Sunday, December 24, 2023

77 - Caixa de Memórias

Levo-te pelas mãos, devagar, como se aprendesses agora a caminhar. Pé ante pé, vens comigo em passos de criança, seguindo os dois muito juntos, lentamente, frente a frente, eu recuando de costas cuidadosamente, amparando-te pelas mãos até chegarmos por fim ao nosso carro que está no pequeno parque de estacionamento passando o pequeno portão do quintal da nossa casa, já tão magoado pelo tempo, reclamando ao nosso passar. Hesitas quando abro a porta do carro e peço-te para entrar. Respiro fundo e insisto contigo. Com delicadeza e paciência porque sei que não poderá ser de outra maneira. Digo-te que vamos dar uma volta por aí, passear até à tua terra. A tua terra que lá está, tão longe fisicamente de nós como está da tua memória. Vamos onde, perguntas-me tu, aparentemente surpreendido pela minha proposta. À tua terra, repito. Ter com os teus pais que estão à nossa espera muito preocupados. Acabas por aceitar estas mentiras docilmente. Está bem, vamos lá então, respondes-me finalmente, como na verdade tudo isto tivesse sido uma ideia tua. Será uma vontade nossa irmo-nos esquecendo de tudo aos poucos até não sobrar nada na nossa mente, até caírem todos os muros que protegem quem somos, acabando todas as nossas memórias por fugir para lá desse espaço sem horizontes, regressando e fugindo de novo como lhes convém, cada vez mais inócuas como fantasmas desfeitos? Talvez seja uma inevitável consequência de querermos esquecer os nossos pecados, de não pretendermos enfrentar a nossa realidade de frente, amar a nossa solidão. Mas talvez haja um preço por querermos esquecer o que nos convém e não possamos evitar perdermos tudo… as más e as boas memórias, os fracassos e os sucessos, as frustrações e os orgulhos, restando-nos os delírios até não restar mais nada. Não sei. Talvez apenas procure algo que faça mais sentido de que uma mera inevitabilidade genética. A viagem que idealizei até à praia vai demorar cerca de vinte minutos nada mais. Espero apenas que a tua impaciência não regresse e te mantenhas tranquilo até chegarmos ao destino. Na verdade, à medida que o carro vai avançando pela estrada acabo por perceber que se trata de um dia bom porque manténs-te calmo toda a viagem, apreciando a paisagem que descobres e esqueces no mesmo segundo, talvez tragicamente hipnotizado nessa repetição de descobertas. Ao chegarmos à praia, a custo ajudo-te a sair do carro para minutos depois nos sentarmos novamente, agora num banco de madeira em frente à praia onde raramente alguém se senta. O calor suave agrada-te, percebo pelo pequeno sorriso. Estranhamente permaneces em silêncio, ali sentado enquanto olhas para o areal dourado, para o mar límpido, para o conforto de pessoas desconhecidas. Há neste silêncio um silêncio maior. Não apenas esta cada vez mais habitual ausência de palavras que permanece após tantas perguntas simples que vou fazendo com insistência para tentar resgatar-te desse lugar abismo. Encontro-o também após compassos desconectados de frases sem sentido que saem da tua boca à procura de uma realidade qualquer que na verdade não existe nem nunca existiu e que invariavelmente nos deixa aos dois em lugar nenhum. Sobressai no teu semblante fechado, quando palavras por ti mal murmuradas resistem como absurdos sem qualquer significado, mas que segues com as mãos, estendendo-as à tua frente como procurasses por uma salvação numa mímica incoerente, vasculhando nesse vazio à tua frente como realmente ali houvesse algo que pudesses tocar e manejar, impedindo-te de delirar. São estes os dias que temos, como cada um deles não passasse de um ponto final, um contínuo fim que recomeça uma e outra vez sem sentido. Seguro-te na mão como se fossemos novamente aqueles jovens que se encontraram décadas atrás para nunca mais nos perdermos um do outro. Olho para ti. Quem sou eu, pergunto-te do nada, esperançada que me respondas de imediato que me reconheces, à tua mulher, que sempre estive aqui e que ainda me amas como no primeiro dia. Olhas-me por segundos intermináveis, essa antecipação transformada num sepulcro das tuas palavras. Não sei, respondes-me por fim. Há um pequeno desespero que fica a levitar entre nós, a imagem de um fantasma desfeito que passou por ti, mas que não conseguiste agarrar. Sou eu, respondo-te calmamente, o sorriso a querer desfazer-se no imediato, sem forças para se manter. Recupero imediatamente outras memórias para nos distrairmos desta ausência entre nós, lanço-as na tua direção como se fossem pequenas boias de salvação. Os filhos, os netos, a família toda, os empregos, dos beijos às desilusões. Incansavelmente, relato tudo outra vez, tu por vezes a fingir que sabes do que falo, onde estás, onde ficámos. O teu nome também a fugir da tua frágil perceção. Sou a tua caixa de memórias. Guardo-as como um fiel arquivista para que nada se perca, resgatando os registos conforme a conveniência dos momentos que se atravessam à tua frente. Revivo contigo uma e outra vez circunstâncias que passámos e que ambos dissemos inesquecíveis. Sou eu quem guarda todos os nossos pormenores delicados, todas as palavras que proferimos entre paixões e desesperos, todas as músicas com as quais dançámos e nos enfrentámos, todas as noites eternas que guardámos connosco porque não queriam voltar a ser dia. Mentiste-me. Afinal esqueceste-me. Como posso continuar a amar-te quando já não existo em ti? Quando procuro pelo meu nome na tua boca e só encontro essa expressão tonta de quem parece nada saber deste tempo, deste dia, deste momento? Ainda subsiste alguma coisa de ti dentro desse corpo cada vez mais quebrado? Tudo isto não parece passar de uma ilusão, uma mentira que foi contada uma e outra vez até se tornar numa verdade inevitável. Terei de permanecer aqui junto a ti para sempre? Segurar-te a mão ainda que para ti não haja qualquer significado nesse contacto? Manter um sofrimento na mesma medida que se mantém um amor? Esquecer-me de mim também enquanto vou lutando em vão contra a ausência de uma realidade? Perder-me nos caminhos que antes me levavam até aos teus segredos? Fingir que ainda sou quem era para ti?

