Sunday, March 19, 2017

49 - Casaco Cinzento


Sou apenas este casaco cinzento,
Junto a mim uma sombra de homem,
Uma figura amarrotada, um semblante ultrapassado,
Disfarçando sorrisos, usurpando cenários.
Não me vês. Nunca serei.

Sou apenas um caso cinzento,
No teu mundo de cor um lúgubre céu,
A expressão desfeita, a postura quebrada,
Arrastando restos de trevas, perdendo contornos.
Ignoras-me. Nunca serei.

Sou apenas este ser cinzento,
No teu sonho um pormenor esquecido,
O casual encontro, uma palavra engolida,
Prolongando caminhos estreitos, fingindo fugir.
Nunca saberás. Nunca serei.

48 - Primeiro Amor


Sento-me quieto na solidão de um lugar qualquer,
A pensar para onde foi tudo o que fomos,
A questionar os destinos que se cruzam e se perdem,
A segredar esperanças para os meus sonhos.

Flutuei quando sobrevoei o teu corpo,
Aprisionei a vida quando me deixaste sem respiração,
Olhei para a felicidade e eras tu quem sorrias.

E a minha alma é um segredo amplo e vazio,
Um passeio de fantasmas secretos que não se revelam,
Um cemitério de amores assombrando-se infelizes,
Um túmulo de mentiras que não ouso revelar.

Deixei de ser um quarto vazio quando entraste,
Vesti-me na tua pele para cobrir a minha nudez,
Esqueci-me de tudo quando explodimos juntos.

47 - Pelos olhos de outros


Pelos teus olhos nós veremos
e seremos, tudo o que nos aproxima da ilusão
e nos deixa a levitar longe do chão, enfeitiçados nessa incompreensão.
Ainda que apenas sonhos lançados ao alto, regressando num ressalto,
pela ingenuidade que se adianta, mas que a vida antecipa e levanta.
De voos inconstantes, extinguem-se as asas flamejantes.

Pelos teus olhos nós veremos
e seremos, tudo o que no tempo se suspende,
mas que nenhum espírito entende… uma alma aberta nunca se defende.
Ainda que no fim um peito destroçado, repisando o passado
numa paixão que se dilata, abandonando-se numa noite intacta.  
Do adormecer ao acordar, um intimo que não ousas partilhar.

Pelos teus olhos nós veremos
e seremos, tudo o que resta afinal dessa ira repetida,
de felina a perdida, nada mais do que uma dor invertida.
Ainda que sob a pele incendiada, uma vida inacabada,
pelo tom de um nome maldito, levará consigo um fim infinito.
De tão singular e nobre motim, apenas a tua alma arlequim. 

Pelos teus olhos nós veremos
e seremos. Seremos nós também
um pouco menos, um pouco mais.
Lívidos venenos, sonhos de corais.


          Para a minha irmã Célia Martins

Wednesday, March 1, 2017

46 - O Sonho


Mergulhei atrás de mim,
Do meu sonho,
Essa vontade de viver,
Que já não se revelava.

Quis suster a respiração
E aprisionar a vida, para que,
Por momentos, soubesse
Como morrer.

Acabei por encontrar
Esse desejo único, imóvel,
Que desesperado ansiava,
Pela vontade.

Essa vontade, essa eloquente
Vontade de te dizer,
Que te quero e espero,
Sem sequer falar.

45 - Corpos Flamejantes


Tudo deflagra entre os nossos corpos flamejantes.
É apenas a força de um desejo que se dilata,
Para lá dos delírios transgressores, latejantes.

Tudo demora entre os nossos corpos flamejantes.
São estas as lágrimas que permanecerão secretas,
Extinguindo-se nas palavras que se perdem sussurrantes.

Tudo dispara entre os nossos corpos flamejantes.
Sou eu quem te invade, quem esgota um amor imenso,
Deixando que se forme em nós momentos diletantes.

44 - Ser


Perco-me ínfimo e morro, em mim, sobretudo.
Se atrás das respostas corro, quero também fugir de tudo.
Sem sentido. Acabo suspenso, da minha vida e destino,
Perdido no cenário imenso do teu sonho paulatino.

Voltar a olhar o mundo, sentir a respiração desgovernada,
Do meu espírito sem fundo, o descobrir de uma água parada.
Não sei se por algo espero, um louvor inquieto,
Se sonho, se avanço; viver sem ti… um tormento incerto.

