Sunday, January 25, 2009

16 - Amor Frankenstein

Isolado, numa longa hora de mais uma noite repetida, vou engolindo todas as minhas incertezas flutuantes sozinho, ainda que junto a mim neste leito estranho, num quarto estranho, como prisão de portas abertas, um corpo encontrado perdido na rua desnudada… que afinal não eras tu, apenas uma sombra de ti. Talvez o travo doce do teu perfume a entrar-me pelo peito dentro, inundando-o, talvez a semelhança do teu olhar descrente novamente à espera do meu braço escudo, gritando-me. Procuro-te… Revivo cada caminho do teu corpo vezes sem conta, tacteando a tua pele de olhos fechados por saber que não és tu quem adormeceu sobre a profundidade do meu inseguro peito abismo. Ainda será o teu peito sobre o meu até que os corações se fechem. Não és tu, não poderei ser eu, ainda por aqui um vestígio de ti. A manhã revelar-me-á como um protagonista de expressões mudas que não se calam de atrasadas, antecedendo o nascer de um fantasma tão gigante como tu, cuspido de mistérios bruma sabão, adornado de um ocasional glamour desfeito. Este sou eu. Procuro-te… Procuro-te repetidamente sobre as camas falsas dos inúmeros dorsos curvados pelas noites vencidas… das noites esgotadas, todas as palavras erradas por não ser da tua boca a doce sílaba, por não ser a tua voz desmascarada por detrás dos silêncios fatais. Não és tu, não poderei ser eu, ainda por aqui um vestígio de ti. Todas aquelas pequenas coisas que te fazem viver entre o céu e um mar esquecidos do azul guardadas longe da minha boca, num espaço vazio e oculto que provoca repetidamente a minha alma de frágil, capturando-a. Aprisionei dentro de mim os teus jeitos direitos, os teus gestos concretos, as palavras de asas cortadas... são os meus poemas de vocabulário secreto. Guardei as tuas mãos sujas, os teus pés bailarinos, as tuas coxas profundas de saltos sem rede, a tua face de inúmeras expressões sentidas de perto, entre beijos, de boca limão. Mas não és tu, não poderei voltar a ser eu, para sempre um vestígio de ti. Ainda que descodifique todos os nomes à espera de encontrar o teu algures numa outra língua, num outro sabor amargurado, interligando à pressa todos os contextos nos falsos pretextos, actuando ausente no palco dos quartos intrusos pela quimera de resgatar mais um ingrediente da tua fórmula secreta. Não poderás ser mais que um corpo de memórias tatuadas, espalhadas nas vidas de personagens infiéis que delineiam o meu trajecto, todos os teus centímetros quadrados multiplicados por mil à espera de eu os descobrir e reconstruir. Procuro-te… Porque me é impossível parar de te procurar e encontrar um novo vestígio de ti, saber que és tu e eu, que o meu corpo não se esquece da violência dos teus ombros descaídos sobre os meus desejos morenos, dos teus cabelos negros sufocando os véus dos amargos céus longínquos, do teu rosto a inventar o segredo dos momentos parados. Não sei como sobreviver ao teu fantasma gigante. Não passo de ser apenas uma expressão muda que não se cala de atrasada e atrasa quem por ti fala. Não és tu. Não sou eu, Apenas vestígios de nós.

Sunday, January 18, 2009

15 - A Dois Tempos

Percorro sem rumo as ruas nocturnas desta cidade veloz. Sou mais um dos fragmentos de todas as sombras disformes que compõem este lúdico cenário. Aos poucos perco as horas como restos de recordações falsas, como meros registos de uma vida sentida de inexistente. Resta-me no horizonte turvo da escuridão atroz um pouco do teu palco imaginário, o desenho da tua cintura desfigurando passos de valsas e o ardor deste meu desejo demente.

Que o meu coração se perde entre dois tempos… entre o tempo de deambular inconfidente, sem que qualquer destino me torne suficiente e o tempo disperso de um bater irregular, cavalgante, onde os sentidos e as direcções ficam por traçar e a linha do horizonte se desfaz num perfil ondulante do teu semblante singular.

Invadi mais uma noite nua sem me revelar. Sou o abraço de uma madrugada inimiga, o calor quente de uma mentira vermelho fogo. Tudo resistirá em redor deste palpitante jogo, a vida por saborear… Cairão as nossas máscaras de olhares inexpressivos, inundar-se-ão os tempos mortos de expressões escuras de mudas, gastarei todas as pausas inesperadas no frente-a-frente das línguas soltas de carnudas. Apenas um silêncio bastará para calar todos os motivos e se deflagrarem nos corpos as almas incendiadas.

Que o meu coração bate a dois tempos… descompassado, sobressaltado, o seu ritmo desconcertado, surpreende-me de precipitado… e eu aqui sem saber o que dele fazer, o que fazer de nós, porque tudo se deitará a perder, tudo deixará de ser, quando se calar a sua voz.

Reconheço o horizonte deste meu regresso penitente. Atravesso ruas de silêncios inarráveis na tua direcção sem saber ainda quem deixei de ser, que mentira fraga se agarra desesperada ao meu corpo fausto. Porque tudo se resume aos redutos das nossas palavras escondidas de inseparáveis, aos percursos de colisões, rebeliões, intrusões… o teu olhar exausto… indiferente perante o meu pulsar latente… não parei a tempo de te ver.

Que o meu coração vive a dois tempos... cansado de todos os regressos secretos, de todos os sorrisos desleais de inúmeros pretextos artificiais, de todos os meus movimentos esquivos sobre contactos evasivos que ignoram os peitos abertos.

Refugio-me junto ao teu corpo eterno. Reconheço-lhe os caminhos direitos, as fugas perto do fim, todas as paisagens transparentes. Pelo meu toque atrasado denuncio em mim os tons de um amor inferno e inundo-te de um oxigénio envenenado, o ar ladeado por um perfume alheio que crucifica os meus gestos estreitos. Sorris-me que é jasmim, céus de miragens ardentes. Beijo-te longamente… que foi um longo devaneio, vestígios de lentos momentos, torturas de sonhos cinzentos.