Esqueceste-me.

Não sou mais que o eco de um grito dentro de ti.


Tuesday, July 18, 2023

76 - Conto de Fadas

Entro no salão de festas tardiamente, atravessando a porta principal, aguardando um instante nessa fronteira invisível sem retorno para parar de suster a minha respiração e tentar respirar o mais normalmente que me é possível neste momento. Por breves segundos ninguém repara na minha presença, ali, suspensa como se não pertencesse naquele cenário, a engolir oxigénio à força, a olhar fantasmagoricamente em redor, à espera de uma tábua de salvação, alguém que mesmo no meio destes preparos me reconheça, de uma mão que antecipe a cadência dos meus passos para me guiar até um canto resguardado e ficar comigo toda a noite a ouvir as minhas angústias como se fossem contos de fadas. Sei que isso não vai acontecer. O meu olhar atravessa os muitos convidados que se misturam uns nos outros sem que possa encontrar-te em lado algum. Talvez tu já me tenhas visto aqui como se estivesse à beira de naufragar e na verdade já só queiras fugir de mim, ou fugir apenas, mas levando-me contigo, não sei. Talvez a partir de hoje possamos reescrever a nossa história, dar-lhe um novo destino, um outro final que não aquele que venho antecipando sem remorso, sem entusiasmo ou esperança. Um final de conto de fadas… Avanço finalmente para o interior do salão e caminho lentamente, o mais elegantemente que consigo por entre os restantes convidados, à tua procura, num passo levitado, como se pudesse evitar tudo e todos, contornando os diálogos animados, soturnos, sensuais, capturando os sorrisos largados na atmosfera da sala celestial e refletindo-os timidamente no meu para libertar alguma desta ansiedade que me rodeia como uma aura de denúncia. Alguns dos convidados olham para mim como se tivesse matado alguém. As suas expressões apenas confirmam o meu receio de sentir que não pertenço aqui. À medida que vou atravessando o salão de uma ponta à outra sinto os seus murmúrios na minha nuca como se fossem segredos acabados de revelar. Talvez na verdade seja apenas uma má escolha da indumentária da minha parte para esta ocasião. O vestido simples de quase inexistente, de cetim branco-pérola pontuado com alguns pormenores vermelhos desmaia pelo corpo fora como se quisesse abandonar-me, tocando-me ao de leve na pele como uma carícia desleal. Abstraio-me desta perseguição invisível e continuo a percorrer o vasto salão avançando ligeira entre os convidados, tentando alhear-me à ressonância dos comentários a ecoar no fundo do meu peito, dos olhares persecutórios ao ritmo dos meus passos, na tentativa vã de encontrar-te aqui... vejo-te finalmente, quase do outro lado da sala. Estavas a olhar para mim também, os nossos olhares a colidirem e entre nós a crescer a sensação de que o mundo podia estar prestes a acabar agora que nós seríamos os únicos a saber qual seria o segredo pela sua ruína. Queima-me a expressão da tua face ao refletires a tua surpresa pela minha presença, aqui, suspensa como se não pertencesse neste cenário, novamente a engolir oxigénio à força para não desmaiar para sempre neste momento e para sempre fundir-me nele. Estamos ao alcance de alguns passos decididos na direção um do outro, de um abraço e um beijo romântico, como nos filmes, como se tudo entre nós pudesse acabar numa frase qualquer pirosa e feliz.  O som da música de fundo apenas aprofunda ainda mais este momento em que há pensamentos suspensos, meus, teus, de todos em nosso redor perante esta cena de filme, à espera de um argumento qualquer salvador, de contexto, de uma explicação plausível para estar a acontecer neste preciso momento. Avanço para o meio da sala. Há ali casais que dançavam lentamente ao som de violinos e pianos ausentes, como se a música fosse também ela inventada. Também eles param ao ver-me no meio de tudo a olhar, para ti, afastando-se para me deixar, ali, sozinha à vista de todos, ensurdecida pela ressonância dos comentários que ressaltam no meu peito, finalmente capturada por todos os olhares já completamente fixos em mim. Talvez seja mesmo da indumentária. Na verdade, talvez a culpa seja minha… podia ter trocado o vestido de cetim branco-pérola pontuado com alguns pormenores vermelhos com o qual andei todo o dia depois da nossa discussão da noite anterior, podia ter-me penteado e não aparecer com esta imagem de quem foi atropelada repetidamente, os pés descalços, não ter descurado a maquilhagem que não deixaria transparecer na minha face tudo o que não se pode transmitir em palavras.

