Sunday, August 23, 2020

70 - Ataque de Pânico

 

Procuro pelas tuas mãos porque há nelas um abrigo infinito,

um código de honra que me salva por não poder fazer mais nada.

Interrompida a noite instante hipnótica, como pronúncio de delito,

subi à voz na minha mente neurótica que grita para ser silenciada.

 

Sou ansiedade, nervo que perdura, loucura que não se quer nem se procura.

Declaro insanidade, incorporo a violência, demência que confirma a minha ausência.    

 

Repouso no berço do teu peito onde os pesadelos são contos de encantar,

o deslumbre de um céu aberto e o calor intenso de uma promessa divina.

Salvas-me desta fragilidade intocável pelo sabor do teu beijo no meu paladar,

de ser um longo murmúrio inconsolável a ecoar na minha alma ravina.  

69 - Margaridas

 

Ao atravessar a linha perfeitamente demarcada no chão, o pesado portão bate com estrondo atrás de mim. O seu som metálico estridente é um grito combinado de violência, raiva e desespero. Anuncia-me sem remorso a este mundo de paredes abismo onde acabo de entrar. Este é um novo mundo, com novas regras, alterado para se estar permanentemente ausente do que vai acontecendo lá fora, transformando-se paulatinamente essa ausência na condenação eterna de nunca mais se saber ser gente. “Apenas visitantes” é o que está escrito no chão, mesmo à beira dos meus pés. Deixo-me ficar nas letras de cor amarelo magoado a murmurar do cinzento de um chão intensamente cicatrizado enquanto o guarda de serviço vai remexendo nas coisas que trouxe, deixando de lado sem remorso alguns dos artigos que não são permitidos ultrapassar este ponto intermédio de investigação. Preencho de seguida um formulário para registar o que ficou para trás e assim recuperar a mercadoria proibida quando sair. Todas as ações dentro de uma prisão se assemelham a um crime desde o instante em que se entra até ao momento em que se sai. Seja quem for. Todos somos, de alguma forma, aparentemente culpados por estar aqui neste preciso momento. Atravesso uma porta com uma pequena escotilha, onde do lado de lá, um outro guarda ia observando toda a minúcia da revista até receber a indicação para me deixar passar. Novamente uma porta metálica que se fecha atrás de mim, para me deixar cada vez mais ausente neste plano de isolamento. Por mais vezes que atravesse o corredor que me guia até á sala de visitas, nunca deixarei de sentir como se de um caminho para a condenação se tratasse. Apesar de serem escassos os metros a percorrer, o caminho parece perdurar no infinito. Levo comigo um amor suspenso, neste tempo suspenso de vidas suspensas. Nada se move a partir daqui. E o tempo esquece-se de tudo. Olho para dentro da sala e vejo-te sentada à beira de uma das mesas mais afastada da porta de entrada dos visitantes. Na sala ampla e quadrangular há várias mesas circulares onde se podem reunir cerca de cinco a seis pessoas. Há famílias inteiras a conversar baixinho entre si como se cada segundo dessas conversas fosse um segredo bem guardado que ninguém pode saber. Segredos são das poucas coisas que se podem guardar aqui. Alguns miúdos pequenos brincam à margem dessas conversas, distraídos com os brinquedos que trouxeram e é um tormento sentir que não enquadram ali ao vê-los abstraídos de tudo, como seres abandonados numa dimensão autista. A luz entra pelas janelas retangulares equidistantes entre si e instaladas em três das quatro paredes da sala, gradeando o sol, o céu, as nuvens e os sonhos. A sensação claustrofóbica destes gradeamentos rigorosos servirem na verdade para aprisionar o mundo lá fora, como se fosse ele próprio uma transgressão é terrivelmente opressor. Estou parado à porta da entrada da sala das visitas há já algum tempo a olhar para ti, sentada sozinha na mesa onde te descobri. Uma das guardas prisionais que se encontra na sala a inspecionar o espaço olha para mim como guardasse um óbvio delito oculto. Lanço-lhe um aceno ligeiro com a cabeça e avanço imediatamente na tua direção. Todas as ações, todos os movimentos dentro de uma prisão se assemelham a um crime… sente-se na pele, desde o primeiro instante. Percebo agora que nem te terias apercebido ainda da minha presença na sala pois ao chegar junto de ti percebo que surpreendo o teu pensamento absorto. Há na tua boca um sorriso que se esforça por falar sem sucesso, no teu olhar uma expressão que grita