Tuesday, October 19, 2021

73 - Doença Incurável

 

Tenho o teu sorriso reservado quando sinto que já não tenho nada para dar. A recordação da tua gargalhada funciona para mim nesses momentos tão difíceis como uma banda sonora estimulante, ainda que na verdade por estes dias seja tão difícil conseguir tirar de ti esse som maravilhoso que envergonha a beleza do mais angélico céu. Tenho sempre nas minhas mãos as tuas mãos, essa sensação da tua pele tão delicada e suave a passar pela minha face quando me atormentam todas as decisões difíceis que não nos deixam avançar, quando o impasse de vermos todos os nossos planos seguirem irremediavelmente por água-abaixo nos vai deixando cada vez mais restringidos a pequenos momentos, onde encontramos, à força de uma sensibilidade amplificada, uma magia outrora eventualmente irreconhecível e desprezada. Uma luz especial que entra pelo quarto dentro para realçar o brilho fugaz dos teus olhos, uma música louvada que toca inesperadamente e nos devolve aos compassos certos do nosso amor, uma palavra esquecida que volta a ter um mesmo significado, recordações cristalizadas que já não ousávamos recordar… são pequenas vitórias que não alteram absolutamente nada neste impasse eterno mas que elevamos e comemoramos no silêncio de um carinho, de um beijo, como se trouxessem nelas o fim desta guerra invisível… são tão delicadas e importantes nesse papel de devolverem-nos alguma esperança, quase talvez na mesma proporção dos dias em que sentes regressar alguma energia ao teu corpo, a qual nos deixa, cruelmente, apenas por breves momentos, à porta de um passado colocado em suspenso. Deixo-te na cama que nunce te devolve mas levo-te comigo para onde vou, sempre, sobre os meus ombros, o teu corpo sem peso, sentada num trono que só tu poderás ocupar por ser para sempre teu, no topo da minha alma. O sol descobre o meu rosto e tento sorrir, por ti, por nós, para evitar pensar e sentir que saio porta fora deixando-te para trás nessa fragilidade corporal, nesse teu sofrimento silencioso onde apenas posso oferecer o meu espírito de guarda. A vida não para e não espera por nós. Porque esperaria? Na verdade eu não quero saber. Independentemente do que o futuro nos trouxer seremos para sempre nós. Independentemente de trazer comigo em permanência essa horrível frustração de não poder entrar-te pelas veias dentro e descobrir onde reside essa maldita e inexplicável doença, combater até à morte pelo regresso da tua vida, corrigir tudo o que está errado, fazer todas as reparações e devolver-te a mecânica da tua alma fabulosa, enérgica e sentimental, seremos sempre nós. Tenho em mim esta doença incurável, para sempre uma fórmula irresolúvel de variáveis infinitas das quais apenas conheço um único resultado que és tu. Estou aqui… Por mais que os dias nos atravessem como se fossemos ambos corpos celestes sem destino, por mais que a vida nos pareça ignorar e o tempo passe ao largo dos nossos braços estendidos, não deixarei que as tuas lágrimas deixem de ter um sentido, por mais que tudo desmorone à nossa volta. Serei corpo inconquistado, armadura de aço inquebrável, dançarás para sempre no meu colo em cima de todos os escombros e escutarei as tuas doces palavras bem perto do meu ouvido, decifrarei todos os seus códigos, todas as mensagens ocultas atrás da fragilidade de uma vida que nunca poderia ter mais significado para mim como agora. Regressarás mais forte e poderei descansar em ti. Deito-me junto a ti só para sentir-me seguro no início desta manhã que renasce gloriosa após atravessar a noite que não quis adormecer… a esperança reinventando-se sozinha. Tenho em mim essa doença incurável. És tu.   

