Saturday, June 15, 2019

53 - Fantasia


Entras. Sais. Não resta nada. É um hábito perder-me nos teus braços até desaparecer. Duas ou três palavras tuas ao telefone, um silêncio absurdo de infinito entre nós a inundar a minha resistência, a minha voz a resgatar-te como tudo tivesse sido ideia minha apenas para te voltar a ter aqui. Durante o tempo em que sou uma fantasia tua submersa foge-me a consciência devagar e vou perdendo a perceção da realidade depois de me ver nos teus olhos lânguidos por momentos terrenos furtivos. Quem sou eu quando chegas até perto de mim e me atravessas a alma, agarrando-me com ambas as mãos pela cintura, capturando-me? Não reconheço esta voz que sai da minha boca, engolindo aos poucos os sussurros retidos entre uma respiração desgovernada e uma súplica desnecessária de incompleta. Neste lugar abandonado sou o que queres que seja, num minuto, ao longo das horas, até a minha perceção de tempo se transformar em viagens a anos-luz fora de rota. Sou uma fantasia tua e nada mais. Erguendo delírios ao entardecer, repetindo devaneios ao luar… recordar-te ao amanhecer. O meu corpo alado descontrolado sobrevoa o teu, rendo-me facilmente perante o teu ímpeto ao depor todas as minhas armas sem rancor, obrigo-te a procurar-me um pouco mais para além do teu anseio irrefreável, deixo-te ficar sobre mim até seres meu. Não sei como te impedir. Pedes-me para ser luxúria num lugar clandestino onde possas ser tu, levo-te para dimensões onde não saberias ir sozinho para te despir e definir, aproximas-te pelos percursos dos ângulos mortos como lobo sinistro para me surpreender, enlouqueces-me aos poucos quando na noite ecoas o meu nome como se contivesse algum segredo que não pudesses compreender. Não há tempo para palavras de antecipação. Capturas-me… uma e outra vez, regressas… extraindo incansável fantasias do teu corpo com as minhas mãos vou adormecer abraçada por lençóis fantasma paralisados. Os nossos momentos não perduram para além da lascívia incauta de quem pensa que amar poderia ser também desejar. Queres desistir mas não sabes como parar de me pedir para regressar. Sou tua! Poderia ser tudo! Bastaria que procurasses um pouco mais para além da minha pele. Bastaria que me pedisses sem te demorares nas palavras erradas com que vais preenchendo o tempo necessário apenas para não pareceres um intruso privado que não posso repelir. Somos momentos terrenos sem um qualquer céu para onde sonhar inocentes. Nada me diz que vais regressar para me desnudares numa nova fantasia herdeira da que acabamos agora de sepultar. Nada me diz que em breve não te cansarás do meu corpo que tateias como sempre tivesse sido teu para além da tua pulsação que junto de mim não sabe como abrandar. Escuto-a durante todo o percurso… desde o instante irreversível que chegas e te lanças na direção da minha alma, agarrando-me com ambas as mãos pela cintura, até ao momento abismo em que abandonas o nosso palco de saliva, fadiga, frenesim e redefines silêncios. Quero saber porque bate o teu coração assim quando somos apenas os dois. Entras. Sais. Não resta nada.