Sunday, October 12, 2008

14 - Quarto de Hotel

Uma vez mais… aqui. Nada de palavras vagas, nada de perguntas indiscretas, nada de emoções escondidas, nada de nada. Nunca quererei saber o porquê de estarmos aqui os dois, sem nada para oferecer, sem sítio para onde recolher ou fugir depois destes inconstantes desvios de rota. Somos dois equívocos ocultos, presos num quarto de hotel, rodeados de quatro paredes em tons de bege mudo, mobílias cruas, cortinados desmaiados, de mergulhos numa paisagem impessoal de desoladora tentação… esquecidos neste espaço tão incaracterístico que nunca poderá confessar nada sobre nós. Nada aqui diz de onde viemos, nem para onde iremos a seguir depois de todos os suores nos queimarem a frio, depois de tudo ser tudo num momento só. Não haverá daqui uma recordação para nos fazer recuar momentos atrás e nos fazer pensar noutra coisa qualquer, nenhuma expectativa irrealizável que guardamos apenas para nos alimentar, nada para nos distrair e nos fazer cair em cada um de nós. Nada de nada. Sou eu e tu, aqui… uma vez mais. O teu corpo e o meu, os seus sabores misturados. Os nossos lamentos absorvidos nestas quatro paredes confessionário, os nossos desejos contidos nesta cela de segredos, debatendo-se furiosamente para sair porta fora a correr, à espera de enlouquecer… Quero-te, sem o querer. Amo-te sem te amar. Sinto que me perco um pouco mais de cada vez que me vejo aqui, rodeada de ti, petrificada pelo teu olhar perdido… eu sei que estás perdido, perdido como eu. Ainda que hajam tantas palavras entre nós que não possam ser ditas, segredos ilesos que não possam ser revelados, tudo em ti serei eu também… uma vez mais aqui. Abres a porta lentamente, sem pressa, como se eu fosse uma convidada indesejada. Fitas-me por segundos junto à parede do quarto, sem me deixares entrar. Por detrás de ti a grave obscuridade do quarto caverna acentuada pelos relances prata da televisão silenciosa que perseguem a tua sombra. Nada de palavras, minhas, tuas, clandestinas. Foi esta a minha oportunidade de fugir e de te esquecer. De correr pelo corredor fora sem que qualquer palavra tua me impedisse de parar. Não fujo. Talvez nunca tenha parado de fugir até chegar aqui. Nunca poderei esquecer a tua face, o teu olhar perdido… eu sei que estás perdido, perdido como eu… tão perdidos… é este o nosso único refúgio. Agarras uma das minhas mãos trémulas, firme e docilmente, saboreia-la, mergulhando-a no teu peito… num segundo tudo é noite no meu pensamento. Puxas-me finalmente para dentro do quarto, para dentro da tua caverna… encostando-me contra a parede, fechas a porta para que se encerrem todas as dúvidas entre nós. E na penumbra do teu quarto onde as nossas noites se fundem, tudo é silêncio... Silêncio mel, silêncio de beijos confidentes. Encontro o sentido de todos os passos secretos, todos os sorrisos pecaminosos, os segredos das luxúrias domadas escondidos habilmente na pele das mãos, no contorno da boca fechada, todos os momentos regressando-me. Resgato os teus distantes sinais de vida. Toda uma distância entre nós que se reduz até estar aqui, o mais próxima que me aproximarei de ti, do teu amor furtivo que se achega e recua de igual forma. Apenas aqui, neste quarto de hotel, nos reconhecemos. Apenas neste quarto de hotel te reconheço e sobrevives. Não saberia o que te dizer se te confessasses agora, neste momento. Se neste momento me dissesses que te perdes, que não queres, que não sabes. Que não queres regressar deste quarto de hotel impenetrável por não suportares relembrar o teu caminho de volta, por já não quereres guardar em ti tudo o que te faz recordar quem és longe deste sonho profundo, longe de mim. Odeio este segredo mas não posso parar de o contar a mim própria, de o decorar repetidamente, uma e outra vez como um vício que não consigo controlar por um sabor demasiado intenso me embriagar e me levar para longe, onde me esqueço de mim. Não te confessas. Nunca te confessarás. Nada de palavras, minhas, tuas, clandestinas. Apenas silêncio mel, silêncio de beijos confidentes.

Monday, September 15, 2008

13 - Última Noite

Soubéssemos nós que seria aquela a nossa última noite juntos, verdadeiramente juntos e teríamos fugido sem parar, com medo que o tempo se esgotasse em nós. Todos os motivos, todas as questões, todas as dúvidas acabaram por nos toldar os pensamentos, atrapalhar o raciocínio frio que a paixão tanto detesta e que o amor tantas vezes precisa. Foram suficientes essas hesitações para acabarmos demasiado sós com as decisões que provocam todas as tragédias. Até ao ponto de nos ter sido impossível fugir fosse do que fosse, do tempo, das decisões, das incertezas que passaram a dúvidas, depois a suposições e finalmente a verdades curtas, habilmente comprimidas por cada um de nós em palavras que não ousaremos mais pronunciar. Tanto e tão pouco nessa noite. Nessa última noite verdadeiramente juntos. O que foi que me esqueci de te dizer? Queria voltar ao teu quarto, agarrar os teus braços e impedir-te de embalares todas as tuas coisas, de libertares todos os teus objectos do seu passado, do nosso passado e dizer-te tudo o que me esqueci de dizer. O que foi que me esqueci de te dizer? Todas as palavras. E num instante o quarto vazio, as mobílias já nuas, apenas as nossas roupas espalhadas pelo chão como espectros deformados de nós, tudo demasiado frio neste quarto, neste espaço onde já não caímos bem. Não somos nós. O quarto vazio, a lua lá fora enorme a murmurar-nos esta memória dos nossos corpos a delirar numa súbita solidão. Bastou o tempo de beijos repetidos, quase engolidos, um tanto à pressa, outro tanto num desespero aflito para que a rua ficasse vazia e tudo fosse uma súbita solidão que nem soube de onde veio assim tão ligeira, bem sorrateira para me inundar. Ainda hoje a sinto bem perto quando penso naquela rua de tão vazia. Acaricia-me o pescoço e comprime-me o peito suavemente num abraço ate me esmagar a respiração. Não mais esquecerei a sensação daquela rua vazia. Lá em cima a tua janela bem fechada sem os habituais cortinados a esbracejar cá fora todos os delírios do calor ofegante… Um automóvel inexpressivo a passar devagar a meu lado, como a qualquer instante fosse parar de morto… a senhora idosa à janela da sua casa tão idosa como ela a fitar-me como sempre o fez até hoje, como se nunca me reconhecesse… duas ou três crianças a brincarem ao fundo da rua como se não fosse nada, a chutarem a bola para todo o lado da ousadia, sem direcção nem cuidado. E depois mais nada. O que foi que fiz? Fiz tudo o que havia a fazer de errado. Não te disse todas as palavras. Porque sempre soube que as palavras nos prendem. Prendem-nos à nossa consciência e à nossa intuição e foram essas as palavras que guardei. Alimentei-te de outras que nem hoje as posso compreender e que te prenderam a ilusões tolas, próprias de quem ainda não tinha tido tempo para cair em algumas inevitáveis desilusões da vida. Arranjei outras dentro de mim para me enganar a mim próprio que até hoje também nunca cheguei a perceber onde as fui buscar. Nunca mais as usei. Serviram-me para me mascarar do que sentia, para enganar toda a gente. E para me perder de ti. Ando agora a tentar aprender a falar outra vez. Não sei se conseguirei. Um dia talvez grite bem alto e todas as noites fujam e regressem nesse mesmo instante. Tanto e tão pouco nessa noite. Tanto que ainda hoje me persegue, Tão pouco que nunca cheguei a ser eu. Soubéssemos nós que aquela seria a nossa última noite juntos… Teríamos fugido, mesmo sem saber para onde. Bastaria arrastar aquela noite pelos dias fora, pela vida fora, pelo tempo fora, até não haver mais tempo para gastar e depois, e só então, parar. Parar para saborear uma outra noite. E nunca mais esquecer.

