sem rancor, obrigo-te a procurar-me um pouco mais para além do teu anseio irrefreável, deixo-te ficar sobre mim até seres meu. Não sei como te impedir. Pedes-me para ser luxúria num lugar clandestino onde possas ser tu, levo-te para dimensões onde não saberias ir sozinho para te despir e definir, aproximas-te pelos percursos dos ângulos mortos como lobo sinistro para me surpreender, enlouqueces-me aos poucos quando na noite ecoas o meu nome como se contivesse algum segredo que não pudesses compreender. Não há tempo para palavras de antecipação. Capturas-me… uma e outra vez, regressas… extraindo incansável fantasias do teu corpo com as minhas mãos vou adormecer abraçada por lençóis fantasma paralisados. Os nossos momentos não perduram para além da lascívia incauta de quem pensa que amar poderia ser também desejar. Queres desistir mas não sabes como parar de me pedir para regressar. Sou tua! Poderia ser tudo! Bastaria que procurasses um pouco mais para além da minha pele. Bastaria que me pedisses sem te demorares nas palavras erradas com que vais preenchendo o tempo necessário apenas para não pareceres um intruso privado que não posso repelir. Somos momentos terrenos sem um qualquer céu para onde sonhar inocentes. Nada me diz que vais regressar para me desnudares numa nova fantasia herdeira da que acabamos agora de sepultar. Nada me diz que em breve não te cansarás do meu corpo que tateias como sempre tivesse sido teu para além da tua pulsação que junto de mim não sabe como abrandar. Escuto-a durante todo o percurso… desde o instante irreversível que chegas e te lanças na direção da minha alma, agarrando-me com ambas as mãos pela cintura, até ao momento abismo em que abandonas o nosso palco de saliva, fadiga, frenesim e redefines silêncios. Quero saber porque bate o teu coração assim quando somos apenas os dois. Entras. Sais. Não resta nada.

Sunday, May 19, 2019

52 - Voyeur



Consigo ver-te secretamente na noite,
Com o meu olhar lunático que te encontra
Deitada num sofá, sorrindo-me da multidão,
Acariciando cabelos, chorando tão perto.

Perscrutando-te a intimidade sem perguntas,
Descubro-te nos teus mais puros defeitos,
Cego-me na beleza que só eu posso assombrar,
Amo-te e segredo-te o meu nome.

Sou uma sombra no silêncio do teu sonho,
Sorrindo-te do horizonte da tua janela,
Sou louco, mas tão presente, somente
eu me deito junto de ti, desejando-te.

Wednesday, May 15, 2019

51 - Revisitado

A minha mente captura-te sólida de uma fotografia antiga
Trago-te até mim como se regressar fosse apenas sonhar e desejar
Sorris-me como se a inocência fosse uma mágoa que me castiga

Olhas-me nos olhos e dizes-me tudo. O que eu nunca poderia saber.
O que saberias então de mim? Saberias tu que seria assim?
Este tempo infinito e mudo onde escondo silêncios ao adormecer.

Ouvir-te e só querer esquecer, desaprender de falar por não querer escutar
Gritar e guardar todos os meus ecos para te mostrar…
… o ainda amor!

De nada me vale agora saber, que não se domina este fervor.
Que há momentos que não são desenhos pequenos ou canções por aprender
São pulsações que guardamos na mão. Que nos mostram que sim ou que não.

Sou este atraso em lugares revisitados, de colisões a escombros provocados
Um ser incompleto, uma frase demorada de inacabada, este escudo aberto
Sustendo na boca o teu nome hostil, como um beijo inevitável e subtil.

Monday, April 22, 2019

50 - Quarto vazio

Esvaziamos o nosso quarto aos poucos,
Como se esvaziam recordações entre sorrisos de conversas tontas,
Aos poucos, vamo-nos abandonando sem saber onde.

O perfume dos nossos vestígios dissipando-se com o morrer do dia frágil,
Desaparece vagamente no espaço de um quarto tão vazio das cores de outrora,
Dos objetos inundados de passados, do que fomos tão perto.

Sobrevivemos nós olhando-nos perplexos à distância de um silêncio, 
Como peças de mobília nua sem sítio onde cair bem,
Amando-se pelo quarto fora à procura de um resto de memórias.

Despimo-nos como despimos antes este quarto ao sabor de lágrimas,
As roupas fazem-se fantasmas salientes no branco indiferente do espaço nu,
E a noite abraça o resto de sentimento através da janela privada.

Engolimos a respiração quente, calamos sussurros, lutamos juntos, 
Somos estátuas movendo-se devagar, de sentimentos já petrificados,
Únicos fragmentos de um quarto vazio onde sempre poderemos ser.