Aprisionar a minha vida, soltar as rédeas à morte,
Da minha causa perdida, esperar um qualquer golpe de sorte.
Sei lá o que quero e o que não quero!
Por ti canto. Desespero!

De mim desapareço, num impercetível passo adiante,
De ti só não esqueço o recuar das mãos hesitante.
Ama-me a moribunda loucura, que me invade e pressente,
Da indecisão que perdura e perturba quem por mim sente.

43 - Já não ouso dizer o teu nome


Já não ouso dizer o teu nome.
Ainda que sejas uma sombra constante ou um mero vento fantasma,
uma presença delirante aguardando serena nos cantos abertos
pelo íntimo pensamento que esconde os meus sentimentos incertos.

Já não ouso fantasiar o teu corpo.
Ainda que sejas um sonho inerte de tão mal-amado
e os teus vestígios permaneçam prontos a deflagrar numa noite incendiada
do teu toque tatuado, que me percorre secretamente a pele marcada.
  
Já não ouso sobreviver ao teu passado.
Ainda que para sempre sejas um curto verbo sem tempo,
perdurando nas palavras escondidas de um homem exausto
de reviver o seu único momento… como se mentiras de fausto. 

42 - Solidão


Plano sobre prados tenros,
Desfaleço de montanhas pequenas,
Inundo oceanos petrificados,
Mas termino subitamente só.
Tão só como esses teus segredos.

E desço ruas invadidas por sombras,
Estranho nas palavras e sorrisos de outros.
Regresso, perseguido por algo mais que sombras.
Estou mais que só.
Sou um caminho abandonado.

41 - Entre parêntesis


Entre parêntesis vivemos sós,
Uma casa vazia, na sua solidão tudo se perdia,
Um corpo teu distante, às minhas mãos hesitante.  

Entre parêntesis perdemos a voz,
Um comentário inibido, depressa esquecido,
Uma palavra tua magoada, para sempre gravada.

Entre parêntesis nem sempre somos nós,
Uma expressão ignorada, de perto perturbada,
Um gesto impensado, o teu sangue nas mãos cansado.

40 - Da minha janela


Da minha janela lanço na noite os nossos fragmentos,
instantâneos capturados no rigor profundo de lívidos momentos,
resistindo no tempo como vestígios de pecados irreparáveis,

nas ruas esgotadas pelo prenúncio de desencontros repetidos.      
Somos sombras sedutoras desfeitas pelo madrugar de dias definidos,
um delírio atroz, uma força esgotada, músicas inconsoláveis.

Da minha janela vejo no horizonte um infinito deserto,
na sua amplitude todas as ilusões prostradas aqui tão perto,
sobrevivendo no imaginário como postais de espectros abandonados,

como sombras suspeitas alando esguias pela penumbra de um palco.
Somos corpos de luz encriptados na expressão nua deste quarto opaco,
duas vidas fantasma, um segredo aberto, todos os motivos errados.

39 - Vejo


Vejo-te a fugir de mim
Para fora do meu alcance
Para longe dos meus sentimentos
E eu aqui a fugir também
Do que fui e já não sou
A tornar-me sóbrio nos pensamentos.


Vejo-me a sentir para sempre assim
Sem forças para te chamar
Sem alma para te prender
E tu aí a sentir também
Que já não sou quem te amou
A tornar-me numa memória para esquecer.

38 - Música


Um sentimento colide numa memória esquecida e regressa,
Como passado despertando violentamente de um sonho à pressa.
São tristezas de outrora e as próprias desilusões de agora,
Segredando-me ao ouvido doces palavras de um amor perdido.

Invade-me a nobre melodia, como uma singular melancolia.
A voz cintilante sobressalta, o que ao meu coração lhe falta...

Um deslumbramento sobrevive num tempo vacilante e prevalece,
Como textura sobressaindo intensamente e que em chamas se desvanece.
São ecos soltos dos pecados e vestígios de votos quebrados,
Confessam-me impacientes os futuros desfeitos pelas palavras latentes.   

A música brilhante ilumina, o teu ainda sorriso de menina.

Florescem as notas musicais, como lágrimas casuais...

37 - Submissão


Deixo-te adormecer em sono sem fundo
Tão perto dos meus sonhos, tão longe deste mundo
Dissolvendo-te nos contornos de uma cama desfeita,

transformas-te em lua de brilho intenso
Quando noites são janelas para o teu corpo suspenso,
intensamente abertas ao prazer da minha sombra insuspeita.