Thursday, August 28, 2008

12 - Fragmentos

Até quando estes nossos fragmentos, soltos, sem sítio onde os deixarmos, pedaços do que nunca fomos guardados para mais tarde, até tarde ser uma palavra impossível de descrever, de sentir e voltar a viver. Estes fragmentos servindo-nos as medidas das memórias… memórias de paisagens loucas, de sublime torneadas, em tons de rosa carne, em tons de rosa sombra. Tudo numa noite e depois tantos fragmentos para juntar e fazer deles um único corpo, um único som ou tom, uma única palavra. Tantos fragmentos de palavras que não ousámos dizer, que não ousámos julgar nossas, nem sequer reclamar, mas que ainda assim estavam lá, entre nós, galgando os nossos tímidos gemidos, retendo-se no ínfimo espaço entre as faces quentes, no limiar das nossas expirações e confissões. Até quando estes nossos fragmentos, ancorados em nós como possibilidades ínfimas de sucesso, de expectativas por mais um minuto flamejante, sem o mundo em redor, suficiente para trair uma vez mais toda a tragédia desta nossa história. Somos fragmentos espalhados, a vida a ladear-nos os pormenores das nossas ausências secretas, de tantos segredos incontidos, de gestos tantas vezes silenciados. Até quando?... tantos fragmentos sem um caminho certo, sem um corpo crente, uma noite definitiva de longa, de longínqua, eterna. Que ambos somos feitos do véu que sobressai da noite, do seu ténue limite chegando de repente, dos seus silêncios obscuros e atraentes… a noite a escapar-nos lentamente como se escapasse de uma manhã, desfigurando as suas trevas para desaparecer impune no seu perfume. Percebemos tarde demais que sacrificámos o nosso tempo nos esforços impossíveis de nos perdermos apenas pelo prazer de nos encontrarmos de novo, de juntarmos à pressa os nossos fragmentos porque tudo em nós é uma simples e estranha noção, porque tudo em nós é um mero e cândido motivo, de fugas sem explicação, de um sobressaltado reencontro lascivo… E é o frio da manhã quem nos descobre as expressões inacabadas, das frágeis renúncias consecutivas, milhares de lágrimas guardadas. Peço-te que sejas minha, numa sinceridade de gesto aflito… que te entregues, que te guardes em mim ainda antes desta madrugada ser manhã quente, entrando por este quarto dentro com todo o seu calor e luz, ainda antes da realidade ser o som de um bater de porta quase silencioso, furtivo de inseguro. Nunca seremos só nós, ainda que nos queime a voz de gritarmos os nossos nomes em uníssono ou os nossos ombros se verguem sob o peso de fantasmas desiludidos. Sobrevivemos nestes fragmentos, carentes… da solidão, desferindo certeira todos os seus golpes profundos nos nossos corpos cada vez mais vazios, atravessando os nossos pequenos escudos, entrando-nos alma dentro para nos invadir e deixar cada vez menos de nós nestas quedas tão mal amparadas. Seremos fragmentos, em todos os nossos momentos… os beijos selados, as mãos amarradas, todos os castigos provados.

Sunday, June 1, 2008

11 - Cópias

Já não sorris como antes. O teu sorriso não é mais do que um esgar forçado, enganado por uma face que não se conhece quando encontra um espelho demasiado sincero. Também sei que o meu sorriso já não é o mesmo. Também já me encontrei com esses espelhos sinceros que me miram de todos os lados, de todos os ângulos mortos. Por agora evito-os. Ocasionalmente também encontro passados a rir do fundo desses espelhos, risos jovens de outrora tão pouco parecidos com a nossa voz monocórdica. O meu e o teu riso a misturarem-se um no outro, lembrando canções. Canções encantadas pela tua voz doce onde o meu nome caía tão bem… Segui-te… Onde foi que chegámos? Aqui e mais longe não fomos. Desistimos. Sentados à beira desta mesa rectangular perfeitamente centrada na nossa cozinha, onde nos deparamos de frente com um tempo demasiado curto, um fôlego demasiado oprimido, suspensos neste espaço, neste pequeno compartimento revestido de uma pedra moderna de cinza, uma televisão quase muda lá num canto a divertir-se sozinha, uma janela por onde uma tímida luz nos invade como um sopro vago, móveis escuros abarrotados de pratos, de copos e de tantas outras coisas das quais vamos perdendo a memória e sentido da existência. Sinto como fossemos também peças de loiça fechadas nesses armários usadas apenas em ocasiões especiais de repetidas, em datas particulares de memórias quase apagadas, agarrados firmemente quando alguém nos lança a mão, na direcção do fundo do passado, encontrando-nos. Aquela travessa especial, aquele conjunto especial que se julgava esquecido. Somos nós. Regressando à vida em momentos pontuais de parágrafos abismo. Depois mais nada se espera de nós. Jantares em silêncio, a televisão a divertir-se sozinha, os miúdos a falarem entre eles de coisas que nos foge da sanidade demasiado ténue. Fantasmagoricamente atravessas-me com o olhar como se já não estivesse aqui. Serves a comida aos miúdos, as suas mãos pequenas estendidas para ti, os braços esticados à tua procura mesmo estando tu ali tão perto, à procura da vida que lhes deste porque tu saberás o que é a vida e todas as respostas estarão contigo. Serão eles as nossas âncoras, prendendo-nos, amarrando-nos um ao outro até os nossos perfumes de esgotados já não se distinguirem. Elogiam-nos à distância, as vozes agudinhas dos nossos amigos, quase desenhadas, acompanhando os apertos das suas bochechas elásticas… São perfeitos... Estes nossos filhos, estes produtos do nosso amor, são perfeitos. Tu porém aborreceste-te cada vez mais com as suas confusões, as suas birras, as suas traquinices. Esgotam-te. Chama-los à atenção por te sujarem a tolha lavada e acabada de colocar sobre a mesa, as nódoas de comida a sobreporem-se aos desenhos de frutos e legumes habilmente bordados. Acaba por ser uma história repetida… O pano António... Falas para mim como se não estivesse ali, como se já tivesse partido e tu chamasses um fantasma, trazendo-me de volta como uma figura encantada, sem canção encantada e o meu nome apenas a soar a cansaço. Estendo-te o pano e tu apanha-lo num estender de braço tenso, puxando-o agressivamente. Quase sigo atrás do pano. Segui-te. Onde foi que chegámos? A estas repetições de histórias. Por vezes ainda me lembro.... Sou eu, depois de tudo, ainda teu. Quero muito dizer-te que ainda sou eu. Dizer-te que chegado a casa, desejo despir-me para ti, libertar-me das minhas defesas. Dizer-te que por detrás desta minha linha segura, o cabelo tendencialmente e imaculadamente penteado para o lado direito da minha face brilhante, o sorriso gasto de Fausto, as roupas formais e sempre direitas dos músculos hoje cobardes, sorri a intenção maliciosa dos sonhos por tocar. Guardados no canto do meu olhar pecador, alimentados por cada curva sedutoramente desmaiada, cada peito voluptuoso balouçando livremente, cada par de pernas galopante, tão parecidos com os teus anos atrás. Guardados estes anseios para os consumir em ti, contigo. Que o calor sobe e ferve em mim sem que ainda assim uma pinga de suor indistinta me denuncie, que me transformo em dragão e serpente num só. Sem um destino, refugio-me nestas fantasias de uma vida inacabada. Terás de acordar para me ver. Já não posso deitar-me a teu lado e sentir-me como uma história de fim já conhecido. Todas as nossas palavras escritas nas nossas peles, rimadas de cor, sem sabor. O meu nome tatuado no teu peito, as suas cores atenuando-se, o seu som outrora teu soneto perdendo cada vez mais a definição de uma palavra gasta. Acorda e encontra a minha mão que procura o teu corpo durante noites a fim e eu sigo-te de novo. Até ao lugar onde nunca é tarde demais.

