Sunday, October 12, 2008
14 - Quarto de Hotel
Monday, September 15, 2008
13 - Última Noite
Thursday, August 28, 2008
12 - Fragmentos
Sunday, June 1, 2008
11 - Cópias
Monday, May 5, 2008
10 - Coração Virgem
Monday, April 21, 2008
9 - Canção
Sunday, April 6, 2008
8 - Quadro Tela de Cinema
Friday, March 7, 2008
7 - Lá ao Fundo o Mar
Lá ao fundo o mar azul. Um mar azul arrebatador, azul mundo. Anos azul, anos arrebatador, explodindo o céu, deflagrando estrelas, invertendo mundos uma e outra vez apenas para nos encontrarmos novamente, sorrindo. Um mar azul arrebatador, azul mundo a nossos pés… onde vivemos como pequenos aprendizes de deuses, dançando nele por não saber andar, por ter esquecido, flutuando cada vez mais para longe de tudo, absorvidos no nosso sonho até perdermos de vista todos os horizontes e sermos só mar arrebatador de tanto azul. Perdidos neste mar onde não ousas responder às perguntas que vão surgindo do teu íntimo profundo, do medo de saberes as respostas, de as saboreares, de as sentires debaixo da língua como se fosse um sabor doce guardado para mais logo, de tanto passares o seu gosto para mim entre beijos latejantes, sussurrados, ofegantes, fechados… amando-nos. Imersos nesse mar azul arrebatador. De tão imersos em momentos tão longos como caminhos não fizemos parte do mundo e onde fomos o mundo esqueceu-se de nós. Azul, para sempre azul de tão arrebatador.
Lá ao fundo o mar verde. Um mar verde saudade, verde solidão. O mar azul arrebatador, azul mundo, ausente, ainda tão presente. A sua cor esbatendo-se nos meus olhos até ser mar verde saudade, verde solidão. Afogo-me nele, engulo-o sofregamente, preenchendo-me os pulmões, ocultando-me as lágrimas escondidas, tornando cada vez mais esta ausência numa definição dos nossos momentos que me vão fugindo das mãos, sem que consiga evitar que fujam, que se soltem dos meus braços, lábios e peito, sem que novas memórias de tão verdadeiras rompam para me agarrar com força e vontade a esse mundo azul onde me perdi e me encontrei. Tento escutá-lo mas perco-me dele. Na verdade nunca o escutei de verdade… afastei-me cada vez mais até perder finalmente tudo da minha vista, até já não saber distinguir o teu cheiro, até esquecer a tua cor e não conhecer os teus reflexos ainda tão marcados na minha pele e coração. Tornei-me num fugitivo de nós, do nosso mundo azul, tornando-me finalmente numa sombra, num ladrão de momentos, num somar incessante e insano de vestígios infames. Faltou-me a coragem para mergulhar no mar verde saudade, verde solidão e procurar-te. Ver onde te afogavas, salvar-te, salvar-nos a nós e por fim salvar-me a mim.
Lá ao fundo o mar cinza. Um mar cinza revolta, cinza ruínas. Um mar debatendo-se para se manter vivo, para nos manter a respirar sob a sua pele. Vejo-o e renego-o. Já o esqueci. Parece-me cada vez mais longe, cada vez mais perdido, cada segundo mais o seu tom cinza revolta devorando-me, a sua alma consumindo-se abaixo da linha do horizonte como um mundo desmoronando-se em ruínas. Tudo isto que vivemos será ondas devastadoras, para sempre tormentas do nosso tempo extinguido. É tarde, demasiado tarde… todas as palavras que saem da minha boca apenas te mantêm longe, afogando-te nessa revolta, transformando o teu rosto numa memória cinza. E tu apenas choras, junto a mim, ajoelhada a meus pés como se fossem uma tábua de salvação, olhando-me nos olhos como nunca mais o poderei fazer. Agarrando as minhas mãos onde já não restam sinais de quaisquer momentos verdadeiros, dos nossos momentos e quebras-te finalmente em pedacinhos, tão pequenos, como se fosses tu o próprio mar perdendo-se sob a areia. Nunca mais esquecerei esse silêncio… o silêncio de todas as palavras que ficaram por dizer que guardei não sei porquê, num silêncio maldito.
