Sunday, March 8, 2020

65 - Feitiço de papel



Espalhei todas as tuas cartas antigas sobre a mesa. Imensas páginas de papel gasto sobrepondo-se em pequenos volumes desorganizados por toda a superfície da peça da mobília. Em cada uma delas, o arquivo dos teus longos testemunhos que salvavam as longas separações entre nós, preenchendo esse vazio com a tua narrativa emocional, sufocando a antecipação de cada reencontro até ao limite do suportável. Diariamente este exercício de voltar a descobrir todos os segredos esquecidos. Uma e outra carta relida com a mesma intensidade de antes como na verdade fosse a primeira vez, o mesmo sentimento de ternura por cada palavra tua. Ao reler cada uma destas páginas fábula consigo ouvir a tua voz promessa a meu lado a contar-me cada história, cada confissão, descobrindo aos poucos o contorno dos contextos reais ou imaginados que compunhas habilmente para neles me perder, emocionando-me uma e outra vez na expressão que cada sentimento sobressaía nas palavras certas que espalhavas como um caminho, eternizando cada momento. As tuas doutrinas de paixão a definirem o ritmo em cada linha, como pequenos contos literários de encantar. Como poderia ter evitado amar-te depois de passares para a minha mão todos estes feitiços de papel? Em cada memória a minha consciência a render-se, não querendo regressar. Estes são os meus dias.

Passaram dois anos. Mas ainda assim todos os meus momentos pertencem-te. O sentimento de que a minha história só existe porque tu exististe em mim segrega-me toda a energia e não me deixa mover. Como é possível já ter passado dois anos? Olho para estes dois anos e não consigo descrever algo que os defina a não ser a tua ausência, muito menos registar um acontecimento digno de nota que não seja recordar-te. Estou parada a ver o tempo a passar ao meu lado como uma película de filme sem fim, para sempre enfeitiçada por todas as declarações de amor que deixaste nas minhas mãos desamparadas. Há vagos momentos de libertação que surgem do nada, pois num momento invulgar invoca-me o desejo de escrever-te uma carta, contar-te como me parecem indignos os meus dias pela falta de vida que neles se reconhecem e pedir-te que me libertes de alguma forma, como pudesse haver de facto um antídoto mágico invocado. Talvez seja o meu desespero a falar, o meu instinto de sobrevivência a defender-me da carência fabricada nesta solidão pela tua cruel e eterna inexistência física. Pois ainda que ouça a tua voz em qualquer canto da casa, junto ao meu ouvido, mesmo antes de adormecer, sei que não estás aqui para junto do teu corpo exilar-me feliz. Agora já não há para onde fugir mesmo que todas as minhas células protestem pela inevitabilidade desta realidade. Dois anos depois, continuas a viver aqui, como na verdade ocupasses espaço. Os teus objetos pessoais cimentados nos lugares de sempre a aguardar pelo teu regresso, as tuas roupas a guardar o teu cheiro como óbvio código genético, como confirmação de prova que estás ainda por aqui, as tuas sombras em todo o lado estampadas para sempre. As poucas pessoas que ainda me querem salvar perguntam-me frequentemente por ti mesmo sem pronunciarem o teu nome quando questionam como estou, quando me dizem que já é tempo de seguir em frente, como seguir em frente fosse uma mera escolha improvisada, sendo perfeitamente inevitável esquecer-te no imediato dessa decisão. Não quero esquecer-te. Como poderia esquecer-te quando é ainda a tua respiração pesada ao meu lado que me acorda pela manhã? A tua mão a deslizar devagar pelo meu ombro. Abraço-me. Perdida no labirinto dos meus pensamentos, acabo apenas por escrever uma frase solta na página ilesa de qualquer desígnio imortal.

Porque morreste?