Monday, May 5, 2008

10 - Coração Virgem

Terei tudo por dizer. Até que finalmente chegue o fim dos meus dias, temo que terei tudo por dizer. Atravesso o tempo como se fosse feito de uma espuma envolvente, de uma névoa infinita, como se o tempo não passasse de uma ilusão que me abraça e me desfaz num ser cada vez mais frágil de diluída ao longo destes dias que vão morrendo sem memória. Sou uma imagem que não existe. Um rosto transparente num corpo voluptuoso ardendo até à inevitável extinção. Nunca ninguém me perguntará onde, como ou quando. Todos os porquês serão postos de lado até um adeus ser demasiado pesado para ser pronunciado, acabando consumido na expiração compacta de quem não aguenta engolir palavras sem sentido a seco. Não importa. Serei tua. Pelo menos até daqui a pouco, até daqui a nada. Até que esta hora nos separe. Até lá vou-me protegendo de ti, refugiada em sorrisos cândidos, em jeitos sensuais cada vez mais enfraquecidos de repetidamente usados, até o tempo ser um minuto atrasado. Pelos corredores sedutores atraio a tua atenção, desfazendo a realidade com o meu corpo meio seda, meio deserto, onde te perdes… e chamo-te do fundo do meu quarto penumbra de onde só eu conheço o caminho de regresso. Nesse mundo seda ninguém me questionará os pensamentos, as palavras escondidas, os falsos testemunhos dos meus movimentos. Sou uma boneca de brincar deliciosamente tua, uma fantasia antecipadamente desnudada, o céu para lá do véu rasgado. Apenas nesta dimensão de corpos devassados e perdidos existo. Nesta dimensão onde o completo esquecimento é um refúgio seguro. O meu e o teu mundo ilibados… Prolongo a nossa união sem emoção até ser tarde demais e os minutos atrasados te empurrarem para fora daqui, para fora de mim. Sais, abandonando-me sem deixares qualquer perfume ou sabor. O adeus uma vez mais engolido a seco sem que outras palavras o acusem, a fechar-se lá fora após o bater da porta violento. Nunca ninguém me salvará. Apesar de conhecer mil faces perfeitas, mil perfis desenhados com a ponta dos meus dedos glaciais até serem perfeitos demais de cansados, ninguém me salvará. Somarei mil casos de amor e ninguém me salvará. Estarei inevitavelmente presa ao tempo que me abraça até ser algo muito frágil de diluída ao longo destes dias que vão morrendo sem memória, adornada de inconfessáveis momentos que me esmagam. Frágil… Não posso deixar de desejar desesperadamente por um momento verdadeiro ao servir mais uma vez a minha carne a troco de uma vida de ânimos adúlteros, não posso deixar de desejar um momento onde não seja apenas uma puta. O meu corpo aflige-se com todos os seus reflexos rosa carne como se todo ele fosse um crime, como se um suborno passado entre mãos finalmente me acusasse. Todo ele não passa de uma censura. Todos os meus movimentos de tão lentos apressando-te para me alcançar, o meu olhar despindo-te do que sabes ser transgressor, as minhas ancas terreno de mãos impotentes balouçando lamentos, os meus beijos onde há muito secaram as mil e uma palavras que falam de fronteiras por transpor e incendiando todos os sonhos que não me podes contar. Poderá alguém saber? Poderá alguém saber de mim? Suspendo o tempo onde não passo de uma história por contar. Regresso e volto a ser uma deusa de um reino vazio. Sorrio candidamente com este ar de quem já não se importa com nada porque nada é tudo a que tenho direito… E abro a porta a mais uma denúncia. Serás tu? Não… A história repetindo-se na minha pele sem que ninguém pare para escutar tudo o que tenho por dizer. Nunca ninguém escutará o que tenho por dizer. E um dia o tempo será para sempre um mundo atrasado.

Monday, April 21, 2008

9 - Canção

Sorrio na tentativa vã de aliviar esta tensão rigorosa que me rodeia, amenizar qualquer olhar mais crítico de cínico e acalmar este meu espírito de sempre agitado. E como me comove o meu sorriso nervoso de falso ao enfrentar o olhar da minha plateia, aguardando-me…. O chão de soalho envelhecido e irregular deste palco vida parece mover-se sob os meus pés. Sinto o ar denso da sala penumbra entrar-me nos pulmões à força. No interior do meu corpo leva ao limite a capacidade do meu peito, estrangulando-o, e, por baixo de toda esta minha aparência aparentemente calma, os braços da minha alma movendo-se no interior do meu corpo, querendo abrir-se, forçar e rasgar a minha carne para se libertar. Dou um pequeno mas seguro passo na direcção do microfone segurando-o com ambas as mãos, sugerindo uma prece, uma reza introspectiva, secreta. Rezo para não cair. O silêncio sussurrante da sala absorve o bater do meu coração que lateja na minha cabeça como se fosse um tambor descontrolado, ritmando a minha ansiedade. Estou muito nervoso. Tenho quase setenta anos. Nervoso porquê? Esta será apenas mais uma canção… As únicas luzes da sala em tons de escarlate e azul oceano focam a minha face enrugada, a minha pele envelhecida e pálida, vincada pela demora dos anos. Toda uma vida… Olho-me todos os dias ao espelho e toda uma vida… Só aqui neste palco esqueço tudo e me recordo novamente. Só neste palco as minhas palavras são as que sempre quis dizer, a ti principalmente, sem colisões. Estou velho bem o sei meu amor. Na maior parte do tempo tudo o que digo soa a disparates ou a lamechices. Na maior parte do tempo não me pareço com nada sem ser com um cansaço debilitado, cansando-se cada vez mais. Mas é aqui neste palco que renasço um pouco, recuo uns anos e atravesso as memórias, vivendo de novo. Revejo-me novamente no homem de vinte e quatro anos, corpo galante pintado de uma pele morena e lisa. Tu novamente a sobrevoar no interior daquele vestido amarelo que tinhas e que te caía tão bem, ainda menina, como se fosses um pequeno sol à minha espera naquela paragem de autocarro. Olhas-me distante. Como estivesses a anos de distância de mim, ainda nessa paragem de autocarro à minha espera. Estás sentada na primeira fila. Envelheceste muito. Envelhecemos os dois demasiado. Demasiadas lágrimas, demasiados passos atrás, demasiadas incertezas, golpes direitos. Demasiado direitos. Sinto que te devo toda uma vida. É a minha voz que o demonstra quando começo a cantar e todo o silêncio que antes habitava nesta sala se inunda do meu timbre meio rouco, meio cansado, todo um passado. Para foi toda a nossa vida? Tivemos todo o tempo do mundo, para onde foi a nossa vida? Será a nossa vida esta canção que se liberta de dento da minha garganta? Estas sílabas de tons descompassados, de tons atrasados, de uma ou outra nota desafinada? Será a minha voz sufocada o reflexo de tudo o que passámos? Será esta a canção de uma vida não preenchida? Uma vida de saudades de uma verdadeira vida? Uma vida de silêncio por não saber dizer nada que não fosse a cantar sozinho num canto onde ninguém me ouvisse ou em frente a um microfone sobressaltado traduzindo uma confissão compassada? Sei que durante toda a tua vida esperaste por mim, esperaste por um dia de palavras sinceras, honestas, sem silêncios sobressaltados, o meu coração completamente aberto e lá de dentro a imagem do homem que só tu viste. Aqui me tens. Sozinho neste palco, suspenso, sem rede de salvação. Todos os meus erros, todas as minhas imperfeições cá fora que nunca saberei como são... São estas as minhas palavras sinceras, é esta a minha única vaidade, sou eu. O acto sincero atirado cá para fora como um cuspo de sangue seco. Todas estas minhas canções, estas minhas confissões, todas as desilusões. Grito uma nota, depois outra, mais outra cada vez mais alto sem parar, a canção no seu auge antes de se consumir, de me consumir a mim e eu desaparecer. A minha voz rouca soberba alimentando os ouvidos dos que não me sabem escutar, gritando o teu nome, gritando o teu nome bem alto em tantas outras palavras que nunca serão o teu nome. Foda-se tive todo o tempo do mundo. Onde foi que cheguei? Ainda me vês com vinte e quatro anos? Eu sonhei a teu lado anos a fio com a rapariga de vestido amarelo à espera de um autocarro, invejando o sol. Estiveste toda a tua vida a meu lado e estás aqui mais uma vez, a ver-me, a olhar para mim, a amar a minha imagem neste palco mundo que ainda não parou de se mexer desde que o pisei. Que não pára de se mexer. Que não pára. Que não pára até todo o tempo do mundo ser apenas esta canção.

