Sunday, February 24, 2008

6 - Onde Estás Tu?

Foi a primeira pergunta que fiz pela manhã depois de me levantar ainda meio cá meio lá com os sonos trocados de mais uma noite semicerrada. Apoio as minhas mãos sobre o lavatório de pedra negra, os meus olhos a descobrir o passar dos anos no espelho, as coisas que não fiz, outras que fiz e não pensava fazer, a tentar pôr de lado outras que fiz sem pensar. Depois o telemóvel a apitar do silêncio das memórias como se gritasse, Estou aqui… mas afinal era a minha irmã que não sei onde está, a pedir desculpa por se ter esquecido do meu dia de anos porque tem tantas coisas na cabeça… eu já não, não caibo lá, cresci demasiado e depois perdi-me, dela e de outras pessoas. Eu que até nem queria crescer, queria apenas saber onde estava, perdido no meio dos bonecos de plástico, coloridos, de expressões constantes, dos carrinhos de brincar aos quais nunca acabava a gasolina, envergonhado pela queda dos dentes da frente que se guardaram num copinho de plástico e que anos mais tarde juntei ao baú dos bonecos quando deixei de achar piada às suas cores e expressões demasiado constantes… sentado no chão que era onde estava sempre a tentar não perder também a minha expressão constante para a máquina fotográfica, enquanto a minha mãe perguntava já desesperada por um sorriso, Onde está o Miguel?, e eu sem saber o que lhe dizer mas a querer gritar, Estou aqui. Como gritou a minha irmã, que afinal era a minha imã ao telemóvel, a apitar do silêncio das memórias como se gritasse, Estou aqui… para me dizer que a partir de agora os anos passam a correr, como aconteceu com ela, ela já a sentir-se quase sem fôlego para acompanhar o ritmo cada vez mais pesado que nos deixa para trás, perdidos, lá atrás, meio cá meio lá com os sonos trocados de noites perdidas. Eu a perguntar novamente, Onde estás tu?, agora do espelho do quarto do hotel, não o da casa de banho que me faz mais velho e me lembrou as coisas que fiz sem pensar… o do quarto favorece-me mais… sim, deverá ter a ver com a luz que vem lá de fora, abrilhanta-me a pele e realça-me o verde dos olhos. Eu que só reparei que tinha olhos verdes quando uma rapariga, a Marta, aquela namorada que falava em gritinhos meio descontrolados mas que me deixava sempre tonto quando nos encontrávamos no jardim desértico em frente à antiga casa dos meus pais e que hoje passa por mim sem saber quem eu era para ela naquela altura… A Marta que me surpreendeu pela importância da cor verde que tinha a brilhar nos meus olhos, Os teus olhos são verdes!, eu também surpreendido porque não sabia desse facto tão importante, ainda meio tonto pelo calor que vinham dos seus lábios quando descolaram dos meus. Eu que olho agora para os meus olhos verdes