Entro no salão de festas
tardiamente, atravessando a porta principal, aguardando um instante nessa
fronteira invisível sem retorno para parar de suster a minha respiração e tentar
respirar o mais normalmente que me é possível neste momento. Por breves segundos
ninguém repara na minha presença, ali, suspensa como se não pertencesse naquele
cenário, a engolir oxigénio à força, a olhar fantasmagoricamente em redor, à
espera de uma tábua de salvação, alguém que mesmo no meio destes preparos me
reconheça, de uma mão que antecipe a cadência dos meus passos para me guiar até
um canto resguardado e ficar comigo toda a noite a ouvir as minhas angústias como
se fossem contos de fadas. Sei que isso não vai acontecer. O meu olhar atravessa
os muitos convidados que se misturam uns nos outros sem que possa encontrar-te
em lado algum. Talvez tu já me tenhas visto aqui como se estivesse à beira de naufragar
e na verdade já só queiras fugir de mim, ou fugir apenas, mas levando-me contigo,
não sei. Talvez a partir de hoje possamos reescrever a nossa história, dar-lhe
um novo destino, um outro final que não aquele que venho antecipando sem
remorso, sem entusiasmo ou esperança. Um final de conto de fadas… Avanço finalmente
para o interior do salão e caminho lentamente, o mais elegantemente que consigo
por entre os restantes convidados, à tua procura, num passo levitado, como se
pudesse evitar tudo e todos, contornando os diálogos animados, soturnos,
sensuais, capturando os sorrisos largados na atmosfera da sala celestial e refletindo-os
timidamente no meu para libertar alguma desta ansiedade que me rodeia como uma
aura de denúncia. Alguns dos convidados olham para mim como se tivesse matado
alguém. As suas expressões apenas confirmam o meu receio de sentir que não
pertenço aqui. À medida que vou atravessando o salão de uma ponta à outra sinto
os seus murmúrios na minha nuca como se fossem segredos acabados de revelar. Talvez
na verdade seja apenas uma má escolha da indumentária da minha parte para esta
ocasião. O vestido simples de quase inexistente, de cetim branco-pérola pontuado
com alguns pormenores vermelhos desmaia pelo corpo fora como se quisesse abandonar-me,
tocando-me ao de leve na pele como uma carícia desleal. Abstraio-me desta perseguição
invisível e continuo a percorrer o vasto salão avançando ligeira entre os
convidados, tentando alhear-me à ressonância dos comentários a ecoar no fundo
do meu peito, dos olhares persecutórios ao ritmo dos meus passos, na tentativa
vã de encontrar-te aqui... vejo-te finalmente, quase do outro lado da sala. Estavas
a olhar para mim também, os nossos olhares a colidirem e entre nós a crescer a
sensação de que o mundo podia estar prestes a acabar agora que nós seríamos os únicos
a saber qual seria o segredo pela sua ruína. Queima-me a expressão da tua face
ao refletires a tua surpresa pela minha presença, aqui, suspensa como se não
pertencesse neste cenário, novamente a engolir oxigénio à força para não desmaiar
para sempre neste momento e para sempre fundir-me nele. Estamos ao alcance de
alguns passos decididos na direção um do outro, de um abraço e um beijo romântico,
como nos filmes, como se tudo entre nós pudesse acabar numa frase qualquer pirosa
e feliz. O som da música de fundo apenas
aprofunda ainda mais este momento em que há pensamentos suspensos, meus, teus, de
todos em nosso redor perante esta cena de filme, à espera de um argumento qualquer
salvador, de contexto, de uma explicação plausível para estar a acontecer neste
preciso momento. Avanço para o meio da sala. Há ali casais que dançavam
lentamente ao som de violinos e pianos ausentes, como se a música fosse também
ela inventada. Também eles param ao ver-me no meio de tudo a olhar, para ti,
afastando-se para me deixar, ali, sozinha à vista de todos, ensurdecida pela
ressonância dos comentários que ressaltam no meu peito, finalmente capturada
por todos os olhares já completamente fixos em mim. Talvez seja mesmo da
indumentária. Na verdade, talvez a culpa seja minha… podia ter trocado o vestido
de cetim branco-pérola pontuado com alguns pormenores vermelhos com o qual
andei todo o dia depois da nossa discussão da noite anterior, podia ter-me
penteado e não aparecer com esta imagem de quem foi atropelada repetidamente, os
pés descalços, não ter descurado a maquilhagem que não deixaria transparecer na
minha face tudo o que não se pode transmitir em palavras.
Ainda sou perfeita para
ti?
Vejo-te, aí, sozinho.
Os violinos e pianos
ausentes já pararam de tocar.