Sunday, April 6, 2008

8 - Quadro Tela de Cinema

Pouso o pincel drogado da mistura de cores sobre a pequena mesa de apoio a meu lado, uma mesa de madeira vincada como linhas de mão, a minha mesa arco-íris, aparando o pincel sufocado. Restos de tinta tatuam-me a pele dos dedos… como vestígios da tua fugaz passagem pelo meu corpo ainda há pouco. Foram estas as horas perdidas à tua procura, gotejando cores sobre a tela pacífica, transformando-a, o tempo parado sob o silêncio da minha respiração, sob o silêncio das tuas últimas palavras punhais, antes de saíres porta fora fugindo uma vez mais, mergulhando nas ruas vazias até te perder de vista. Estou cansado. Sinto-me exausto, extinguido. Não compreendo porquê. Ando há tanto tempo adormecido, procurando-te como um sonâmbulo pelas ruas escuras, pelas ruas de sombras, infinitas, onde me perdi para sempre, desde o dia em que te encontrei numa delas, deflagrando no meu olhar novos tons oriundos da tua pele morena. Desde daí não paro de te procurar nestes quadros telas de cinema. Imagens de ruas nocturnas e desertas, pormenores cuidadosamente delineados, de prédios e casas mudas, de encontros de ruas sem destinos, de luzes difusas e dispersas das silhuetas, de cantos obscuros destacados por tons em pastel e amarelo açafrão, de objectos de hoje que serão de um amanhã até amanhã ser um dia de tempo nenhum. E nós? Teremos um amanhã para nos inundar de cor? Há muito tempo que coloco perguntas das quais vou fugindo sem saber porquê. Talvez porque espero que vejas o quanto estou só quando entre olhares esguios me dizes, que tudo o que queres é o que não sabes querer. Suspiro. Dou dois pequenos passos atrás, para olhar melhor, para me deixar absorver e desaparecer na imagem do quadro tela de cinema, observar bem a imagem que capturei com a câmara fotográfica numa noite qualquer de silenciosa, a imagem agora desdobrada numa escala de palmos de mão, numa escala de braços abertos, estendidos. O tamanho do pensamento desdobrado para uma tela de dois e meio por dois, pintada cuidadosamente até à exaustão do pormenor. Sinto o vazio e a solidão onde me encontro, onde me deixaste, onde nos deixaste a nós. Contemplo o quadro acabado, a tela suando ainda a tinta pegajosa, consumindo a tinta como saliva de beijos, a sua imagem tão perto da imagem que permaneceu de mais uma das nossas noites fugitivas, onde indistintamente sobrevivem alguns dos nossos desejos, vagueando nas ruas à procura de braços que os agarrem de tão ansiosos. Sinto que apenas eu compreendo estes quadros telas de cinema de ruas perdidas, isoladas, vazias. São como filmes repetidos onde aguardo que o teu contorno surja algures junto a um dos cantos obscuros destacados pelos tons de pastel e amarelo açafrão, que a tua imagem se revele junto a um dos objectos temporais como se fosses uma estrela de cinema meio oculta pelo mistério da intangibilidade. Ignoro todas as outras explicações dos olhares que se suspendem sobre os meus quadros telas de cinema e às quais não sei verbalizar nada sem ser um sorriso meio tonto, meio aflito. Só posso ver-te a ti. Só a ti e a mais nada. Nestes quadros telas de cinema chamo a mim a tua presença com a tua ausência. Grito secreta e silenciosamente o meu sofrimento, expurgando a saudade do que na realidade não temos mas desejo. Nas imagens de ruas vazias mascaro-te e protejo-te de todos os outros porque quero-te só para mim e apenas para mim. Na verdade talvez seja eu quem se proteja e mascare de ti. Não sei… Olho uma vez para mais para o quadro tela de cinema. O momento paralisado do qual não consigo sair e o qual talvez abandone um dia por exaustão. Ninguém aguenta uma prisão. Fujo para o quarto e deito-me refugiado pelas longas horas da noite sabendo que mais tarde ou mais cedo vou acordar com a sensação da tua pele a sobrevoar a minha, acariciando-me. Regressas sempre. Como soubesses que te procurei toda a noite pelas ruas vazias de paisagens nocturnas.

Friday, March 7, 2008

7 - Lá ao Fundo o Mar

Lá ao fundo o mar negro. Um mar negro noite, negro sombra, absorvendo a lua como se fosse sua, o seu reflexo ondulando nas ondas quase estátuas como mão tacteando uma pele molhada, resplandescendo segredos e sonhos. No mar negro noite, negro sombra, todas as perguntas, flutuando... todos os mistérios submersos à espera da coragem, à espera de um salto profundo, aguardando sereno pelo nosso mergulho arcano…. Todos os enigmas que me rodeavam naufragando nas primeiras palavras, algo sinistras, algo canção, uma canção rouca, frágil e insegura, fugindo-me da boca para nos embarcar numa viagem. “Queres ir para outro lado?”. Seguiste-me como se seguir fosse comandar. Seguiste-me até junto do mar negro noite, negro sombra, como se as minhas palavras tivessem um chamamento encantado, como se o meu corpo fosse uma mão gigante, um abraço sombra gigante, onde te perdeste imóvel, guardando o meu beijo na tua boca como um verdadeiro primeiro beijo, como uma inocência quebrada. Seguindo-me como se realmente houvesse um outro lado, um lado onde nos pudéssemos encontrar para sempre protegidos no interior de um mar negro noite, negro sombra, abraçando-nos… abraçando-nos tão perto que não escutámos o mar segredar-nos todas as perguntas antes do nosso mergulho tão fabuloso de arcano. Apenas mergulhámos mais fundo até desaparecermos na noite, nas sombras e nos perdermos.

Lá ao fundo o mar azul. Um mar azul arrebatador, azul mundo. Anos azul, anos arrebatador, explodindo o céu, deflagrando estrelas, invertendo mundos uma e outra vez apenas para nos encontrarmos novamente, sorrindo. Um mar azul arrebatador, azul mundo a nossos pés… onde vivemos como pequenos aprendizes de deuses, dançando nele por não saber andar, por ter esquecido, flutuando cada vez mais para longe de tudo, absorvidos no nosso sonho até perdermos de vista todos os horizontes e sermos só mar arrebatador de tanto azul. Perdidos neste mar onde não ousas responder às perguntas que vão surgindo do teu íntimo profundo, do medo de saberes as respostas, de as saboreares, de as sentires debaixo da língua como se fosse um sabor doce guardado para mais logo, de tanto passares o seu gosto para mim entre beijos latejantes, sussurrados, ofegantes, fechados… amando-nos. Imersos nesse mar azul arrebatador. De tão imersos em momentos tão longos como caminhos não fizemos parte do mundo e onde fomos o mundo esqueceu-se de nós. Azul, para sempre azul de tão arrebatador.

Lá ao fundo o mar verde. Um mar verde saudade, verde solidão. O mar azul arrebatador, azul mundo, ausente, ainda tão presente. A sua cor esbatendo-se nos meus olhos até ser mar verde saudade, verde solidão. Afogo-me nele, engulo-o sofregamente, preenchendo-me os pulmões, ocultando-me as lágrimas escondidas, tornando cada vez mais esta ausência numa definição dos nossos momentos que me vão fugindo das mãos, sem que consiga evitar que fujam, que se soltem dos meus braços, lábios e peito, sem que novas memórias de tão verdadeiras rompam para me agarrar com força e vontade a esse mundo azul onde me perdi e me encontrei. Tento escutá-lo mas perco-me dele. Na verdade nunca o escutei de verdade… afastei-me cada vez mais até perder finalmente tudo da minha vista, até já não saber distinguir o teu cheiro, até esquecer a tua cor e não conhecer os teus reflexos ainda tão marcados na minha pele e coração. Tornei-me num fugitivo de nós, do nosso mundo azul, tornando-me finalmente numa sombra, num ladrão de momentos, num somar incessante e insano de vestígios infames. Faltou-me a coragem para mergulhar no mar verde saudade, verde solidão e procurar-te. Ver onde te afogavas, salvar-te, salvar-nos a nós e por fim salvar-me a mim.