horrivelmente por salvação, nas tuas mãos entrelaçadas sobre a mesa uma oração de preces desmerecidas. Beijo-te na face e sento-me a teu lado. Mostro-te as coisas que te trouxe. Dois livros que inspecionaste vagamente sem grande interesse, os dois cadernos que me pediste na visita anterior, revistas várias que recusas de imediato e três pacotes de bolachas diversas que pousas sobre as pernas. Um pequeno tesouro aqui. Deixas a restante mercadoria sobre a mesa onde também se destaca um pequeno vaso de flores como novo artigo de decoração. Reparo agora que há um vaso semelhante em cada uma das mesas, algo que na verdade não havia da última vez em que estive aqui. Acaricias entre os dedos as pétalas de uma margarida desfalecida, entre tantas outras a desfalecer lentamente para uma morte confirmada. Pergunto-me quem acaricia quem. Aos poucos tentamos falar, mas há um enorme silêncio para vencer de cada vez que venho aqui. A sua profundidade tem aumentado a cada encontro e sinto cada vez mais dificuldade em mergulhar para te resgatar. Estás aqui há cerca de dois anos e é tudo o que se pode explicar por agora e que na verdade valha a pena dizer sobre o teu presídio. Nos nossos diálogos, cada vez mais constantemente, entre frases desconexas e soltas de qualquer propósito lógico, dizes-me que o teu mundo morreu e que o meu não avança. Ao ouvir-te sei que esperas pelo meu irremediável abandono, pelo meu avançar lógico na direção da preservação da minha vida, pela fuga a uma contínua prisão que és tu. A cada palavra tua a autorização que me iliba e me salva. Seguro as tuas mãos frias por um momento para te acalmar mas há em ti um nervo atroz no toque, uma ausência de sensibilidade na expressão do contacto. Ficamos em silêncio, um silêncio de prenúncios. Do nada e sem qualquer palavra levantas-te e levas-me atrás pela mão até ao outro extremo da sala onde pedes à supervisora para usarmos uma das salas da intimidade. A autorização é-nos concedida entre alguns comentários daninhos e risinhos a transbordar humilhação. Neste lugar não há nada que se possa guardar, muito menos a intimidade. Pedes a uma das guardas para guardar o que te trouxe, exceto as revistas que servem de moeda de troca. Entramos num pequeno quarto onde apenas existe uma cama de solteiro em ferro e vestida com lençóis brancos, uma mesa, uma cadeira, um pacote de guardanapos, um pequeno balde do lixo a um canto e mais nada. Já aqui estivemos antes, agora cada vez menos, muito menos. Na verdade não quero estar aqui, quero apenas romper estas paredes e fugir daqui, levar-te comigo, esquecer tudo isto. Apetece-me destruir isto tudo. Sentas-te na cama e eu sento-me a teu lado hesitante e nervoso, tento abraçar-te mas recusas, cobres a face com as mãos e pedes-me novamente para não voltar mais. Na minha cabeça recuso tal possibilidade. Viro-te para mim e ficamos face com face, olhos nos olhos, durante largos segundos, talvez minutos. As tuas mãos descobrem-me. Abres-me a camisa, botão a botão, sem nunca nos perdermos de vista. Esta não é a realidade que está latente neste ar, nesta depressão. Seguro as tuas mãos e paro a tua intenção de fugires de mim no teu corpo. Há em ti uma expressão a desmoronar-se. Finalmente cedes e a tua cabeça desmaia no meu peito para chorares compulsivamente. Isto sou eu a salvar-te. Finalmente consigo abraçar-te sem qualquer resistência da tua parte e ficamos assim até sermos obrigados a sair dali. Sempre fomos só nós. Seremos sempre nós. Sei que também estou preso aqui, ao teu lado, lá fora, em qualquer lugar, por não saber para onde ir a partir do momento em que saio daqui, por não poder deixar-te para trás nem levar-te comigo. Tudo passou a ser uma prisão, todos os momentos que não posso partilhar, toda a ausência que não podemos colmatar, a vida que passámos a ignorar. Ao voltarmos para a nossa mesa não ouvimos qualquer comentário por parte das guardas prisionais. Talvez te tenham ouvido chorar. Se há algo que é compreendido neste lugar são as lágrimas dos outros. Temos tempo apenas para podermos trocar algumas palavras de despedida nas quais não consigo dimensionar a dor de ter de partir agora, de não poder ouvir a tua voz quando quiser, tocar-te para sentir-me renascer, deitar-me junto de ti para te sentir adormecer ao meu lado. Entre nós apenas este vaso das margaridas a desfalecer. Ninguém se atreve a despi-las.