Sunday, March 1, 2020

64 - Ainda estou aqui




Queria poder dizer quem sou. Queria regressar ao conforto da minha alma, ao íntimo do meu ser. O dia já segue e eu não segui com ele. Estou suspenso neste meu limbo, hora após hora até horas já serem na verdade dias e semanas acumuladas, permanecendo subtraído de uma continuidade natural dos que seguem para aqui ou para ali atrás das coisas que na verdade poucas vezes se alcançam. É a vida a não ser vida, preso ainda ao querer viver sem saber… na verdade, cada vez menos. Atinge-me o drama que domina os meus pensamentos, empurrando-me para o abismo que lá impera. Normalmente passo os dias deitado na cama a inventar-me numa outra dimensão. O homem que fui, as recordações que fazem de mim quem sou. A querer regressar e sem poder. Por estar preso a este cansaço devastador que afoga a minha respiração, aos poucos desconjurando-me o corpo como que se quebrasse os meus ossos frágeis, arrastando-me para todo o lado atrás deste sofrimento invisível. Da cama para o sofá, do sofá para a cama, pouco mais do que isso. Todos os movimentos são um beco sem saída, assim como o são os pensamentos que fluem na direção do desatino. Quando há uma réstia de forças a emergir lá no fundo tento focar-me em algumas pequenas tarefas de casa, tornar-me um pouco mais útil, pequenos passos para obrigar a cabeça a reagir aos poucos, mas acabo por esquecer pequenas coisas banais que não seriam para esquecer, frustrando-me cada vez mais na imbecilidade da minha inoperância. Ninguém escolhe cair neste vórtice de apatia e debilidade. Cruelmente também não se escolhe quando de lá sair. É a nossa cabeça que nos terá de dizer quando esse momento chegar. Os fármacos ajudam e farão o seu trabalho mais tarde ou mais cedo. A terapia de me pôr a falar de mim e descobrir que na verdade não conhecia toda a minha debilidade ajudar-me-á a encontrar esse caminho e quem sabe tornar-me mais forte. Porque neste momento sou um caso perdido, uma avaria em reparação que aguarda apenas por uma oportunidade de se reerguer. Há pequenos refúgios. A palavra de um amigo, a segurança de quem por vezes nos parece entender sem que tenhamos de falar, o abraço de quem nos quer bem. Sou eu a debater-me e a procurar todos os motivos para não me deixar ir. Por vezes ocupo parte do meu dia a rever álbuns de fotografias. Diz-me a voz da medicina mental que é normal querer reviver a felicidade, querer resgatá-la, ir buscar as sensações passadas onde nos sentíamos confortáveis e seguros. Ou talvez seja apenas a autocomiseração de quem sente que tudo está perdido. Talvez na verdade seja tudo a mesma coisa. Acabo habitualmente por reviver o nosso passado através das imagens onde guardámos as nossas primeiras recordações, a juventude do futuro eterno estampado nos nossos rostos, os sorrisos gravados como medalhas. Aprendíamos a ser felizes. Na verdade, ao tentar aliviar a minha dor neste mecanismo de sobrevivência, acabo por descobrir uma dor maior que ainda agrava mais todo este cenário amargurado. A cada dia que passa o sentimento de já não ser o homem que amaste, que sou um estranho que não conheces, alguém que já não vale a pena salvar. Vejo-o todos os dias nos teus olhos. Perco-te logo pela manhã quando estás pronta para sair pela porta fora, totalmente envolvida pela rotina diária que não aguarda por desleixos nem preguiça. Miúdos que têm de estar na escola a tempo e horas, o emprego que te espera, as pequenas coisas que necessitamos para viver agarradas à pressa, tarefas indispensáveis para que os dias continuem com o seu rumo numa direção pré-definida, uma bomba-relógio que miraculosamente não explode porque diariamente se desativa a tempo. Uns segundos antes da porta se fechar atrás de ti, lanças-me um último olhar. A incompreensão na tua expressão quase petrificada perante esta minha suspensão de vida fere-me de morte. Os beijos dos miúdos na minha face soam-me a uma despedida final. Faltou o teu beijo. Às vezes penso que é uma repugnância pela minha condição. A minha melancolia continua a pulsar e não há forma de mudar o ritmo. Depois tudo é silêncio e o silêncio é quem mais me acusa por nele conseguir ouvir mais facilmente esta minha angústia. Bem sei que já não somos miúdos, que o amor a partir de uma determinada altura exige garantias mas esta não foi uma escolha minha. Sinto que não posso falhar e vejo-me a falhar repetidamente. Grito e choro de desespero. Sinto que está tudo perdido e não há forma de me salvar. Religiosamente deixo os gritos e as lágrimas para estes momentos de solidão para evitar perder-me ainda mais na tua perceção. Só queria rasgar a minha pele e arrancar cá de dentro esta merda incorpórea que não há forma de combater, renascer igual ao homem rapaz futuro que conheceste e pelo qual te apaixonaste perdidamente. Sentir-nos-íamos novamente seguros, sem medo de que esta vida descambe, que tudo se perca sem remédio e se alterem os nossos destinos tão bem programados. Talvez até houvesse tempo para sentirmos novamente aquela paixão febril que nos fazia delirar um pelo outro a toda a hora, nem que fosse por um breve momento entre o contínuo contacto desavindo. Não tenho força para lutar porque o peso sobre os meus ombros deixa-me inerte. Regresso à cama no quarto penumbra e de tanto chorar e desesperar acabo por adormecer esgotado sem me aperceber do tempo a fugir uma vez mais sem qualquer sinal de conforto e esperança. Acordei a meio da noite já contigo a meu lado, claramente vencida pelo cansaço de quem parece viver a vida sozinha, suportando esta ingloriosa condição que me define nos entretantos. Queria ter um resto de coragem para te acordar e pedir-te para não desistires de mim porque eu sei que ainda estou aqui. Algures.