Lá ao fundo o mar cinza. Um mar cinza revolta, cinza ruínas. Um mar debatendo-se para se manter vivo, para nos manter a respirar sob a sua pele. Vejo-o e renego-o. Já o esqueci. Parece-me cada vez mais longe, cada vez mais perdido, cada segundo mais o seu tom cinza revolta devorando-me, a sua alma consumindo-se abaixo da linha do horizonte como um mundo desmoronando-se em ruínas. Tudo isto que vivemos será ondas devastadoras, para sempre tormentas do nosso tempo extinguido. É tarde, demasiado tarde… todas as palavras que saem da minha boca apenas te mantêm longe, afogando-te nessa revolta, transformando o teu rosto numa memória cinza. E tu apenas choras, junto a mim, ajoelhada a meus pés como se fossem uma tábua de salvação, olhando-me nos olhos como nunca mais o poderei fazer. Agarrando as minhas mãos onde já não restam sinais de quaisquer momentos verdadeiros, dos nossos momentos e quebras-te finalmente em pedacinhos, tão pequenos, como se fosses tu o próprio mar perdendo-se sob a areia. Nunca mais esquecerei esse silêncio… o silêncio de todas as palavras que ficaram por dizer que guardei não sei porquê, num silêncio maldito.

Sunday, February 24, 2008

6 - Onde Estás Tu?

Foi a primeira pergunta que fiz pela manhã depois de me levantar ainda meio cá meio lá com os sonos trocados de mais uma noite semicerrada. Apoio as minhas mãos sobre o lavatório de pedra negra, os meus olhos a descobrir o passar dos anos no espelho, as coisas que não fiz, outras que fiz e não pensava fazer, a tentar pôr de lado outras que fiz sem pensar. Depois o telemóvel a apitar do silêncio das memórias como se gritasse, Estou aqui… mas afinal era a minha irmã que não sei onde está, a pedir desculpa por se ter esquecido do meu dia de anos porque tem tantas coisas na cabeça… eu já não, não caibo lá, cresci demasiado e depois perdi-me, dela e de outras pessoas. Eu que até nem queria crescer, queria apenas saber onde estava, perdido no meio dos bonecos de plástico, coloridos, de expressões constantes, dos carrinhos de brincar aos quais nunca acabava a gasolina, envergonhado pela queda dos dentes da frente que se guardaram num copinho de plástico e que anos mais tarde juntei ao baú dos bonecos quando deixei de achar piada às suas cores e expressões demasiado constantes… sentado no chão que era onde estava sempre a tentar não perder também a minha expressão constante para a máquina fotográfica, enquanto a minha mãe perguntava já desesperada por um sorriso, Onde está o Miguel?, e eu sem saber o que lhe dizer mas a querer gritar, Estou aqui. Como gritou a minha irmã, que afinal era a minha imã ao telemóvel, a apitar do silêncio das memórias como se gritasse, Estou aqui… para me dizer que a partir de agora os anos passam a correr, como aconteceu com ela, ela já a sentir-se quase sem fôlego para acompanhar o ritmo cada vez mais pesado que nos deixa para trás, perdidos, lá atrás, meio cá meio lá com os sonos trocados de noites perdidas. Eu a perguntar novamente, Onde estás tu?, agora do espelho do quarto do hotel, não o da casa de banho que me faz mais velho e me lembrou as coisas que fiz sem pensar… o do quarto favorece-me mais… sim, deverá ter a ver com a luz que vem lá de fora, abrilhanta-me a pele e realça-me o verde dos olhos. Eu que só reparei que tinha olhos verdes quando uma rapariga, a Marta, aquela namorada que falava em gritinhos meio descontrolados mas que me deixava sempre tonto quando nos encontrávamos no jardim desértico em frente à antiga casa dos meus pais e que hoje passa por mim sem saber quem eu era para ela naquela altura… A Marta que me surpreendeu pela importância da cor verde que tinha a brilhar nos meus olhos, Os teus olhos são verdes!, eu também surpreendido porque não sabia desse facto tão importante, ainda meio tonto pelo calor que vinham dos seus lábios quando descolaram dos meus. Eu que olho agora para os meus olhos verdes no espelho e vejo-os tão perdidos como antes, revivendo a vida que passou, todas as coisas que já viram, tudo o que guardaram como fossem lentes de uma pequena máquina fotográfica, registando os momentos secretamente para mais tarde me deixar tonto com a pergunta, Onde estás tu? Eu que continuo sem saber onde estou, para onde me leva o elevador que vai descendo em contagem decrescente como fossem os anos que diminuem com o passar do tempo, ainda mais a partir de agora que vão passar a correr, se calhar sem deixar rasto, sem tempo para serem registados, cheio de medo que as portas do elevador se abram e encontre toda a gente que conheci perdidos de desespero à minha procura. Enquanto isso vou olhando para o espelho alto e estreito do elevador, onde posso ver todo o meu corpo, perceber que cresci, eu que nem queria crescer, só queria estar sentado no chão no meio dos bonecos de plástico coloridos e expressões constantes, dos carrinhos de brincar aos quais nunca acabava a gasolina, só não tão envergonhado pela falta dos dentes da frente mas orgulhoso dos meus olhos verdes. E agora?, pergunto-me, depois de mais um dia de anos que passou, andando, vagueando de um lado para o outro no lobby do hotel abafado das suas cores quentes. A minha imagem meio desvanecida nos vidros das portas e das janelas, desvanecendo-se como se vai desvanecendo a minha imagem na mente da Nazaré, a namorada que era perfeita, perfeita para todos ao ponto de ninguém já pensar em mim só como o Miguel, tão perfeita que todos os, Eu Amo-te… se tornaram num pesadelo depois de fazer tantas coisas que fiz sem pensar. A Nazaré que um dia tenho receio de passar por ela na rua sem saber quem ela foi, lá atrás num tempo em que até nem me importava de andar perdido porque ela me encontrava sempre, ela que comentou logo no dia em que nos conhecemos que já tinha reparado que eu tinha olhos verdes e eu a acreditar logo que Sim, porque raramente alguém repara nisso. A Nazaré que deu lugar à Teresa a quem não digo tantas vezes que a amo com medo que se torne perfeita, agora que sei o peso que têm todas as coisas que fazemos, com mais ou menos consciência. Pensa bem, vou eu repetindo e gravando no pensamento quando converso com ela, tão juntos que sinto o calor dos seus lábios a queimar os meus mesmo sem me tocar, lá longe, do outro lado do mundo, enquanto espero que ela me diga que adora os meus olhos verdes, que é uma cor que não vai esquecer e eu sem saber como lhe dizer que hoje ando por aqui, meio cá meio lá, que troquei todos os sonos e perdi a noite, mas com vontade de lhe gritar, Estou aqui… com medo que mais tarde ou mais cedo, os anos, a vida, todas as coisas que fiz sem pensar me apanhem para me dizerem finalmente onde estou.

