Sunday, March 1, 2020

64 - Ainda estou aqui




Queria poder dizer quem sou. Queria regressar ao conforto da minha alma, ao íntimo do meu ser. O dia já segue e eu não segui com ele. Estou suspenso neste meu limbo, hora após hora até horas já serem na verdade dias e semanas acumuladas, permanecendo subtraído de uma continuidade natural dos que seguem para aqui ou para ali atrás das coisas que na verdade poucas vezes se alcançam. É a vida a não ser vida, preso ainda ao querer viver sem saber… na verdade, cada vez menos. Atinge-me o drama que domina os meus pensamentos, empurrando-me para o abismo que lá impera. Normalmente passo os dias deitado na cama a inventar-me numa outra dimensão. O homem que fui, as recordações que fazem de mim quem sou. A querer regressar e sem poder. Por estar preso a este cansaço devastador que afoga a minha respiração, aos poucos desconjurando-me o corpo como que se quebrasse os meus ossos frágeis, arrastando-me para todo o lado atrás deste sofrimento invisível. Da cama para o sofá, do sofá para a cama, pouco mais do que isso. Todos os movimentos são um beco sem saída, assim como o são os pensamentos que fluem na direção do desatino. Quando há uma réstia de forças a emergir lá no fundo tento focar-me em algumas pequenas tarefas de casa, tornar-me um pouco mais útil, pequenos passos para obrigar a cabeça a reagir aos poucos, mas acabo por esquecer pequenas coisas banais que não seriam para esquecer, frustrando-me cada vez mais na imbecilidade da minha inoperância. Ninguém escolhe cair neste vórtice de apatia e debilidade. Cruelmente também não se escolhe quando de lá sair. É a nossa cabeça que nos terá de dizer quando esse momento chegar. Os fármacos ajudam e farão o seu trabalho mais tarde ou mais cedo. A terapia de me pôr a falar de mim e descobrir que na verdade não conhecia toda a minha debilidade ajudar-me-á a encontrar esse caminho e quem sabe tornar-me mais forte. Porque neste momento sou um caso perdido, uma avaria em reparação que aguarda apenas por uma oportunidade de se reerguer. Há pequenos refúgios. A palavra de um amigo, a segurança de quem por vezes nos parece entender sem que tenhamos de falar, o abraço de quem nos quer bem. Sou eu a debater-me e a procurar todos os motivos para não me deixar ir. Por vezes ocupo parte do meu dia a rever álbuns de fotografias. Diz-me a voz da medicina mental que é normal querer reviver a felicidade, querer resgatá-la, ir buscar as sensações passadas onde nos sentíamos confortáveis e seguros. Ou talvez seja apenas a autocomiseração de quem sente que tudo está perdido. Talvez na verdade seja tudo a mesma coisa. Acabo habitualmente por reviver o nosso passado através das imagens onde guardámos as nossas primeiras recordações, a juventude do futuro eterno estampado nos nossos rostos, os sorrisos gravados como medalhas. Aprendíamos a ser felizes. Na verdade, ao tentar aliviar a minha dor neste mecanismo de sobrevivência, acabo por descobrir uma dor maior que ainda agrava mais todo este cenário amargurado. A cada dia que passa o sentimento de já não ser o homem que amaste, que sou um estranho que não conheces, alguém que já não vale a pena salvar. Vejo-o todos os dias nos teus olhos. Perco-te logo pela manhã quando estás pronta para sair pela porta fora, totalmente envolvida pela rotina diária que não aguarda por desleixos nem preguiça. Miúdos que têm de estar na escola a tempo e horas, o emprego que te espera, as pequenas coisas que necessitamos para viver agarradas à pressa, tarefas indispensáveis para que os dias continuem com o seu rumo numa direção pré-definida, uma bomba-relógio que miraculosamente não explode porque diariamente se desativa a tempo. Uns segundos antes da porta se fechar atrás de ti, lanças-me um último olhar. A incompreensão na tua expressão quase petrificada perante esta minha suspensão de vida fere-me de morte. Os beijos dos miúdos na minha face soam-me a uma despedida final. Faltou o teu beijo. Às vezes penso que é uma repugnância pela minha condição. A minha melancolia continua a pulsar e não há forma de mudar o ritmo. Depois tudo é silêncio e o silêncio é quem mais me acusa por nele conseguir ouvir mais facilmente esta minha angústia. Bem sei que já não somos miúdos, que o amor a partir de uma determinada altura exige garantias mas esta não foi uma escolha minha. Sinto que não posso falhar e vejo-me a falhar repetidamente. Grito e choro de desespero. Sinto que está tudo perdido e não há forma de me salvar. Religiosamente deixo os gritos e as lágrimas para estes momentos de solidão para evitar perder-me ainda mais na tua perceção. Só queria rasgar a minha pele e arrancar cá de dentro esta merda incorpórea que não há forma de combater, renascer igual ao homem rapaz futuro que conheceste e pelo qual te apaixonaste perdidamente. Sentir-nos-íamos novamente seguros, sem medo de que esta vida descambe, que tudo se perca sem remédio e se alterem os nossos destinos tão bem programados. Talvez até houvesse tempo para sentirmos novamente aquela paixão febril que nos fazia delirar um pelo outro a toda a hora, nem que fosse por um breve momento entre o contínuo contacto desavindo. Não tenho força para lutar porque o peso sobre os meus ombros deixa-me inerte. Regresso à cama no quarto penumbra e de tanto chorar e desesperar acabo por adormecer esgotado sem me aperceber do tempo a fugir uma vez mais sem qualquer sinal de conforto e esperança. Acordei a meio da noite já contigo a meu lado, claramente vencida pelo cansaço de quem parece viver a vida sozinha, suportando esta ingloriosa condição que me define nos entretantos. Queria ter um resto de coragem para te acordar e pedir-te para não desistires de mim porque eu sei que ainda estou aqui. Algures.

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