no espelho e vejo-os tão perdidos como antes, revivendo a vida que passou, todas as coisas que já viram, tudo o que guardaram como fossem lentes de uma pequena máquina fotográfica, registando os momentos secretamente para mais tarde me deixar tonto com a pergunta, Onde estás tu? Eu que continuo sem saber onde estou, para onde me leva o elevador que vai descendo em contagem decrescente como fossem os anos que diminuem com o passar do tempo, ainda mais a partir de agora que vão passar a correr, se calhar sem deixar rasto, sem tempo para serem registados, cheio de medo que as portas do elevador se abram e encontre toda a gente que conheci perdidos de desespero à minha procura. Enquanto isso vou olhando para o espelho alto e estreito do elevador, onde posso ver todo o meu corpo, perceber que cresci, eu que nem queria crescer, só queria estar sentado no chão no meio dos bonecos de plástico coloridos e expressões constantes, dos carrinhos de brincar aos quais nunca acabava a gasolina, só não tão envergonhado pela falta dos dentes da frente mas orgulhoso dos meus olhos verdes. E agora?, pergunto-me, depois de mais um dia de anos que passou, andando, vagueando de um lado para o outro no lobby do hotel abafado das suas cores quentes. A minha imagem meio desvanecida nos vidros das portas e das janelas, desvanecendo-se como se vai desvanecendo a minha imagem na mente da Nazaré, a namorada que era perfeita, perfeita para todos ao ponto de ninguém já pensar em mim só como o Miguel, tão perfeita que todos os, Eu Amo-te… se tornaram num pesadelo depois de fazer tantas coisas que fiz sem pensar. A Nazaré que um dia tenho receio de passar por ela na rua sem saber quem ela foi, lá atrás num tempo em que até nem me importava de andar perdido porque ela me encontrava sempre, ela que comentou logo no dia em que nos conhecemos que já tinha reparado que eu tinha olhos verdes e eu a acreditar logo que Sim, porque raramente alguém repara nisso. A Nazaré que deu lugar à Teresa a quem não digo tantas vezes que a amo com medo que se torne perfeita, agora que sei o peso que têm todas as coisas que fazemos, com mais ou menos consciência. Pensa bem, vou eu repetindo e gravando no pensamento quando converso com ela, tão juntos que sinto o calor dos seus lábios a queimar os meus mesmo sem me tocar, lá longe, do outro lado do mundo, enquanto espero que ela me diga que adora os meus olhos verdes, que é uma cor que não vai esquecer e eu sem saber como lhe dizer que hoje ando por aqui, meio cá meio lá, que troquei todos os sonos e perdi a noite, mas com vontade de lhe gritar, Estou aqui… com medo que mais tarde ou mais cedo, os anos, a vida, todas as coisas que fiz sem pensar me apanhem para me dizerem finalmente onde estou.