Sunday, February 24, 2008
6 - Onde Estás Tu?
Thursday, February 14, 2008
5 - Sou Homem
Tuesday, February 5, 2008
4 - O Meu Combate
Já coloquei as luvas vermelhas
sangue, as últimas peças do meu reduzido arsenal, do meu frágil uniforme de
combate. O meu corpo liberta um calor diabólico, milhares de minúsculas gotas
de suor entrelaçadas a lutarem entre si… sinto-me desenfreado, como houvesse
nos meus músculos tensos, nos meus ossos agora gigantes, vida para além da
minha vontade, dos meus desejos e controlo. O meu treinador incentiva-me de uma
forma agressiva… palavras sussurradas para dentro da minha alma a ferver,
gritos de ânimo, desejos de destruição total. Espera que seja um guerreiro
enorme, de resistência inquebrável e impossível, que lute sem tréguas até ao
limite físico e mental das minhas forças. Lá fora, os gritos de uma multidão
que aguarda ansiosa pela minha subida ao ringue e do meu opositor, pelo nosso
embate catalisador, atravessam as paredes do balneário. É hora… saio finalmente
do pequeno espaço fétido e meio desmoronado como se saísse do inferno, decidido,
transformado, a mente focalizada em apenas combater, ser invencível e
destruidor. Estou pronto. Já não me reconheço. Esqueci o amor. A multidão
aclama a nossa entrada no recinto eletrificado, incendiado, uma explosão em
contínua deflagração. Batem palmas, gritam irracionalmente os nossos nomes
enquanto ambos percorremos a pequena distância que nos separa do ponto de
encontro oprimido. O público sente-nos como seus, como seus filhos ou irmãos,
como amores escondidos que se revelam. Somos efetivamente seus. De todos…. subo
ao ringue que fervilha sob os meus pés como houvesse nele chamas invisíveis.
Ouço as últimas palavras de incentivo e estratégia por parte do meu treinador. Protege-te
bem, bate pela certa, ataca em movimentos curtos e não deixes que se aproxime
demasiado para que não te possa atingir. Tudo se resume a isto, a estas
palavras. Nada mais importa nos próximos minutos, horas, anos. O combate
começa. Ainda vou a tempo de numa pequena fração de segundo encontrar a tua
face no meio da multidão fixa em mim. Sinto que já não me reconheces. Nunca me
reconheces neste pequeno quadrado espaço mundo que contem a minha fúria e as
minhas angústias. Sou isto e nada mais. Um monstro-homem prestes a enfurecer-se
com o que não conhece e não entende quando defronta a sua alma. Amas isto
percebes? Isto também. Esta irracionalidade de não ser mais do que isto. Esta
irracionalidade de absorver todos os golpes, de disparar tudo o que tenho uma e
outra vez à procura de sobreviver, de vencer à custa do sabor do sangue púrpura
revelador. Continuo, não me contenho. A multidão a agigantar-se à minha volta, nas
minhas costas escudo, a apoiar-se nos meus braços e ombros, para também eles
desferirem os seus golpes e vencerem o que não poderão vencer sem lutar,
palavras nunca proferidas, secretas, desejos inesquecíveis e inarráveis,
guardados nas mãos-punho, como se os punhos fossem corações destroçados. Luto
por eles. Por mim e por ti. Por alguém. Sempre por ti. Não paro… juro que não
paro. Não poderei parar. Todas as minhas forças concentradas em dar mais um passo.
Protegido, batendo pela certa, atacando em movimentos curtos e esquivos,
mantendo o meu adversário a uma distância segura para que não me possa atingir.
Nada disto terá fim. Por mais que castigue o meu adversário, que o vença, que
vença dezenas, centenas de adversários, nada disto terá fim. Não poderei lutar
para sempre. Nunca poderei impedir de sentir a fraqueza que se apoderou do meu
corpo quando me socaste no estômago com um poderoso golpe certeiro, direto,
arremessando-me imediatamente ao chão, como toda a força do mundo estivesse no
fim do teu punho, no teu punho coração. Por mais que me proteja tu atravessas a
minha armadura com os teus movimentos, com a tua leveza extrema que me distrai
e me hipnotiza, apenas para que possas derrubar toda a minha resistência e obteres
o que é afinal de mim. Eu que apenas sei lutar, que nunca soube amar, tenho de
amar como nunca amei, como nunca o saberia fazer. Eu que toda a minha vida
sempre fui carne mastigada, músculos manipulados, ossos gigantes, nervos
eletrizados, nada de coração, luto agora para proteger esse músculo punho, esse
músculo poço, esse músculo meu… Disparo um e outro golpe, mais um, mais um,
sempre mais um. A multidão grita e empurra-me para a frente, para a tua frente.