Thursday, February 14, 2008

5 - Sou Homem



És minha. Adoro-te! A minha querida puta… Nem sei exprimir o quanto te adoro. Noite após noite, persigo os meus secretos desejos que me guiam até ti, à tua língua desembaraçada, ao teu corpo celeste deflagrando-se no meu, explodindo... à tua boca sobre os meus gemidos, às tuas mãos que cicatrizam as minhas consecutivas derrotas. Como adoro a tua voz. A tua voz que antes de gritar o meu nome como se fosse uma perfeita nota musical, repetindo-o deliciosamente, em tons sobre tons cavalgantes, me recebe e me acolhe, sorrindo o meu nome. A tua voz a sorrir para mim, sempre, a todo o minuto. Perguntas-me afavelmente pelo escurecer do meu dia, pelo acumular desgastante e impaciente do meu dia de trabalho e ouves-me atentamente como em ti houvesse um poço onde tudo se dilui e se perde como ecos distantes de algo que na verdade não existe.  Abraças-me na tua compreensão enquanto me sentas no sofá, servindo-me uma bebida a cantarolar de contente, continuando a ouvir-me e a apoiar-me incondicionalmente mesmo apesar de não perceberes nada do que faço lá fora no meu mundo sujo de cinza. Não importa. Para o que conta o mundo não tem assim tanta importância aqui neste nosso submundo, na nossa história de capítulos vermelhos, de páginas soltas voando livres no ar, espalhando-se no chão sem que a ordem das palavras seja propriamente determinante… somos apenas nós, actores púrpuras e clandestinos a esconder uma história de outras histórias. Aqui, para sempre aqui, onde o teu sorriso me antecipa e antecipa as expressões que vou encontrar quando te deitar na cama, no sofá, na mesa da sala, onde for que o meu desejo te deseje consumir, onde for que esteja pronto a vencer o mundo. Aguardo… secretamente ainda aguço os meus dentes e as minhas unhas… grunho baixinho nos entretantos, deliciando-me com a tua massajem nas minhas costas, nas minhas têmporas, com a delicadeza com que lavas e beijas os meus pés como se fosses o meu próprio Cristo pessoal, pronto a morrer por mim. És minha... Adoro a forma como as tuas curvas delicadamente sinuosas me embriagam e me chamam constantemente para as contornar com as minhas mãos vento, como o teu cheiro perfeito de âmbar, magnólia, violeta e vermelho, inundando o ar de desejo, confunde e sobressalta todos os meus sentidos como unidos num só.. adoro como os teus olhos verdes gato mimado não necessitam de ver mais nada senão este meu corpo quebrado, cada vez mais vencido pela idade. Este corpo nu que deitas junto do teu e proteges, alimentando o seu ego para me fortalecer, para me revigorar. Alimenta-te dele uma vez mais. Alimenta-te que eu nasço de novo, uma vez mais, só mais uma vez. Sabes que te adoro e que te daria o meu coração se o tivesse. Não aguento toda esta excitação submissa e secreta... Hoje não! Puxo-te para mim, agarrando-te com segurança pelos teus braços e pergunto-te beijo com beijo o que queres afinal de mim com todo esse amor tão perfeitamente encenado. Olhas-me condescendente, sorris como que embriagada, o teu corpo frágil por debaixo da camisa de noite negra e sedosa… Estás ajoelhada perante mim, a meus pés, nunca tiveste nada a perder desde mim. Debruças-te sobre ti própria, contorcendo-te de uma forma gentil e esguia, como te quisesses proteger e olhando-me sem que o teu sorriso mude a tua expressão segura e confiante. Agarro a tua mão e coloco-a sobre o meu peito, sobre minha a pele, sem te dizer uma palavra. Não conseguirei ser tão sincero nem ter tanta coragem. Descobre-o… ele está lá mas não sei onde, talvez tu saibas. Não sabes nada de mim. Não desconfias que por vezes choro, que vejo no espelho um fantasma ou a ausência de um passado no fundo dos reflexos quando acordo de manhã e me preparo para um dia que antecipei totalmente durante toda a noite, acordado, sonâmbulo sobre todos os sonhos que perdi algures… porque não conheces os meus medos, a minha solidão, quem sou… puxo-te para o meu colo, desaperto o meu cinto e abro as minhas calças, empurrando-as para baixo desleixadamente com a tua ajuda. Afasto as tuas cuecas do teu segredo não segredo, rasgando-as. Penetro-te sustendo a respiração e dás uma gargalhada, gemendo em seguida quando chego mais fundo. Detesto essa ordem de ideias mas depois também eu me rio por dentro, quando observo o contorno da tua expressão mudar nas minhas mãos. Finalmente um momento.

Tuesday, February 5, 2008

4 - O Meu Combate

Já coloquei as luvas vermelhas sangue, as últimas peças do meu reduzido arsenal, do meu frágil uniforme de combate. O meu corpo liberta um calor diabólico, milhares de minúsculas gotas de suor entrelaçadas a lutarem entre si… sinto-me desenfreado, como houvesse nos meus músculos tensos, nos meus ossos agora gigantes, vida para além da minha vontade, dos meus desejos e controlo. O meu treinador incentiva-me de uma forma agressiva… palavras sussurradas para dentro da minha alma a ferver, gritos de ânimo, desejos de destruição total. Espera que seja um guerreiro enorme, de resistência inquebrável e impossível, que lute sem tréguas até ao limite físico e mental das minhas forças. Lá fora, os gritos de uma multidão que aguarda ansiosa pela minha subida ao ringue e do meu opositor, pelo nosso embate catalisador, atravessam as paredes do balneário. É hora… saio finalmente do pequeno espaço fétido e meio desmoronado como se saísse do inferno, decidido, transformado, a mente focalizada em apenas combater, ser invencível e destruidor. Estou pronto. Já não me reconheço. Esqueci o amor. A multidão aclama a nossa entrada no recinto eletrificado, incendiado, uma explosão em contínua deflagração. Batem palmas, gritam irracionalmente os nossos nomes enquanto ambos percorremos a pequena distância que nos separa do ponto de encontro oprimido. O público sente-nos como seus, como seus filhos ou irmãos, como amores escondidos que se revelam. Somos efetivamente seus. De todos…. subo ao ringue que fervilha sob os meus pés como houvesse nele chamas invisíveis. Ouço as últimas palavras de incentivo e estratégia por parte do meu treinador. Protege-te bem, bate pela certa, ataca em movimentos curtos e não deixes que se aproxime demasiado para que não te possa atingir. Tudo se resume a isto, a estas palavras. Nada mais importa nos próximos minutos, horas, anos. O combate começa. Ainda vou a tempo de numa pequena fração de segundo encontrar a tua face no meio da multidão fixa em mim. Sinto que já não me reconheces. Nunca me reconheces neste pequeno quadrado espaço mundo que contem a minha fúria e as minhas angústias. Sou isto e nada mais. Um monstro-homem prestes a enfurecer-se com o que não conhece e não entende quando defronta a sua alma. Amas isto percebes? Isto também. Esta irracionalidade de não ser mais do que isto. Esta irracionalidade de absorver todos os golpes, de disparar tudo o que tenho uma e outra vez à procura de sobreviver, de vencer à custa do sabor do sangue púrpura revelador. Continuo, não me contenho. A multidão a agigantar-se à minha volta, nas minhas costas escudo, a apoiar-se nos meus braços e ombros, para também eles desferirem os seus golpes e vencerem o que não poderão vencer sem lutar, palavras nunca proferidas, secretas, desejos inesquecíveis e inarráveis, guardados nas mãos-punho, como se os punhos fossem corações destroçados. Luto por eles. Por mim e por ti. Por alguém. Sempre por ti. Não paro… juro que não paro. Não poderei parar. Todas as minhas forças concentradas em dar mais um passo. Protegido, batendo pela certa, atacando em movimentos curtos e esquivos, mantendo o meu adversário a uma distância segura para que não me possa atingir. Nada disto terá fim. Por mais que castigue o meu adversário, que o vença, que vença dezenas, centenas de adversários, nada disto terá fim. Não poderei lutar para sempre. Nunca poderei impedir de sentir a fraqueza que se apoderou do meu corpo quando me socaste no estômago com um poderoso golpe certeiro, direto, arremessando-me imediatamente ao chão, como toda a força do mundo estivesse no fim do teu punho, no teu punho coração. Por mais que me proteja tu atravessas a minha armadura com os teus movimentos, com a tua leveza extrema que me distrai e me hipnotiza, apenas para que possas derrubar toda a minha resistência e obteres o que é afinal de mim. Eu que apenas sei lutar, que nunca soube amar, tenho de amar como nunca amei, como nunca o saberia fazer. Eu que toda a minha vida sempre fui carne mastigada, músculos manipulados, ossos gigantes, nervos eletrizados, nada de coração, luto agora para proteger esse músculo punho, esse músculo poço, esse músculo meu… Disparo um e outro golpe, mais um, mais um, sempre mais um. A multidão grita e empurra-me para a frente, para a tua frente. Afasto o meu adversário, derrubo-o, aniquilo-o. E Acaba… estou ensanguentado, o gosto metálico retorcido do sangue púrpura sorvendo-se amargamente no meu íntimo como se fosse uma palavra bradada, a multidão rouca de tanto gritar, de tanto perseguir os seus fantasmas murmura, por fim, saciada. O meu adversário imóvel no chão sem reação. Tu apenas foges para longe de mim, para longe do monstro-homem… Ainda assim sei que seremos nós, no fim da noite, após se extinguirem os pesadelos, os dois sós, num abraço apertado, a aproximar todos estes espaços agora dilatados. 