Ainda sou perfeita para ti?

Vejo-te, aí, sozinho.   

Os violinos e pianos ausentes já pararam de tocar.   


Thursday, June 8, 2023

75 - Vilão

 

Desta história hipnótica segura nas nossas mãos entrelaçadas,

restou um momento de respiração suspensa. Todas as imagens rasgadas,

todos os meus vestígios sentença submersos no teu peito arcano.

 

Deste motim que resvalou para o teu colo desamparado,

nasceu uma mágoa de costas voltadas. Todo o meu ser amaldiçoado,

as minhas palavras silenciadas pelo eco deste abismo tirano.

 

Desta solidão acabada e abandonada junto ao teu peito inocente,  

ficou o tempo dos olhares perdidos. O amanhecer do meu corpo ausente,

os meus mistérios esquecidos no recanto de um existir mundano.

 

Sou um delito, um crime, um vilão.

Espaço infinito,

canção que oprime,

pobre de coração.

Monday, April 17, 2023

74 - Unicórnio

 

Nunca poderei compreender o vosso amor. Nunca mais poderei perdoar-te a ausência. Inevitavelmente, não poderei perdoar-me pelo afastamento que entre nós fui deixando construir-se sozinho, tão bem escrita foi esta tragédia sem fim. O destino aos poucos a revelar a ineludível fatalidade, o cruel e amargurado caminho traçado por vocês ao longo daqueles escassos três anos que se tornaram nesse percurso cada vez mais tortuoso, percorrido na direção de uma perdição inevitável, mãos entrelaçadas uma na outra sem hesitação, olhares suspensos da realidade num conforto da fatalidade partilhada, a espaços encoberta por uma magia artificial, futuros severamente rendidos. Consigo recordar perfeitamente o primeiro momento da vossa história de amor iludido. Chegaste numa tarde anunciando essa sensação mútua de euforia e melancolia, na qual dizias ter renascido. Entraste pelo meu quarto adentro, delirada com o novo contorno em redor do teu coração, uma marcação de território vincada e delineada com clara definição, como um desenho concreto feito numa folha de papel à espera de tema. Era oficial. Estavas apaixonada. Não sabias o que dizer... habitualmente só ficavas assim após um novo poema, que, encontrando-te desprevenida, (por acreditavas fielmente que eram os poemas que te encontravam) silenciava-te durante dias, deixando-te num inesgotável sentimento de virtude único que só tu poderias compreender. Eras feliz aí, como pensavas ser com ele a partir desse dia em que pousaste a cabeça no meu colo, o teu longo cabelo indeciso entre o louro e o castanho espalhado como um vento a repousar, os teus olhos de um verde-escuro singular absorvendo o teto do meu quarto como se fosse agora um outro céu, descrevendo-me com um prazer ainda incompreendido para mim, as suas feições harmoniosas, o mistério naquela personalidade masculina recém-adulta, a voz que já comandava a tua vontade sem saber como. Ali de cabeça pousada no meu regaço na verdade já não estavas presente. O teu espírito tinha sido raptado sem um resgate que o pudesse alguma vez mais devolver. Tinhas dezasseis anos, eu, apenas catorze. Quem nos poderia salvar? Mas sorri ao ouvir-te falar de amor naquele dia. Começaste a namorar secretamente porque não querias que ninguém soubesse e tinhas medo da reação dos nossos pais que nos protegiam com uma tenacidade feroz. Irremediavelmente, pouco tempo depois, já toda a gente sabia e comentava, fruto de uma cidade pequena que ecoa os segredos alheios com enorme prazer. Foi uma questão de tempo até o suposto segredo entrar pela nossa casa aos gritos, anunciando-se pela voz do nosso pai entre um timbre de desilusão e franca desorientação. Foram meses sem fim de discussões e confrontos. Desde as profecias sobre os perigos óbvios de sexo desprotegido ou de uma possível gravidez indesejada, aos perigos do desvio de rota de uma vida com enorme potencial em detrimento de um personagem de reputação desgarrada, sem futuro, sem posses