Afasto o meu adversário, derrubo-o, aniquilo-o. E Acaba… estou ensanguentado, o
gosto metálico retorcido do sangue púrpura sorvendo-se amargamente no meu
íntimo como se fosse uma palavra bradada, a multidão rouca de tanto gritar, de
tanto perseguir os seus fantasmas murmura, por fim, saciada. O meu adversário
imóvel no chão sem reação. Tu apenas foges para longe de mim, para longe do
monstro-homem… Ainda assim sei que seremos nós, no fim da noite, após se
extinguirem os pesadelos, os dois sós, num abraço apertado, a aproximar todos
estes espaços agora dilatados.
Thursday, January 31, 2008
3 - Sabes não Sabes?
Se sei, esqueci-me. Passados
trinta anos, esqueci-me. Passado o tempo do perfume das rosas que inundava o ar
que respirava, definitivamente, esqueci-me. Olho para ti sem que te apercebas
da minha vigilância plebeia, remetida ao meu canto, esquecida como se fosse uma
eterna peça de mobília que mesmo assim não se consegue descrever. Nunca te
apercebes. Esmagado na soberba do teu sofá, os teus olhos vagueiam minuciosamente
pelo jornal, absorvido pelas palavras de outros que são todas as que necessitas
para ires sobrepondo lentamente sobre as minhas até chegar o momento em que
nenhuma palavra minha fará qualquer sentido. Observo-te… as tuas rugas
marcam-te a face como caminhos, como cicatrizes das quais não existem memórias
de feridas, O teu cabelo perdeu a força e a juventude em alguns pontos do couro
cabeludo brilhante sem que dês grande importância ao facto, Nas mãos observo
como as veias ganham força sob a pele como cordas que vão amarrando o teu corpo
por dentro até irremediavelmente o sufocar um dia, Perdeste claramente alguma
da aquela tua atrativa robustez física que tão bem te distinguia e que chamava
a atenção de qualquer mulher que passava por ti na rua… a mim, para sempre.
Ainda assim, amo-te. Mas esqueci-me. Passados trinta anos, esqueci-me. Passado
o tempo do perfume de todas as rosas que inundava o ar que respirava, das
maiores e mais belas rosas, definitivamente, esqueci-me. Agora todo o cheiro
que emana do ar é o dos teus cigarros esmagados uns contra os outros no
cinzeiro arrasado… às vezes enojas-me. Isso também faz parte do amor? Enojas-me
sobretudo pela vida que vai ficando inutilmente por contar, ao ponto de ter
vontade de gritar um palavrão ou uma outra palavra qualquer que nos acorde aos
dois e que nos leve de volta ao que um dia tivemos e que foi só nosso. Uma
palavra mágica que encante este desencanto. Tenho vontade de te perguntar em
que ponto destes trinta anos tu seguiste para a esquerda e eu para a direita,
como foi que este pequeno espaço que nos separa se tornou num espaço sem
horizontes onde andamos sempre perdidos um do outro. Sinto que ambos temos uma
doença mortal… cada vez mais o nosso tempo limitado pelo tempo e nós sem fazer
nada. Tu a leres o jornal, a sobrepores palavras de outros sobre as minhas até
que me cale de vez, eu, distraída com a televisão, a única que fala nesta casa,
que diz piadinhas e disparates, que conta histórias, que inunda a casa com o
som de risos, ainda que nós não nos ríamos de nada. Tu que me dizias que o meu
riso se assemelhava a música! Dizias disparates deste género frequentemente…
dizias ainda mais disparates quando fazíamos amor. Tudo isso inundava o ar com o
perfume das rosas, das maiores e mais belas rosas, e eu esquecia que tu fumavas
e permitia o cheiro pestilento dos cigarros esmagados em todo o lado nos
cinzeiros arrasados. Agora quando ocasionalmente fazemos amor, já nem sei se o
fazes comigo, se fazes antes com as tuas fantasias incumpridas que não ousas
revelar, se fechas os olhos ou escondes a tua cara porque queres ali uma miúda
de vinte anos e não um corpo já desgastado, sem energia para séries de sexo
acrobático, sem a rigidez e os contornos de outros tempos e os quais te
deixavam completamente louco. Invariavelmente penetras-me quase sempre por
trás, sem que me tires a maior parte das peças de roupa que me cobre os anos,