Thursday, January 31, 2008

3 - Sabes não Sabes?

Se sei, esqueci-me. Passados trinta anos, esqueci-me. Passado o tempo do perfume das rosas que inundava o ar que respirava, definitivamente, esqueci-me. Olho para ti sem que te apercebas da minha vigilância plebeia, remetida ao meu canto, esquecida como se fosse uma eterna peça de mobília que mesmo assim não se consegue descrever. Nunca te apercebes. Esmagado na soberba do teu sofá, os teus olhos vagueiam minuciosamente pelo jornal, absorvido pelas palavras de outros que são todas as que necessitas para ires sobrepondo lentamente sobre as minhas até chegar o momento em que nenhuma palavra minha fará qualquer sentido. Observo-te… as tuas rugas marcam-te a face como caminhos, como cicatrizes das quais não existem memórias de feridas, O teu cabelo perdeu a força e a juventude em alguns pontos do couro cabeludo brilhante sem que dês grande importância ao facto, Nas mãos observo como as veias ganham força sob a pele como cordas que vão amarrando o teu corpo por dentro até irremediavelmente o sufocar um dia, Perdeste claramente alguma da aquela tua atrativa robustez física que tão bem te distinguia e que chamava a atenção de qualquer mulher que passava por ti na rua… a mim, para sempre. Ainda assim, amo-te. Mas esqueci-me. Passados trinta anos, esqueci-me. Passado o tempo do perfume de todas as rosas que inundava o ar que respirava, das maiores e mais belas rosas, definitivamente, esqueci-me. Agora todo o cheiro que emana do ar é o dos teus cigarros esmagados uns contra os outros no cinzeiro arrasado… às vezes enojas-me. Isso também faz parte do amor? Enojas-me sobretudo pela vida que vai ficando inutilmente por contar, ao ponto de ter vontade de gritar um palavrão ou uma outra palavra qualquer que nos acorde aos dois e que nos leve de volta ao que um dia tivemos e que foi só nosso. Uma palavra mágica que encante este desencanto. Tenho vontade de te perguntar em que ponto destes trinta anos tu seguiste para a esquerda e eu para a direita, como foi que este pequeno espaço que nos separa se tornou num espaço sem horizontes onde andamos sempre perdidos um do outro. Sinto que ambos temos uma doença mortal… cada vez mais o nosso tempo limitado pelo tempo e nós sem fazer nada. Tu a leres o jornal, a sobrepores palavras de outros sobre as minhas até que me cale de vez, eu, distraída com a televisão, a única que fala nesta casa, que diz piadinhas e disparates, que conta histórias, que inunda a casa com o som de risos, ainda que nós não nos ríamos de nada. Tu que me dizias que o meu riso se assemelhava a música! Dizias disparates deste género frequentemente… dizias ainda mais disparates quando fazíamos amor. Tudo isso inundava o ar com o perfume das rosas, das maiores e mais belas rosas, e eu esquecia que tu fumavas e permitia o cheiro pestilento dos cigarros esmagados em todo o lado nos cinzeiros arrasados. Agora quando ocasionalmente fazemos amor, já nem sei se o fazes comigo, se fazes antes com as tuas fantasias incumpridas que não ousas revelar, se fechas os olhos ou escondes a tua cara porque queres ali uma miúda de vinte anos e não um corpo já desgastado, sem energia para séries de sexo acrobático, sem a rigidez e os contornos de outros tempos e os quais te deixavam completamente louco. Invariavelmente penetras-me quase sempre por trás, sem que me tires a maior parte das peças de roupa que me cobre os anos, como se fosses um animal que cumpre a sua função de cobrir, sem carinho, sem uma palavra que inunde o ar com o perfume de rosas e faça o tempo perder conta do seu fio condutor. Disparates. Tantos disparates… sei que também sou uma cobarde, que não falo, que não grito um palavrão ou uma outra palavra qualquer que nos acorde aos dois e que nos leve ao que tivemos e que foi só nosso. Uma palavra mágica que encante este desencanto. Tenho medo de te ver partir todos os dias quando sais para trabalhar e fechas a porta na cara da minha vigilância plebeia, muito silenciosamente, sem uma palavra, como se fosses um gatuno com medo de ser apanhado por mim. Tenho medo de que não voltes, que encontres uma miúda de vinte anos e lhe digas uma série de disparates e ela acredite neles como eu acreditei, que lhe inundes o ar com o perfume de rosas, mesmo que sejam das mais pequenas, mas que sejam suficientes para ela não se aperceber do cheiro dos teus cigarros. Por isso não falo, por isso permaneço em silêncio sentada no sofá, fingindo estar ocupada com a televisão enquanto tu lês o jornal, amontoando uma montanha de palavras cada vez maior sobre os disparates que outrora me disseste porque talvez os queiras esquecer, por isso deixo que me cubras como se ambos fossemos animais irracionais sem qualquer sentimento, por isso deixo que finjas que sou uma miúda de vinte anos, por isso vejo-te partir sem a certeza de um regresso. Tu sabes que te amo… não sabes? Eu sei que me esqueci. Passado trinta anos, esqueci-me. Apenas sonho em silêncio com o tempo das rosas, com as maiores, as mais belas, com o seu perfume a saturar-me, por fora e por dentro. Por favor… lembra-me como foi. Tu ainda sabes como foi… não sabes?