Thursday, February 14, 2008

5 - Sou Homem



És minha. Adoro-te! A minha querida puta… Nem sei exprimir o quanto te adoro. Noite após noite, persigo os meus secretos desejos que me guiam até ti, à tua língua desembaraçada, ao teu corpo celeste deflagrando-se no meu, explodindo... à tua boca sobre os meus gemidos, às tuas mãos que cicatrizam as minhas consecutivas derrotas. Como adoro a tua voz. A tua voz que antes de gritar o meu nome como se fosse uma perfeita nota musical, repetindo-o deliciosamente, em tons sobre tons cavalgantes, me recebe e me acolhe, sorrindo o meu nome. A tua voz a sorrir para mim, sempre, a todo o minuto. Perguntas-me afavelmente pelo escurecer do meu dia, pelo acumular desgastante e impaciente do meu dia de trabalho e ouves-me atentamente como em ti houvesse um poço onde tudo se dilui e se perde como ecos distantes de algo que na verdade não existe.  Abraças-me na tua compreensão enquanto me sentas no sofá, servindo-me uma bebida a cantarolar de contente, continuando a ouvir-me e a apoiar-me incondicionalmente mesmo apesar de não perceberes nada do que faço lá fora no meu mundo sujo de cinza. Não importa. Para o que conta o mundo não tem assim tanta importância aqui neste nosso submundo, na nossa história de capítulos vermelhos, de páginas soltas voando livres no ar, espalhando-se no chão sem que a ordem das palavras seja propriamente determinante… somos apenas nós, actores púrpuras e clandestinos a esconder uma história de outras histórias. Aqui, para sempre aqui, onde o teu sorriso me antecipa e antecipa as expressões que vou encontrar quando te deitar na cama, no sofá, na mesa da sala, onde for que o meu desejo te deseje consumir, onde for que esteja pronto a vencer o mundo. Aguardo… secretamente ainda aguço os meus dentes e as minhas unhas… grunho baixinho nos entretantos, deliciando-me com a tua massajem nas minhas costas, nas minhas têmporas, com a delicadeza com que lavas e beijas os meus pés como se fosses o meu próprio Cristo pessoal, pronto a morrer por mim. És minha... Adoro a forma como as tuas curvas delicadamente sinuosas me embriagam e me chamam constantemente para as contornar com as minhas mãos vento, como o teu cheiro perfeito de âmbar, magnólia, violeta e vermelho, inundando o ar de desejo, confunde e sobressalta todos os meus sentidos como unidos num só.. adoro como os teus olhos verdes gato mimado não necessitam de ver mais nada senão este meu corpo quebrado, cada vez mais vencido pela idade. Este corpo nu que deitas junto do teu e proteges, alimentando o seu ego para me fortalecer, para me revigorar. Alimenta-te dele uma vez mais. Alimenta-te que eu nasço de novo, uma vez mais, só mais uma vez. Sabes que te adoro e que te daria o meu coração se o tivesse. Não aguento toda esta excitação submissa e secreta... Hoje não! Puxo-te para mim, agarrando-te com segurança pelos teus braços e pergunto-te beijo com beijo o que queres afinal de mim com todo esse amor tão perfeitamente encenado. Olhas-me condescendente, sorris como que embriagada, o teu corpo frágil por debaixo da camisa de noite negra e sedosa… Estás ajoelhada perante mim, a meus pés, nunca tiveste nada a perder desde mim. Debruças-te sobre ti própria, contorcendo-te de uma forma gentil e esguia, como te quisesses proteger e olhando-me sem que o teu sorriso mude a tua expressão segura e confiante. Agarro a tua mão e coloco-a sobre o meu peito, sobre minha a pele, sem te dizer uma palavra. Não conseguirei ser tão sincero nem ter tanta coragem. Descobre-o… ele está lá mas não sei onde, talvez tu saibas. Não sabes nada de mim. Não desconfias que por vezes choro, que vejo no espelho um fantasma ou a ausência de um passado no fundo dos reflexos quando acordo de manhã e me preparo para um dia que antecipei totalmente durante toda a noite, acordado, sonâmbulo sobre todos os sonhos que perdi algures… porque não conheces os meus medos, a minha solidão, quem sou… puxo-te para o meu colo, desaperto o meu cinto e abro as minhas calças, empurrando-as para baixo desleixadamente com a tua ajuda. Afasto as tuas cuecas do teu segredo não segredo, rasgando-as. Penetro-te sustendo a respiração e dás uma gargalhada, gemendo em seguida quando chego mais fundo. Detesto essa ordem de ideias mas depois também eu me rio por dentro, quando observo o contorno da tua expressão mudar nas minhas mãos. Finalmente um momento.