como se fosses um animal que cumpre a sua função de cobrir, sem carinho, sem
uma palavra que inunde o ar com o perfume de rosas e faça o tempo perder conta
do seu fio condutor. Disparates. Tantos disparates… sei que também sou uma
cobarde, que não falo, que não grito um palavrão ou uma outra palavra qualquer
que nos acorde aos dois e que nos leve ao que tivemos e que foi só nosso. Uma
palavra mágica que encante este desencanto. Tenho medo de te ver partir todos
os dias quando sais para trabalhar e fechas a porta na cara da minha vigilância
plebeia, muito silenciosamente, sem uma palavra, como se fosses um gatuno com
medo de ser apanhado por mim. Tenho medo de que não voltes, que encontres uma
miúda de vinte anos e lhe digas uma série de disparates e ela acredite neles
como eu acreditei, que lhe inundes o ar com o perfume de rosas, mesmo que sejam
das mais pequenas, mas que sejam suficientes para ela não se aperceber do
cheiro dos teus cigarros. Por isso não falo, por isso permaneço em silêncio
sentada no sofá, fingindo estar ocupada com a televisão enquanto tu lês o
jornal, amontoando uma montanha de palavras cada vez maior sobre os disparates
que outrora me disseste porque talvez os queiras esquecer, por isso deixo que
me cubras como se ambos fossemos animais irracionais sem qualquer sentimento,
por isso deixo que finjas que sou uma miúda de vinte anos, por isso vejo-te
partir sem a certeza de um regresso. Tu sabes que te amo… não sabes? Eu sei que
me esqueci. Passado trinta anos, esqueci-me. Apenas sonho em silêncio com o
tempo das rosas, com as maiores, as mais belas, com o seu perfume a saturar-me,
por fora e por dentro. Por favor… lembra-me como foi. Tu ainda sabes como foi…
não sabes?
Thursday, January 24, 2008
2 - Enquanto Dormes
Tu falas enquanto dormes. É comum
durante a noite já toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, acordares-me
com doutrinas murmuradas como numa conversa íntima de amantes. Revelas-me essas
palavras pela noite fora, codificando sonhos, provenientes da profundidade e
escuridão do sono, esperando que eu as oiça e agarre. Uma variedade de sons
desconexos, monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra
perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… a luz ténue dos candeeiros da
rua atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, revelando-a.
Mostra-me nos seus reflexos as tuas expressões, a intensidade com que se
deformam os sons e as palavras que vão saindo da tua boca. A tua face tornando
vivos os sons e crivando um contexto. Os sons balbuciados, que não fazem
sentido no plano de um quarto silencioso, esquecido como tantos outros no ventre
da noite toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, dançando, sussurrando,
adormecendo, levando-nos com ela. Resisto e perco-me nas horas das minhas insónias
a olhar para ti enquanto dormes, o teu corpo belo misturando-se nos contornos dos lençóis revoltos, levando-me a
ansiar por mais sons desconexos, eu a aprender línguas mortas e paralelas,
entusiasmado com uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, a delirar
com uma frase a sobressair neste meu silêncio secreto… tento perceber o que me
dizes, tento entrar nos teus sonhos à força, perceber as tuas preocupações,
afugentar os teus medos, guardar os teus segredos, junto dos meus. Vou perdendo
o rastro ao tempo, sobrevivendo a custo com a ajuda da luz ténue dos candeeiros
da rua que atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, como se
fosse uma carícia minha, tornando-te mais minha do que em qualquer outro
momento. Tu que agora me deixas a espaços com uma torrente de sons balbuciados
noite após noite, monólogos de línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra
perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… Por vezes frases, frases
desunidas que apanho como pedaços de nós, esperando que sobrevivam a nós, que revelem
o que fomos. Mas não consigo acompanhar-te. A tua intensidade invade-me e deixa-me