 

 

 

 

Texto para o Rui e para a Ana

Que a vida lhes devolva alguma da sua generosidade e beleza


Saturday, February 6, 2021

72 - Penso que poderia esperar

 

Penso que poderia esperar. Na verdade regressaste apenas há alguns dias. Tudo agora se move devagar. Talvez intimamente só espere que voltes a falhar. Neste presente, já depois de teres assumido a necessidade de ajuda e do tempo passado em recuperação numa clínica de desintoxicação, acabámos aqui os dois sem mentiras para desmascarar. Nada do que tu faças ou possas voltar a fazer tem um pingo de inocência e não poderá passar sem ser imediatamente reconhecido como consequência dos teus hábitos, dos teus vícios que deixaste imiscuírem-se entre nós. Uma culpa antecipada, não há como esconder. Foram longas semanas a aguardar pelo teu regresso, depois da ruína de dias desfeitos pela irreconhecibilidade da tua presença junto de mim, de consequências registadas nas palavras que magoaram mas das quais não te recordas por nesses momentos apenas existires num outro mundo melancolicamente inebriado. Pensei que poderia esperar. Queria salvar-te mas na verdade precisava de ser salvo do que eras e do que não poderás voltar a ser. Essa é a tua luta a partir de agora. Voltar a sorrir sem ser através da falsa sensação de viveres fora de ti. Desde que voltaste ainda não te vi sorrir e por isso só quero gritar. Queria salvar-te. Ainda quero. Mas na verdade essa luta não é minha, ainda que o meu amor por ti talvez me consuma por completo sem teres a oportunidade de o voltares a ver. Porque agora é tempo de reergueres os teus escudos devagar, voltares a segurar na espada sem hesitar e lutar contra os demónios com que tens de conviver a cada segundo. Queria estar lá para ti, afastar tudo da tua frente, ser o teu cavaleiro andante mas essa é uma batalha que terás de vencer sozinha. Inevitavelmente acabo por errar constantemente quando pretendo antecipar as tuas quedas, afastar de ti os meros incómodos do dia, por mas ridículos e simples que sejam, porque não quero ver-te falhar outra vez. Quero ser perfeito para ti, mas a perfeição não chega e na verdade incomoda. Chego perto de ti e é como se fosse alguém que não conheces. Os teus olhos imediatamente escondem-se de mim. O ar rarefeito entre nós a não dar espaço para respirar. Não posso salvar-te. Mas tu sabes que é por esse caminho que vamos. Penso que poderemos esperar. Guardar tudo para mais tarde e deixar este tempo passar enquanto descobres como regressar incólume de tudo o que se passou, imune a todos os golpes que desferiste em ti própria, sobrevivente de um caos que não tem ordem nem tempo para se reorganizar. A sensação do dia a passar por ti tem uma dor que não consegues quase controlar. Queima-te o apego pela vida que ainda permanece em ti quando em simultâneo subsiste uma real noção de total desmerecimento por essa dádiva, à qual, vulgarmente, todos damos pouco valor. Tentas permanecer viva nas pequenas coisas. Uma canção que escutas à janela ao ver a vida passar, num beijo da nossa filha antes de sair para a escola e que na verdade representa uma pequena rendição, numa carta que escreves a ti própria com o objetivo de perceberes que há um perdão no meio disto tudo que é preciso saber encontrar e merecer. Tem de haver algo que possa sobreviver depois de tudo o que se passou. Está aqui algures entre nós. Entre o regresso a uma normalidade e a certeza de que as coisas nunca mais poderão voltar a ser o que eram. Teremos de permanecer ausentes um do outro até que possas efetivamente renascer. Esse é o maior amor que poderei dar-te neste momento. O espaço seguro para recuperar e voltares a ser tu mesmo sem merecer. Ter a noção que lutas primeiro por ti para teres força depois para lutares por nós. Penso que poderia esperar.       

  

 

                                                                               Inspirado em:

                              Think you can wait – The National

Filme: When a Man loves a Woman

71 - Rei morto. Longa vida à Rainha!

