Espalhei
todas as tuas cartas antigas sobre a mesa. Imensas páginas de papel gasto
sobrepondo-se em pequenos volumes desorganizados por toda a superfície da peça
da mobília. Em cada uma delas, o arquivo dos teus longos testemunhos que salvavam
as longas separações entre nós, preenchendo esse vazio com a tua narrativa
emocional, sufocando a antecipação de cada reencontro até ao limite do
suportável. Diariamente este exercício de voltar a descobrir todos os segredos esquecidos.
Uma e outra carta relida com a mesma intensidade de antes como na verdade fosse
a primeira vez, o mesmo sentimento de ternura por cada palavra tua. Ao reler
cada uma destas páginas fábula consigo ouvir a tua voz promessa a meu lado a
contar-me cada história, cada confissão, descobrindo aos poucos o contorno dos
contextos reais ou imaginados que compunhas habilmente para neles me perder, emocionando-me
uma e outra vez na expressão que cada sentimento sobressaía nas palavras certas
que espalhavas como um caminho, eternizando cada momento. As tuas doutrinas de
paixão a definirem o ritmo em cada linha, como pequenos contos literários de
encantar. Como poderia ter evitado amar-te depois de passares para a minha mão todos
estes feitiços de papel? Em cada memória a minha consciência a render-se, não
querendo regressar. Estes são os meus dias.
Passaram
dois anos. Mas ainda assim todos os meus momentos pertencem-te. O sentimento de
que a minha história só existe porque tu exististe em mim segrega-me toda a
energia e não me deixa mover. Como é possível já ter passado dois anos? Olho
para estes dois anos e não consigo descrever algo que os defina a não ser a tua
ausência, muito menos registar um acontecimento digno de nota que não seja
recordar-te. Estou parada a ver o tempo a passar ao meu lado como uma película
de filme sem fim, para sempre enfeitiçada por todas as declarações de amor que
deixaste nas minhas mãos desamparadas. Há vagos momentos de libertação que
surgem do nada, pois num momento invulgar invoca-me o desejo de escrever-te uma
carta, contar-te como me parecem indignos os meus dias pela falta de vida que
neles se reconhecem e pedir-te que me libertes de alguma forma, como pudesse
haver de facto um antídoto mágico invocado. Talvez seja o meu desespero a
falar, o meu instinto de sobrevivência a defender-me da carência fabricada
nesta solidão pela tua cruel e eterna inexistência física. Pois ainda que ouça
a tua voz em qualquer canto da casa, junto ao meu ouvido, mesmo antes de
adormecer, sei que não estás aqui para junto do teu corpo exilar-me feliz.
Agora já não há para onde fugir mesmo que todas as minhas células protestem
pela inevitabilidade desta realidade. Dois anos depois, continuas a viver aqui,
como na verdade ocupasses espaço. Os teus objetos pessoais cimentados nos
lugares de sempre a aguardar pelo teu regresso, as tuas roupas a guardar o teu
cheiro como óbvio código genético, como confirmação de prova que estás ainda
por aqui, as tuas sombras em todo o lado estampadas para sempre. As poucas
pessoas que ainda me querem salvar perguntam-me frequentemente por ti mesmo sem
pronunciarem o teu nome quando questionam como estou, quando me dizem que já é
tempo de seguir em frente, como seguir em frente fosse uma mera escolha
improvisada, sendo perfeitamente inevitável esquecer-te no imediato dessa
decisão. Não quero esquecer-te. Como poderia esquecer-te quando é ainda a tua
respiração pesada ao meu lado que me acorda pela manhã? A tua mão a deslizar
devagar pelo meu ombro. Abraço-me. Perdida no labirinto dos meus pensamentos,
acabo apenas por escrever uma frase solta na página ilesa de qualquer desígnio
imortal.
Porque
morreste?

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