a lutar por mim... A noite sonâmbula finalmente desaparece. A infantilidade da madrugada
traz-te no seu regresso, os teus olhos abertos pelo toque do despertador
intruso, a luz densa do dia que atravessa a janela incisiva. Descobres os meus
olhos, também eles abertos e fixos em ti. Um bom-dia a correr, numa língua
morta e paralela a este plano, um beijo mal dado com sabor a sono. Já foges de
mim… Os sons do dia, todo ele braços e pernas, músculo, movimento, a entrarem
pela casa como intrusos inesperados. O som da água a perfurar torneiras, o som
da água a colidir intensamente no teu corpo, os teus pés húmidos a marcar o
chão de um lado para o outro num rasto confuso que não ouso perseguir, portas a
bater nesta e naquela divisão, a torradeira a fazer saltar fatias de pão
tostado como se fossem brinquedos atirados ao ar, peças de loiça primeiro sobre
a bancada da cozinha depois sobre a mesa da sala, a televisão a inundar
subitamente o ar de palavras estranhas, falando por nós, novamente os teus pés
de um lado para o outro, o som abafado da tua pele sobre o pavimento, um passo impaciente,
mais portas a bater, do quarto, do roupeiro cheio de eus e tus pendurados à
espera de sair dali a correr, a imagem cansada da casa de banho ainda húmida do
teu duche como se fosse suor, as gavetas da cómoda, toda uma sinfonia de sons e
vestígios que te levam dali para fora, uma vez mais os teus passos, agora
torturando os vizinhos com o som oco dos teus saltos altos, finalmente o tilintar
das tuas chaves de casa a assinalarem a antecipação da última porta que se
fecha, o final do agora, de mais este momento apressado. No fim de tudo, tantos
sons desconexos, nós a comunicarmos através de línguas mortas e paralelas sem
palavras, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível na minha mente que
não tem destino onde se fazer ouvir… Por vezes frases, frases que só fazem
sentido neste plano porque os nossos corpos por vezes colidem e não temos mais
nada para dizer, mas dizemos o que queremos ouvir. Oiço de ti uma despedida
fugitiva, duas pequenas palavras totalmente compreensíveis que conseguem inundar
o ar de solidão. A minha solidão. Mais uma porta que se fecha…. Fico ali a olhar
para aquela porta como se tivesses fechado um túmulo atrás de ti. Resta-me
saber que mais tarde a noite virá, toda ela corpo, de forma negra e silenciosa.
Com ela a luz ténue dos candeeiros da rua atravessando as janelas abertas,
incidindo sobre a tua face para te revelar no meu silêncio secreto dos teus sons
desconexos, dos teus monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra
palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase... alguém com quem eu
possa falar...
Monday, January 14, 2008
1 - Encontro Amoroso
Chego a casa depois de mais uma
passagem pelo sonâmbulo turno noturno que me absorveu nas longas horas da
noite, mastigando-me, degustando a minha resistência até ao último grito íntimo
de delírio. Abro e fecho a porta de entrada de casa tão silenciosamente como uma
verdadeira invasora… de vidas, de horas e horas perdidas, tempos trocados. Sei
que no escuro do quarto ainda dormes na nossa cama que tantas vezes sustenta a
solidão dos nossos corpos, um seguindo o outro, como confessores indignos dos
nossos próprios desejos. O cheiro do meu suor está colado na minha pele como se
fosse uma outra pele. Depois de pousar a mala no sofá, passo a mão pelo pescoço
e pela nuca, num gesto que tem tanto de carícia como de repelente, tentando
relaxar os músculos retesados, sacudindo depois as mãos como pudesse expulsar com
estes simples movimentos aparentemente aflitos, esta película invisível que me
arrasta continuamente numa sensação melancólica. Não posso. Nesse suor estão
dissolvidos todos os momentos da noite passada, todos os pensamentos que
absorvi no silêncio dos gemidos e dos lamentos forasteiros de perdidos, nos
sussurros de palavras irracionais de lúcidas. Não me recordo a última vez que
esqueci este cheiro, a última vez que percebi que não domina o meu sentido olfativo.