Sunday, February 12, 2017

36 - Apenas Mais Um Dia



Acordo. Sob a luz ténue do exterior (a madrugada já tão longe de ser um estranho poema, o adormecer de um romance ou a dança de fantasias esquivas), a silhueta do meu corpo move-se quarto fora rumo ao fim do silêncio tranquilo do mundo dos sonhos, cada vez mais negro e profundo. Entro na casa de banho e deparo-me na minha imagem refletida no espelho (já sem palavras, nem sorrisos rasgados a direito por aquela tonta alegria abundante); onde estou? Pergunto-me repetidamente depois de me ter confrontado, olhos nos olhos, enfrentando-me como nunca o faria se todas as respostas nos dias que correm fossem simples de concretas e despreocupadas. Tudo perdeu o sentido desde o dia em que guardei o teu nome debaixo da minha língua para não o mais dizer, desde o dia em que a felicidade (que palavra é essa cuja pronúncia me agoniza?) deixou de ter nome, forma, sabor. Nada mais… Um banho rápido, todas as pequenas coisas comuns do dia feitas à pressa para pôr o tempo a correr à minha frente, a roupa a mascarar-me a postura quebrada deste desgosto bem marcado na minha pele… escolhida na noite anterior para evitar qualquer indecisão, mãe dos tempos mortos que te trazem em recordações… recordações de manhãs perdidas como esta em brincadeiras tontas; e de repente sorrisos a transformarem-se em segundos apaixonados com sabor a tempo perdido a derreter-se na boca afogada. No mesmo lugar onde agora guardo o teu nome… Paro por uns instantes para respirar devagar. Nada disso interessa mais. Não posso pensar em ti. Não quero. Não vale a pena. Foste, Saíste. Desapareceste. Não existes mais. O silêncio denuncia-te. Não estás aqui para partilhar sequer pequenos momentos inócuos, repetidos, rotinas desmentidas, um vulgar pequeno-almoço (juro que há dias que não sinto o seu sabor… e como depois de toda esta amargura eternamente dissolvida?). Não virás nunca mais. Estou só. É essa a verdade. Engulo a seco todos estes pensamentos… (este sabor amargo! É só este o sabor que consigo sentir!) Chegas-me novamente mesmo antes de sair porta fora. Já passou tanto tempo mas consigo ouvir-te sempre… atrás de mim, (um fantasma enorme) a tua respiração por trás do meu ouvido, as tuas palavras doces, infinitos os desejos de um bom dia de trabalho, toda a força do mundo nessas tuas palavras. Também todas as armas depois… relembro todas aquelas sílabas, uma por uma, disparadas a frio! Já na rua sigo o fio condutor da minha vida (será vida?). Agarro-me a ele e espero que me puxe para onde tenho de ir… sem contrariar. Apanho um táxi e sigo. A cidade e todos os seus segredos escondidos, dos meus segredos também. Mergulho nas suas veias céleres onde me fundo e desapareço, não para sempre como por vezes desejo. Lá fora tudo corre depressa, tão depressa que sinto que parei e não continuei mais, o mundo continuou. Eu ainda estou aqui… Chego ao emprego, mergulhar na burocracia, nas rotinas, nos papéis (tantas vezes que a tua carta de letras sangue me passa pelas mãos onde releio vezes sem conta aquelas palavras que nunca julgaria tuas), atender pessoas atrás de pessoas, por vezes apareces tu a passar pela porta num corpo estranho, depois pessoas que não quero ver nem ouvir, colegas que me releem nos olhos esta tristeza constante, este semblante de penúria que abomino, deixando-me perguntas a pairar no ar que agarro e escondo no meu silêncio por não saber responder. O que me fizeste? Mais um dia que passou sem saber o que ser depois de ti. No regresso a casa a noite cada vez mais noite, como me quisesse engolir. Um submundo deserto. Tudo isto foi um dia. Apenas um dia mais depois de ti. (E se não houverem mais dias, levar-te-ei comigo). Adormeço.


35 - Palavras sem Asas


São essas as tuas palavras?
Um eco aberto, as tuas palavras sem asas.
Um grito de perto, uma tábua de salvação,
Palavras sem asas, tão perto do chão.


São essas as tuas palavras?
Um sonhar tão alto, as tuas palavras sem asas.
Um silêncio de palco, um olhar de desdém,
Palavras sem asas, do meu desejo refém.