Sunday, February 24, 2008
6 - Onde Estás Tu?
Thursday, February 14, 2008
5 - Sou Homem
Tuesday, February 5, 2008
4 - O Meu Combate
Já coloquei as luvas vermelhas
sangue, as últimas peças do meu reduzido arsenal, do meu frágil uniforme de
combate. O meu corpo liberta um calor diabólico, milhares de minúsculas gotas
de suor entrelaçadas a lutarem entre si… sinto-me desenfreado, como houvesse
nos meus músculos tensos, nos meus ossos agora gigantes, vida para além da
minha vontade, dos meus desejos e controlo. O meu treinador incentiva-me de uma
forma agressiva… palavras sussurradas para dentro da minha alma a ferver,
gritos de ânimo, desejos de destruição total. Espera que seja um guerreiro
enorme, de resistência inquebrável e impossível, que lute sem tréguas até ao
limite físico e mental das minhas forças. Lá fora, os gritos de uma multidão
que aguarda ansiosa pela minha subida ao ringue e do meu opositor, pelo nosso
embate catalisador, atravessam as paredes do balneário. É hora… saio finalmente
do pequeno espaço fétido e meio desmoronado como se saísse do inferno, decidido,
transformado, a mente focalizada em apenas combater, ser invencível e
destruidor. Estou pronto. Já não me reconheço. Esqueci o amor. A multidão
aclama a nossa entrada no recinto eletrificado, incendiado, uma explosão em
contínua deflagração. Batem palmas, gritam irracionalmente os nossos nomes
enquanto ambos percorremos a pequena distância que nos separa do ponto de
encontro oprimido. O público sente-nos como seus, como seus filhos ou irmãos,
como amores escondidos que se revelam. Somos efetivamente seus. De todos…. subo
ao ringue que fervilha sob os meus pés como houvesse nele chamas invisíveis.
Ouço as últimas palavras de incentivo e estratégia por parte do meu treinador. Protege-te
bem, bate pela certa, ataca em movimentos curtos e não deixes que se aproxime
demasiado para que não te possa atingir. Tudo se resume a isto, a estas
palavras. Nada mais importa nos próximos minutos, horas, anos. O combate
começa. Ainda vou a tempo de numa pequena fração de segundo encontrar a tua
face no meio da multidão fixa em mim. Sinto que já não me reconheces. Nunca me
reconheces neste pequeno quadrado espaço mundo que contem a minha fúria e as
minhas angústias. Sou isto e nada mais. Um monstro-homem prestes a enfurecer-se
com o que não conhece e não entende quando defronta a sua alma. Amas isto
percebes? Isto também. Esta irracionalidade de não ser mais do que isto. Esta
irracionalidade de absorver todos os golpes, de disparar tudo o que tenho uma e
outra vez à procura de sobreviver, de vencer à custa do sabor do sangue púrpura
revelador. Continuo, não me contenho. A multidão a agigantar-se à minha volta, nas
minhas costas escudo, a apoiar-se nos meus braços e ombros, para também eles
desferirem os seus golpes e vencerem o que não poderão vencer sem lutar,
palavras nunca proferidas, secretas, desejos inesquecíveis e inarráveis,
guardados nas mãos-punho, como se os punhos fossem corações destroçados. Luto
por eles. Por mim e por ti. Por alguém. Sempre por ti. Não paro… juro que não
paro. Não poderei parar. Todas as minhas forças concentradas em dar mais um passo.
Protegido, batendo pela certa, atacando em movimentos curtos e esquivos,
mantendo o meu adversário a uma distância segura para que não me possa atingir.
Nada disto terá fim. Por mais que castigue o meu adversário, que o vença, que
vença dezenas, centenas de adversários, nada disto terá fim. Não poderei lutar
para sempre. Nunca poderei impedir de sentir a fraqueza que se apoderou do meu
corpo quando me socaste no estômago com um poderoso golpe certeiro, direto,
arremessando-me imediatamente ao chão, como toda a força do mundo estivesse no
fim do teu punho, no teu punho coração. Por mais que me proteja tu atravessas a
minha armadura com os teus movimentos, com a tua leveza extrema que me distrai
e me hipnotiza, apenas para que possas derrubar toda a minha resistência e obteres
o que é afinal de mim. Eu que apenas sei lutar, que nunca soube amar, tenho de
amar como nunca amei, como nunca o saberia fazer. Eu que toda a minha vida
sempre fui carne mastigada, músculos manipulados, ossos gigantes, nervos
eletrizados, nada de coração, luto agora para proteger esse músculo punho, esse
músculo poço, esse músculo meu… Disparo um e outro golpe, mais um, mais um,
sempre mais um. A multidão grita e empurra-me para a frente, para a tua frente.
Afasto o meu adversário, derrubo-o, aniquilo-o. E Acaba… estou ensanguentado, o
gosto metálico retorcido do sangue púrpura sorvendo-se amargamente no meu
íntimo como se fosse uma palavra bradada, a multidão rouca de tanto gritar, de
tanto perseguir os seus fantasmas murmura, por fim, saciada. O meu adversário
imóvel no chão sem reação. Tu apenas foges para longe de mim, para longe do
monstro-homem… Ainda assim sei que seremos nós, no fim da noite, após se
extinguirem os pesadelos, os dois sós, num abraço apertado, a aproximar todos
estes espaços agora dilatados.