Thursday, January 24, 2008

2 - Enquanto Dormes

Tu falas enquanto dormes. É comum durante a noite já toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, acordares-me com doutrinas murmuradas como numa conversa íntima de amantes. Revelas-me essas palavras pela noite fora, codificando sonhos, provenientes da profundidade e escuridão do sono, esperando que eu as oiça e agarre. Uma variedade de sons desconexos, monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… a luz ténue dos candeeiros da rua atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, revelando-a. Mostra-me nos seus reflexos as tuas expressões, a intensidade com que se deformam os sons e as palavras que vão saindo da tua boca. A tua face tornando vivos os sons e crivando um contexto. Os sons balbuciados, que não fazem sentido no plano de um quarto silencioso, esquecido como tantos outros no ventre da noite toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, dançando, sussurrando, adormecendo, levando-nos com ela. Resisto e perco-me nas horas das minhas insónias a olhar para ti enquanto dormes, o teu corpo belo misturando-se nos  contornos dos lençóis revoltos, levando-me a ansiar por mais sons desconexos, eu a aprender línguas mortas e paralelas, entusiasmado com uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, a delirar com uma frase a sobressair neste meu silêncio secreto… tento perceber o que me dizes, tento entrar nos teus sonhos à força, perceber as tuas preocupações, afugentar os teus medos, guardar os teus segredos, junto dos meus. Vou perdendo o rastro ao tempo, sobrevivendo a custo com a ajuda da luz ténue dos candeeiros da rua que atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, como se fosse uma carícia minha, tornando-te mais minha do que em qualquer outro momento. Tu que agora me deixas a espaços com uma torrente de sons balbuciados noite após noite, monólogos de línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… Por vezes frases, frases desunidas que apanho como pedaços de nós, esperando que sobrevivam a nós, que revelem o que fomos. Mas não consigo acompanhar-te. A tua intensidade invade-me e deixa-me a lutar por mim... A noite sonâmbula finalmente desaparece. A infantilidade da madrugada traz-te no seu regresso, os teus olhos abertos pelo toque do despertador intruso, a luz densa do dia que atravessa a janela incisiva. Descobres os meus olhos, também eles abertos e fixos em ti. Um bom-dia a correr, numa língua morta e paralela a este plano, um beijo mal dado com sabor a sono. Já foges de mim… Os sons do dia, todo ele braços e pernas, músculo, movimento, a entrarem pela casa como intrusos inesperados. O som da água a perfurar torneiras, o som da água a colidir intensamente no teu corpo, os teus pés húmidos a marcar o chão de um lado para o outro num rasto confuso que não ouso perseguir, portas a bater nesta e naquela divisão, a torradeira a fazer saltar fatias de pão tostado como se fossem brinquedos atirados ao ar, peças de loiça primeiro sobre a bancada da cozinha depois sobre a mesa da sala, a televisão a inundar subitamente o ar de palavras estranhas, falando por nós, novamente os teus pés de um lado para o outro, o som abafado da tua pele sobre o pavimento, um passo impaciente, mais portas a bater, do quarto, do roupeiro cheio de eus e tus pendurados à espera de sair dali a correr, a imagem cansada da casa de banho ainda húmida do teu duche como se fosse suor, as gavetas da cómoda, toda uma sinfonia de sons e vestígios que te levam dali para fora, uma vez mais os teus passos, agora torturando os vizinhos com o som oco dos teus saltos altos, finalmente o tilintar das tuas chaves de casa a assinalarem a antecipação da última porta que se fecha, o final do agora, de mais este momento apressado. No fim de tudo, tantos sons desconexos, nós a comunicarmos através de línguas mortas e paralelas sem palavras, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível na minha mente que não tem destino onde se fazer ouvir… Por vezes frases, frases que só fazem sentido neste plano porque os nossos corpos por vezes colidem e não temos mais nada para dizer, mas dizemos o que queremos ouvir. Oiço de ti uma despedida fugitiva, duas pequenas palavras totalmente compreensíveis que conseguem inundar o ar de solidão. A minha solidão. Mais uma porta que se fecha…. Fico ali a olhar para aquela porta como se tivesses fechado um túmulo atrás de ti. Resta-me saber que mais tarde a noite virá, toda ela corpo, de forma negra e silenciosa. Com ela a luz ténue dos candeeiros da rua atravessando as janelas abertas, incidindo sobre a tua face para te revelar no meu silêncio secreto dos teus sons desconexos, dos teus monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase... alguém com quem eu possa falar... 

Monday, January 14, 2008

1 - Encontro Amoroso

Chego a casa depois de mais uma passagem pelo sonâmbulo turno noturno que me absorveu nas longas horas da noite, mastigando-me, degustando a minha resistência até ao último grito íntimo de delírio. Abro e fecho a porta de entrada de casa tão silenciosamente como uma verdadeira invasora… de vidas, de horas e horas perdidas, tempos trocados. Sei que no escuro do quarto ainda dormes na nossa cama que tantas vezes sustenta a solidão dos nossos corpos, um seguindo o outro, como confessores indignos dos nossos próprios desejos. O cheiro do meu suor está colado na minha pele como se fosse uma outra pele. Depois de pousar a mala no sofá, passo a mão pelo pescoço e pela nuca, num gesto que tem tanto de carícia como de repelente, tentando relaxar os músculos retesados, sacudindo depois as mãos como pudesse expulsar com estes simples movimentos aparentemente aflitos, esta película invisível que me arrasta continuamente numa sensação melancólica. Não posso. Nesse suor estão dissolvidos todos os momentos da noite passada, todos os pensamentos que absorvi no silêncio dos gemidos e dos lamentos forasteiros de perdidos, nos sussurros de palavras irracionais de lúcidas. Não me recordo a última vez que esqueci este cheiro, a última vez que percebi que não domina o meu sentido olfativo. Não me é possível esquecê-lo nem nos poucos momentos de lazer, de descanso ou simples alienação… porque tudo o que desejo é que o meu pensamento se perca e se esqueça de mim, esqueça que tem uma dona, um comando ou rumo, que tem sonhos, planos formulados e por formular, responsabilidades para demarcar de tudo o resto, preocupações para tentar esquecer… Dispo-me lentamente aqui mesmo na sala sempre fria de Invernos substituindo Invernos das solidões consecutivas que nenhum verão como este consegue vencer. A roupa sobre o sofá como os contornos de um fantasma de um tempo perdido. Entro na casa de banho lenta e silenciosamente, invejando fantasmas e invado a banheira túmulo. A água morna abraça o meu corpo e esconde todo o meu cansaço por pequenos momentos. O vapor esconde-me e afasta-me do mundo. Leva-me para um lugar onde não existo e de onde não quereria voltar, apenas para ser tua novamente. A água leva parte deste peso, de noites a alimentar esperanças que não são minhas, de vidas prestes a terminar nas minhas mãos, de lamentos que acabam por ser também um pouco meus. O que realmente se perde nas lágrimas? Por fim renascida, invado o nosso quarto, silenciosamente e vejo-te, ali tão perto, misturado na roupa de cama como se tivesses lutado toda a noite. Não suportas o calor dos verões, debates-te toda a noite na tentativa de te libertares dele. Não consegues… olho para o relógio da cómoda e percebo que falta apenas um minuto para despertares com o despertador. Desligo-o furtivamente e deito-me na cama ao teu lado sem que sintas a minha presença. Por um momento apenas. Serei tua novamente, no dia em que o tempo não nos diga que é tarde demais... abres os teus olhos e estou ali, mesmo no teu raio de ação. O tempo já a correr contra nós. Estamos ambos despidos, frente a frente como não estamos há muito tempo, há demasiado tempo. Desejo-te. Sei que talvez não consigas compreender este momento. Sei que estou perdida há muito tempo. Sentes a minha respiração pesada sobrepondo-se à tua de uma maneira cavalgante, como se lutasse para libertar toda a minha vontade. Não posso. Agarras-me pelo braço decidido e puxas-me para junto de ti. Por momentos a sensação da tua pele sabe-me a salvação, a Santo Graal, a maneira como me agarras num movimento só e me esmagas junto ao teu peito parece-me uma colisão divina. Não demora muito até que as tuas pernas deslizem para junto das minhas e o teu sexo entre no meu sem que digas qualquer palavra, nem sequer entre beijos. Primeiro devagar, seguro, depois com mais vigor. Primeiro de lado, depois puxando-me para o teu colo. Não podes saber o que quero e preciso. O que ambos precisamos. Este ato em si destrói-me até me libertar. O teu vigor, a tua vontade, os teus músculos retesados como estivesses nervoso ou tenso, como lutasses novamente durante a noite para te libertares do calor que te invade. Não consegues… impeles sim uma e outra vez o teu sexo no meu, dentro do meu, até ser meu também. As tuas mãos nas minhas nádegas, forçando o meu corpo a balançar sobre o teu. Cada vez mais longe. Estou tão cansada. A noite anterior, todas as noites que perdemos, todos os nossos desencontros a atirarem-me finalmente ao chão. Todas as noites novamente perdidas. Sinto que estivemos longe e que nos mantemos assim desde então, mesmo agora quando o amor cresce entre nós dois de uma forma desgovernada, como fosse um mal-entendido, e, ainda assim incontrolável. Cada vez com mais força. Encontrámo-nos. Cubro a face com uma das mãos e choro quando sinto o orgasmo inundar-me de uma torrente só, a sensação de calor a partir do meu sexo, espalhando-se pelo resto do corpo. Bato no teu peito e tu gritas e gemes de uma maneira rouca. Nem te apercebes que choro. Nem sei se realmente estamos aqui os dois. Eu subi de uma realidade qualquer, tu desceste de um sonho descalço. Estamos ambos neste plano por um tempo determinado e ínfimo, finito. O suficiente para este pequeno encontro amoroso. Ouço ainda palavras de eterno amor na tua voz sussurrada, chamando-me para perto, enquanto me abraças numa prisão de pulsações. O nosso tempo acabou.

Saturday, January 12, 2008