Entro no espaço pouco
iluminado para me abrigar desta noite funda e fria que me persegue. Sou um
fugitivo de mim próprio, percorrendo ruas semi-desertas ao acaso para despistar
esta sensação de desassombro, ousando desejar levar esta parte de mim a um
qualquer lugar e, aí, longe do remorso, deixá-la abandonada de forma definitiva.
Renascer enfim... perante um qualquer símbolo sensual de esperança,
acontecimento profético maquilhado ou palavras sibilantes sussurradas docilmente
ao meu ouvido, consumando este desejo de extinguir a pessoa que encontro no
espelho pela manhã, nos reflexos fugazes de todos os objectos inanimados que
parecem definir-me. Esquecer que me pertenceu ou que lhe pertenci eu. A melodia
lenta de acordes eléctricos agudamente prolongados, pontuada por uma voz melancolicamente
amargurada, feminina, rasgada, domina esta atmosfera adocicada e inebriante. Há
um leve fumo de cigarros extintos suspenso no ar que sensualiza este ambiente aparentemente
submerso sob os candeeiros de luz frágil, como pequenos sóis morrendo aos
poucos presos nas paredes. Levo alguns segundos junto à ombreira da porta de
entrada, ombro com ombro, clandestino, até começar a caminhar hesitante na
direcção do balcão do bar na outra ponta do espaço. Nada me traz aqui mas
também ninguém me espera ou me procura lá fora. Sou um transgressor que procura
abrigar-se em terreno imparcial. Percorro os pequenos metros sobre o soalho
escuro e visivelmente castigado que me separam do balcão. De um lado e do outro
do espaço rectangular, mesas de madeira rústica colocadas perpendicularmente às
paredes confinantes do bar e religiosamente simétricas umas às outras, guardadas
por bancos corridos de ambos os lados. As suas costas finas e acolchoadas num
tecido veludo turquês envelhecido abrigam e concentram conversas sussurradas de
pessoas que me atravessam ligeiramente com o olhar, de uma forma incaracterística,
como na verdade não estivesse aqui. Sento-me num dos bancos réu e peço uma bebida
que não demora a chegar-me às mãos. O copo suado, abraçado pelos meus dedos
piano, flutuando canções. O olhar da empregada interrogando-me em silêncio
enquanto me diz o preço do serviço, numa voz insensível. São minutos
incompreensíveis, difíceis e demorados... Sem expressão. Como não tivessem
qualquer significado. Eternamente demorados e persecutórios. Reveladores do que
me antecede. Admito esta solidão. Pessoas entram e saem pontualmente deste
abrigo nocturno, tornando-o num espaço metamórfico à medida que a noite avança
feroz, bebida após bebida guturalmente saboreada. Por vezes um grupo barulhento
e eléctrico de amigos, na maioria dos casos dois amantes à procura de um lugar
onde romantizar um pouco, escondendo-se de tudo escondendo-se neles próprios.
As mãos seguras nas mãos, os olhos fixos nos olhos sem desviar o olhar,
palavras indiscretas, toques levitados que incendeiam lá dentro os desejos que
não poderão permanecer secretos durante toda a noite. De novo sou revisitado
pelas memórias que procuro esquecer. Não me resta muito mais do que engolir aos
poucos todos os arrependimentos e lamentar a minha incapacidade em fazer o
tempo voltar para atrás como qualquer alma derrotada. Ficaram comigo as
lágrimas que não sendo minhas, tornei minhas inevitavelmente. Não há maior
desilusão do que ser uma desilusão no olhar e palavras de quem nos ama mas que deseja
já não amar. Criei demasiadas ilusões de amor, demasiados sonhos de amores-perfeitos
entre promessas deitadas que não chegaram a ver a luz da manhã. Abusei do amor,
ainda que chegue novamente o tempo de desejar. Desejar alguém que não me
conheça, que não anteceda os meus passos. Desejar alguém que me persiga por
querer capturar-me, por querer sentir o prazer de saltar sobre as minhas costas
cravando os seus dentes no meu pescoço até me sentir a desfalecer inanimado num
desejo de que braços sejam na verdade longas asas. Alguém que queira levar-me
daqui para outro lugar. Para um lugar onde nada esteja marcado com o meu olhar,
pelas expressões desoladas estampadas nos rostos perante a minha passagem, onde
tudo seja uma nova descoberta. O meu nome, sem passado, sem qualquer
significado, inanimado, aguardando por nova voz... Poderias entrar agora neste
espaço submundo, sensualizando-o um pouco mais, apenas para meu deleite e
salvação. Entrarias sozinha, como se este lugar fosse teu, como se pertencesses
aqui e sentar-te-ias num destes bancos réu a escassos metros de distância de
mim, absorvendo toda a atenção para ti. Não trarias ninguém contigo. Ninguém te
esperaria, ninguém te procuraria lá fora. Aguardaria um instante até me olhares
nos olhos, sem reacção imediata, num súbito suspense rasgado pelo teu movimento
predador, como estivesses à espera de encontrares o meu olhar desoladamente hipnótico
capturando-te em segredo. Ficaríamos os dois assim por um breve momento sem
saber como escapar deste frame pulsante. Poderias ser tu. Ainda agora tocava
uma melodia lenta de acordes eléctricos prolongados, pontuada por uma voz melancolicamente
amargurada, feminina rasgada... Não poderemos nunca deixar de desejar.