Não me é possível esquecê-lo nem nos poucos momentos de lazer, de descanso ou
simples alienação… porque tudo o que desejo é que o meu pensamento se perca e
se esqueça de mim, esqueça que tem uma dona, um comando ou rumo, que tem
sonhos, planos formulados e por formular, responsabilidades para demarcar de
tudo o resto, preocupações para tentar esquecer… Dispo-me lentamente aqui mesmo
na sala sempre fria de Invernos substituindo Invernos das solidões consecutivas
que nenhum verão como este consegue vencer. A roupa sobre o sofá como os
contornos de um fantasma de um tempo perdido. Entro na casa de banho lenta e
silenciosamente, invejando fantasmas e invado a banheira túmulo. A água morna
abraça o meu corpo e esconde todo o meu cansaço por pequenos momentos. O vapor
esconde-me e afasta-me do mundo. Leva-me para um lugar onde não existo e de
onde não quereria voltar, apenas para ser tua novamente. A água leva parte deste
peso, de noites a alimentar esperanças que não são minhas, de vidas prestes a
terminar nas minhas mãos, de lamentos que acabam por ser também um pouco meus.
O que realmente se perde nas lágrimas? Por fim renascida, invado o nosso
quarto, silenciosamente e vejo-te, ali tão perto, misturado na roupa de cama
como se tivesses lutado toda a noite. Não suportas o calor dos verões, debates-te
toda a noite na tentativa de te libertares dele. Não consegues… olho para o
relógio da cómoda e percebo que falta apenas um minuto para despertares com o
despertador. Desligo-o furtivamente e deito-me na cama ao teu lado sem que
sintas a minha presença. Por um momento apenas. Serei tua novamente, no dia em
que o tempo não nos diga que é tarde demais... abres os teus olhos e estou ali,
mesmo no teu raio de ação. O tempo já a correr contra nós. Estamos ambos
despidos, frente a frente como não estamos há muito tempo, há demasiado tempo.
Desejo-te. Sei que talvez não consigas compreender este momento. Sei que estou
perdida há muito tempo. Sentes a minha respiração pesada sobrepondo-se à tua de
uma maneira cavalgante, como se lutasse para libertar toda a minha vontade. Não
posso. Agarras-me pelo braço decidido e puxas-me para junto de ti. Por momentos
a sensação da tua pele sabe-me a salvação, a Santo Graal, a maneira como me agarras
num movimento só e me esmagas junto ao teu peito parece-me uma colisão divina.
Não demora muito até que as tuas pernas deslizem para junto das minhas e o teu
sexo entre no meu sem que digas qualquer palavra, nem sequer entre beijos.
Primeiro devagar, seguro, depois com mais vigor. Primeiro de lado, depois
puxando-me para o teu colo. Não podes saber o que quero e preciso. O que ambos
precisamos. Este ato em si destrói-me até me libertar. O teu vigor, a tua
vontade, os teus músculos retesados como estivesses nervoso ou tenso, como
lutasses novamente durante a noite para te libertares do calor que te invade.
Não consegues… impeles sim uma e outra vez o teu sexo no meu, dentro do meu,
até ser meu também. As tuas mãos nas minhas nádegas, forçando o meu corpo a
balançar sobre o teu. Cada vez mais longe. Estou tão cansada. A noite anterior,
todas as noites que perdemos, todos os nossos desencontros a atirarem-me
finalmente ao chão. Todas as noites novamente perdidas. Sinto que estivemos
longe e que nos mantemos assim desde então, mesmo agora quando o amor cresce
entre nós dois de uma forma desgovernada, como fosse um mal-entendido, e, ainda
assim incontrolável. Cada vez com mais força. Encontrámo-nos. Cubro a face com
uma das mãos e choro quando sinto o orgasmo inundar-me de uma torrente só, a
sensação de calor a partir do meu sexo, espalhando-se pelo resto do corpo. Bato
no teu peito e tu gritas e gemes de uma maneira rouca. Nem te apercebes que
choro. Nem sei se realmente estamos aqui os dois. Eu subi de uma realidade
qualquer, tu desceste de um sonho descalço. Estamos ambos neste plano por um
tempo determinado e ínfimo, finito. O suficiente para este pequeno encontro
amoroso. Ouço ainda palavras de eterno amor na tua voz sussurrada, chamando-me
para perto, enquanto me abraças numa prisão de pulsações. O nosso tempo acabou.
