Saíste porta fora ainda o dia não tinha adormecido completamente.
Deixas para trás apenas algumas
palavras vagas, sem significado, uma distância a dilatar-se cada vez mais entre
nós, intransponível.
O teu prato sujo sobre a
mesa, restos de cinzas mortas no cinzeiro ainda pousado no beirado da janela da
cozinha onde te expões inacessível, em silêncio, de olhar inexpressivo na
direção da rua quase sempre deserta, antevendo a luxúria que te espera lá fora.
Aqui dentro da nossa
casa nada mais do que o meu protesto a atravessar este silêncio pesado. Como se
fizesse diferença…
A noite chega e não me
diz nada sobre ti. Bem sei que irá conspirar, contigo, para sempre.
A cama vazia, a sua
dimensão cada vez mais amplificada, e eu, cada vez mais pequena, como de
repente estivesse no meio do mar a tentar definir horizontes em meu redor.
Há aqui uma ausência que
nunca se ausenta.
Como se esta solidão
fosse uma pessoa que fala comigo sobre ti por não haver mais nada a dizer.
De nada me vale tentar
fechar os olhos e sonhar em deixar de te amar.
Não há sono que me console
nem descanso que me traga de volta uma paz de espírito adequada.
A tua presença mantém-se
aqui, mesmo sabendo que poderás estar fechado noutros braços, absorvido noutro
calor.
Sei que mais tarde ou
mais cedo regressarás como se um vento qualquer te trouxesse de volta até aqui
por mero acaso.
Porque é aqui onde
regressas sempre.
Trarás contigo um novo
perfume, um olhar de rendição absoluto e uma certeza nas tuas mãos que se
antecipam à minha fuga.
Rio-me da minha
dignidade por se envergonhar do meu colo a ferver ao pensar nas tuas mãos e
silêncio em mim.
Não acredito que seja
insana. Deverá ser apenas amor.
Horas depois, ouço as
tuas chaves na porta de casa, os teus passos pesados a definir o caminho até ao
nosso quarto. Como se uma fatalidade estivesse prestes a acontecer.
Finjo dormir, finjo
esquecer, finjo não existir.
Mas há um calor que
surge do nada, invadindo o quarto totalmente em segundos, invadindo-me a mim.
És tu.
A minha respiração
denuncia o meu inútil ardil e ambos sabemos o que nos espera.
Antecipando o teu toque,
o meu coração explode-me na boca, a lucidez esquece-se de mim uma vez mais, o
meu corpo trémulo suplica pelo calor do teu corpo.
Parece
não haver escolha. Render-me assim.
Não
saber porquê arruína todos os argumentos de alterar a realidade de viver apenas
numa profecia de me saberes ser tua.
Estou aqui para ti.
Sabes disso tão bem como eu.
Ainda que saiba que não
poderei ser tua completamente.
Porque não conspiramos
juntos para sempre desta vez?