que o pudessem validar, sem hipóteses de ser alguma vez digno, tudo foi arma de arremesso, tudo foi medo lançado aos teus pés para evitar que desses mais um passo em frente. Tudo foi feito para te parar como era suposto por quem te amava, ainda que mais não fossem do que empurrões pelas costas para te lançar nos braços dele ainda com mais vigor. Das restrições, ao controlo rígido dos horários, passando pelos castigos, morrendo nas súplicas de quem já não sabia que pessoa ser para voltar a controlar o que nunca foi na verdade controlável, tudo foi feito para te proteger, para te trazer de volta, ainda que intimamente soubéssemos que já não nos pertencias e que havia um caminho inevitável a percorrer do qual não regressaríamos. Foram longos meses de declínio. Onde esteve o gatilho ninguém sabe. Era destino? Queria saber para o poder corrigir. Começaste o teu processo de afastamento devagar como se tivesses traçado um plano de fuga pacientemente. Aos poucos deixaste de falar, dando-me a sensação de estares cada vez mais absorta num mundo ao qual nós não poderíamos aceder. A tua genialidade para aquilo a que eu chamava “mundo dos sentimentos” desaparecida para sempre. O teu corpo subitamente a mudar tragicamente, a envelhecer, a tornar a tua beleza outrora exterior e interior num invólucro desgastado. Os problemas evidentes dos consecutivos estados de magia artificial a entrarem na nossa casa, a derrotarem ferozmente todas as tentativas de te salvar, condenando-nos com uma violência atroz pelas vãs tentativas de salvamento. À força, carregados de esperanças pequenas, os pais levavam-te para as clínicas onde passavas dois, três meses para tentarem recuperar a sua filha. Levavam o corpo e acreditavam trazer novamente o teu espírito quando lhes dizias que desta vez ias conseguir recuperar, que não se iam arrepender e que querias novamente ser surpreendida por poemas como antes. Beijavam-te, regressavam a casa sem ti e guardavam o teu espírito entre eles, chorando todas as noites baixinho quando tudo era silêncio e os desesperos crescem desgovernadamente no nosso íntimo… ainda assim, sobrevivendo na expectativa de que fossem verdade as palavras que saíam da tua boca. Ao ouvi-los, ficava sozinha no meu quarto a pensar porque seria o amor teu inimigo, porque te teria o amor escolhido a ti para ser indigno. Nunca mais iria sorrir ao ouvir falar de amor… Regressavas, mas para regressar para ele e não para nós. Não era preciso esperar muito e de nada serviam as ameaças psicológicas e até físicas dirigidas ao teu amante para se afastar de ti. Repetia-se o ciclo. Uma a outra vez. Desaparecias com ele por vários dias, sem dares notícias e os pais procuravam-te insanamente numa ilusão já completamente inglória. Regressavas inerte e voltavas a desaparecer. Até um dia não voltares nunca mais. Foi o que restou desses dias. O som do telefone a tocar numa hora noturna incompreensível, a voz da mãe a gritar do meio da noite rasgando o seu silêncio de uma forma atroz, tornando-o, para sempre, num abismo horrível, de um desespero sem tamanho que o defina. As lágrimas da mãe morrendo devagar no peito do pai que nunca as conseguiria conter por ter ele também um mar de lágrimas a transbordar. Eu… a sentir que estaria para sempre sozinha a partir desse momento… encontraram-vos juntos, deitados lado a lado de frente um para o outro, num canto de um casarão há muito abandonado, as seringas espalhadas pelo chão, móveis velhos a cair de podre, lixo e sujidade por todo o lado, as vossas mãos a tocarem-se ao de leve como numa despedida, janelas meio fechadas com plásticos, um cheiro nauseabundo a tornar o ar irrespirável, o teu longo cabelo indeciso entre o louro e o castanho prostrado no chão como um vento esgotado, os teus olhos de um verde-escuro singular perdidos e prostrados num outro céu.