Tuesday, July 18, 2023

76 - Conto de Fadas

Entro no salão de festas tardiamente, atravessando a porta principal, aguardando um instante nessa fronteira invisível sem retorno para parar de suster a minha respiração e tentar respirar o mais normalmente que me é possível neste momento. Por breves segundos ninguém repara na minha presença, ali, suspensa como se não pertencesse naquele cenário, a engolir oxigénio à força, a olhar fantasmagoricamente em redor, à espera de uma tábua de salvação, alguém que mesmo no meio destes preparos me reconheça, de uma mão que antecipe a cadência dos meus passos para me guiar até um canto resguardado e ficar comigo toda a noite a ouvir as minhas angústias como se fossem contos de fadas. Sei que isso não vai acontecer. O meu olhar atravessa os muitos convidados que se misturam uns nos outros sem que possa encontrar-te em lado algum. Talvez tu já me tenhas visto aqui como se estivesse à beira de naufragar e na verdade já só queiras fugir de mim, ou fugir apenas, mas levando-me contigo, não sei. Talvez a partir de hoje possamos reescrever a nossa história, dar-lhe um novo destino, um outro final que não aquele que venho antecipando sem remorso, sem entusiasmo ou esperança. Um final de conto de fadas… Avanço finalmente para o interior do salão e caminho lentamente, o mais elegantemente que consigo por entre os restantes convidados, à tua procura, num passo levitado, como se pudesse evitar tudo e todos, contornando os diálogos animados, soturnos, sensuais, capturando os sorrisos largados na atmosfera da sala celestial e refletindo-os timidamente no meu para libertar alguma desta ansiedade que me rodeia como uma aura de denúncia. Alguns dos convidados olham para mim como se tivesse matado alguém. As suas expressões apenas confirmam o meu receio de sentir que não pertenço aqui. À medida que vou atravessando o salão de uma ponta à outra sinto os seus murmúrios na minha nuca como se fossem segredos acabados de revelar. Talvez na verdade seja apenas uma má escolha da indumentária da minha parte para esta ocasião. O vestido simples de quase inexistente, de cetim branco-pérola pontuado com alguns pormenores vermelhos desmaia pelo corpo fora como se quisesse abandonar-me, tocando-me ao de leve na pele como uma carícia desleal. Abstraio-me desta perseguição invisível e continuo a percorrer o vasto salão avançando ligeira entre os convidados, tentando alhear-me à ressonância dos comentários a ecoar no fundo do meu peito, dos olhares persecutórios ao ritmo dos meus passos, na tentativa vã de encontrar-te aqui... vejo-te finalmente, quase do outro lado da sala. Estavas a olhar para mim também, os nossos olhares a colidirem e entre nós a crescer a sensação de que o mundo podia estar prestes a acabar agora que nós seríamos os únicos a saber qual seria o segredo pela sua ruína. Queima-me a expressão da tua face ao refletires a tua surpresa pela minha presença, aqui, suspensa como se não pertencesse neste cenário, novamente a engolir oxigénio à força para não desmaiar para sempre neste momento e para sempre fundir-me nele. Estamos ao alcance de alguns passos decididos na direção um do outro, de um abraço e um beijo romântico, como nos filmes, como se tudo entre nós pudesse acabar numa frase qualquer pirosa e feliz.  O som da música de fundo apenas aprofunda ainda mais este momento em que há pensamentos suspensos, meus, teus, de todos em nosso redor perante esta cena de filme, à espera de um argumento qualquer salvador, de contexto, de uma explicação plausível para estar a acontecer neste preciso momento. Avanço para o meio da sala. Há ali casais que dançavam lentamente ao som de violinos e pianos ausentes, como se a música fosse também ela inventada. Também eles param ao ver-me no meio de tudo a olhar, para ti, afastando-se para me deixar, ali, sozinha à vista de todos, ensurdecida pela ressonância dos comentários que ressaltam no meu peito, finalmente capturada por todos os olhares já completamente fixos em mim. Talvez seja mesmo da indumentária. Na verdade, talvez a culpa seja minha… podia ter trocado o vestido de cetim branco-pérola pontuado com alguns pormenores vermelhos com o qual andei todo o dia depois da nossa discussão da noite anterior, podia ter-me penteado e não aparecer com esta imagem de quem foi atropelada repetidamente, os pés descalços, não ter descurado a maquilhagem que não deixaria transparecer na minha face tudo o que não se pode transmitir em palavras.

Ainda sou perfeita para ti?

Vejo-te, aí, sozinho.   

Os violinos e pianos ausentes já pararam de tocar.