 

Soube de ti durante a manhã de ontem. Numa conversa casual, num encontro fortuito e inesperado com uma amiga de infância à muito ausente. Penso que foi apropriado como a tua presença regressou ao meu íntimo, surpreendida admito, longe estava eu de te recuperar ainda que por momentos no meu pensamento. Entre sorrisos e recordações de uma era pós adolescência já perfeitamente arrumada, surgiu o relato da tua vida atual como se tivesse sido um pedido meu. Talvez tenha sido algo na minha expressão ao ouvir novamente o teu nome lançado na conversa, numa primeira abordagem cuidadosa, como se fosse por mero acaso e inocência. Todos nós temos muitos passados guardados. Passados que não hesitamos em trazer de volta para nos animar, para reforçar partes de nós que não poderemos de forma alguma perder, passados que guardamos secretamente porque talvez digam mais de nós do que aquilo que queremos admitir e passados como tu, memórias distantes de outras pessoas que fomos e das quais já não entendemos o ser. Ouvi serenamente o relato. Sobre a tua nova vida distante, sobre uma família que te acompanha e que te será muito preciosa. Sobre como estás uma pessoa diferente, diferente de quando eras meu, subentendi. Desse relato, alguns factos mais importantes que na verdade eu já conhecia, outros mais triviais perfeitamente ausentes da minha realidade, no fundo todos estranhos para mim, agora, tantos anos depois, narrados como se falassem de uma pessoa totalmente desconhecida. Mesmo assim foi o suficiente para voltar a lidar com o sentimento que durante alguns anos me deixou imersa no imenso mar que eras tu. Seguia-te para todo o lado mesmo sem destino assente, fui tua sem reservas, na minha mente não poderia haver outra condição reservada para a minha vida que não fosse estar contigo. Nada nem ninguém poderia demover-me dessa convicção e perante um espelho nada mais poderia ver que não fosse a tua sombra bem delineada ao meu lado, mesmo quando na solidão de noites eternas perdia a consciência e em seguida a segurança da minha realidade nos sonhos esmagados pela tua ausência. Sob o teu nome residia o meu escondido. Na minha inocência juvenil era-me suficiente residir no teu coração, deixar-me encantar pela tua capacidade constante de mostrar em qualquer situação irreconhecível, um segredo, uma razão codificada para estarmos ali os dois a apontar na direção de um futuro que só poderia ser completo quando partilhado por ambos. Criaste essa história para mim desde cedo e deixei-me levar por ela dia após dia, feliz que estava por ser tua protagonista até já não ser nada mais do que uma personagem que pouco controlo detinha sobre a sua própria vida. Deixei-me distrair pelo amor prisão que sentia por ti e pela influência que sobrepunhas nas minhas decisões cada vez mais aglutinadas na única e incólume razão de existir para ti. Já não tenho em mim a exata perceção de quando resgatei algo meu e de como me foi urgente essa necessidade de voltar a sentir a felicidade de conhecer as palavras que saíam da minha boca. Talvez tenha sido a soma de vários momentos que fizeram desmoronar toda essa ideia de um amor único e irrepetível que perduraria para sempre. Talvez tudo tenha acontecido demasiado cedo e com demasiada intensidade, talvez a estranha sensação de ter prematuramente toda a minha história escrita em função de outra pessoa tenha sido avassaladora. Resististe até ao limite da inocência e decência talvez. Admito que foi difícil deixar-te. Foi um abandono e um regresso. Foi regressar a casa e não encontrar ninguém. Não encontrar nada que pudesse ser-me familiar para além do invólucro vazio que era o meu corpo. Tive de voltar a lidar com os meus instintos desmaiados e resgatar a segurança de voltar a confiar na estranha sensação de ser apenas eu, sem mais ninguém, ainda que a então inexperiência de vida não me permitisse a tanto. Ao ouvir novamente o teu nome na boca da minha amiga é esse eu que já não reconheço, que arrumei e deixei para trás, crivado pela aprendizagem de que um amor afinal não é suficiente para definir quem somos. Sorri para dentro de mim e habilmente, mudei de assunto. Eu e a minha amiga acabámos por deixar o passado nesse instante e voltámos a nós, em nós já tão pouco evidente essa intimidade. Prometemos voltar a encontrarmo-nos para beber um café. Não sei se a voltarei a ver… Mas tarde ao chegar a casa ouço as vozes das minhas filhas a correrem na minha direção. A voz do meu marido orienta-me rumo à sua presença serena e na qual poderia sofrer para sempre em sossego. Sou eu num mundo meu. Para já estou blindada, até que a vida me supere de alguma forma.