Tuesday, February 5, 2008

4 - O Meu Combate

Já coloquei as luvas vermelhas sangue, as últimas peças do meu reduzido arsenal, do meu frágil uniforme de combate. O meu corpo liberta um calor diabólico, milhares de minúsculas gotas de suor entrelaçadas a lutarem entre si… sinto-me desenfreado, como houvesse nos meus músculos tensos, nos meus ossos agora gigantes, vida para além da minha vontade, dos meus desejos e controlo. O meu treinador incentiva-me de uma forma agressiva… palavras sussurradas para dentro da minha alma a ferver, gritos de ânimo, desejos de destruição total. Espera que seja um guerreiro enorme, de resistência inquebrável e impossível, que lute sem tréguas até ao limite físico e mental das minhas forças. Lá fora, os gritos de uma multidão que aguarda ansiosa pela minha subida ao ringue e do meu opositor, pelo nosso embate catalisador, atravessam as paredes do balneário. É hora… saio finalmente do pequeno espaço fétido e meio desmoronado como se saísse do inferno, decidido, transformado, a mente focalizada em apenas combater, ser invencível e destruidor. Estou pronto. Já não me reconheço. Esqueci o amor. A multidão aclama a nossa entrada no recinto eletrificado, incendiado, uma explosão em contínua deflagração. Batem palmas, gritam irracionalmente os nossos nomes enquanto ambos percorremos a pequena distância que nos separa do ponto de encontro oprimido. O público sente-nos como seus, como seus filhos ou irmãos, como amores escondidos que se revelam. Somos efetivamente seus. De todos…. subo ao ringue que fervilha sob os meus pés como houvesse nele chamas invisíveis. Ouço as últimas palavras de incentivo e estratégia por parte do meu treinador. Protege-te bem, bate pela certa, ataca em movimentos curtos e não deixes que se aproxime demasiado para que não te possa atingir. Tudo se resume a isto, a estas palavras. Nada mais importa nos próximos minutos, horas, anos. O combate começa. Ainda vou a tempo de numa pequena fração de segundo encontrar a tua face no meio da multidão fixa em mim. Sinto que já não me reconheces. Nunca me reconheces neste pequeno quadrado espaço mundo que contem a minha fúria e as minhas angústias. Sou isto e nada mais. Um monstro-homem prestes a enfurecer-se com o que não conhece e não entende quando defronta a sua alma. Amas isto percebes? Isto também. Esta irracionalidade de não ser mais do que isto. Esta irracionalidade de absorver todos os golpes, de disparar tudo o que tenho uma e outra vez à procura de sobreviver, de vencer à custa do sabor do sangue púrpura revelador. Continuo, não me contenho. A multidão a agigantar-se à minha volta, nas minhas costas escudo, a apoiar-se nos meus braços e ombros, para também eles desferirem os seus golpes e vencerem o que não poderão vencer sem lutar, palavras nunca proferidas, secretas, desejos inesquecíveis e inarráveis, guardados nas mãos-punho, como se os punhos fossem corações destroçados. Luto por eles. Por mim e por ti. Por alguém. Sempre por ti. Não paro… juro que não paro. Não poderei parar. Todas as minhas forças concentradas em dar mais um passo. Protegido, batendo pela certa, atacando em movimentos curtos e esquivos, mantendo o meu adversário a uma distância segura para que não me possa atingir. Nada disto terá fim. Por mais que castigue o meu adversário, que o vença, que vença dezenas, centenas de adversários, nada disto terá fim. Não poderei lutar para sempre. Nunca poderei impedir de sentir a fraqueza que se apoderou do meu corpo quando me socaste no estômago com um poderoso golpe certeiro, direto, arremessando-me imediatamente ao chão, como toda a força do mundo estivesse no fim do teu punho, no teu punho coração. Por mais que me proteja tu atravessas a minha armadura com os teus movimentos, com a tua leveza extrema que me distrai e me hipnotiza, apenas para que possas derrubar toda a minha resistência e obteres o que é afinal de mim. Eu que apenas sei lutar, que nunca soube amar, tenho de amar como nunca amei, como nunca o saberia fazer. Eu que toda a minha vida sempre fui carne mastigada, músculos manipulados, ossos gigantes, nervos eletrizados, nada de coração, luto agora para proteger esse músculo punho, esse músculo poço, esse músculo meu… Disparo um e outro golpe, mais um, mais um, sempre mais um. A multidão grita e empurra-me para a frente, para a tua frente. Afasto o meu adversário, derrubo-o, aniquilo-o. E Acaba… estou ensanguentado, o gosto metálico retorcido do sangue púrpura sorvendo-se amargamente no meu íntimo como se fosse uma palavra bradada, a multidão rouca de tanto gritar, de tanto perseguir os seus fantasmas murmura, por fim, saciada. O meu adversário imóvel no chão sem reação. Tu apenas foges para longe de mim, para longe do monstro-homem… Ainda assim sei que seremos nós, no fim da noite, após se extinguirem os pesadelos, os dois sós, num abraço apertado, a aproximar todos estes espaços agora dilatados.