Saturday, August 1, 2020

68 - Espelho Partido



É um encontro de família. Sorrisos fáceis e abraços fraternais, faces que se reconhecem nos jeitos iguais, anos de histórias acumuladas a chegarem por detrás de cada um e que passam a estar ali refletidos nos risos das crianças a galoparem pelas paredes, como se galopassem pela nossa vida à procura de mais uma brincadeira inocente para recordarmos e reviver. Reencontros de passados que se unem nos instantes em que bocas se abrem para aconchegar o nome de alguém que faltava e que chega, para trazê-lo até mais perto de uma glória que de tão insignificante acaba por ser no fim a única que verdadeiramente importa, íntima e profunda na emoção de cada um de nós. Sentem-se os abraços como palavras de compreensão, as perguntas sobre o estado da vida de cada um como resgastes sem retorno do sofrimento individual, formam-se novamente e sem esforço os elos de segredos guardados no sangue que partilhamos. Somos cinco irmãos, quatro rapazes e uma rapariga que não sabe o que fazer de nós, mas que sem nós acredito que pouco sorri. Há vidas onde a juventude se planta mais fundo e de onde não parece conseguir nunca mais florir. Talvez seja por ser a mais velha de todos e ter sido uma saga contínua ver crescer quatro pelintras desajeitados na alma e complexos no coração como um botão de ligar e desligar. Estão todos casados à exceção de mim. Os respetivos cônjuges e ninhadas estão aqui também sem perceberem como se perdem à nossa procura quando nos juntamos todos e entramos num jogo de segundas personalidades e frases misteriosas que eles não sabem como descodificar. Fazemos esta reunião aqui nesta casa de família uma vez por mês, quase sempre resguardados na sala ampla e no calor que emana da sua lareira generosa nos meses mais frios ou abrigados pelo alpendre amplo da entrada nos meses mais quentes… nessa época do ano, como hoje, quase sempre nos perdemos distraídos a observar a criançada a correr pelo quintal a imitarem-nos anos atrás, e, deixamo-nos ficar sentados em qualquer lado com uma bebida fresca a acompanhar, enquanto nos vai embalando o silêncio desta zona rural, compassado pelo canto das cigarras à desgarrada e pontuado pelo crepitar do calor a sobressair da pele das árvores que nos rodeiam como uma guarda pretoriana. Hoje não é exceção. O almoço correu lindamente, são horas que passam depressa a falarmos da vida, dos problemas que parecem subitamente menores, das mínimas trivialidades, a rirmos com todos os disparates que saem da boca à mesma velocidade que entram os vinhos ou as cervejas, um ritual para sentirmos que há sempre alguém a quem regressar, como cada um de nós fosse um refúgio que está ali para sempre fortificado. Ainda mais agora que os nossos pais já se foram deste mundo e não nos podem senão comtemplar de um outro lugar que inocentemente esperamos que exista. Morreram-nos demasiado cedo, e nós, consciencializados nessa crença de que nos seguem ao longe os passos, acreditamos que esta união entre toda a sua sucessão contribui para não os desiludir. Pelo menos a mim renova-me a fé… Levanto-me para ir à casa de banho. No fundo do corredor desta típica casa rústica há um espelho comprido, de corpo inteiro, esguio e traiçoeiro no seu reflexo quase hipnótico no seu apelo enevoado. A minha mãe guardou para sempre este espelho sem qualquer razão. Primeiro na nossa casa principal onde crescemos e depois aqui, quando finalmente deixou de se enquadrar na evolução da decoração moderna e impessoal dos tempos. Está velho, a sua superfície refletora já bastante oxidada em todo o seu perímetro elíptico e a evoluir lentamente para o resto da área como uma pequena praga; o seu corpo em madeira escurecida muito trabalhada que o ampara e define, tão cruelmente deprimente como alguém outrora belo que não soube envelhecer. Fiquei parado suspenso na minha própria imagem refletida e uma estranha sensação de não saber para onde ir invadiu-me de imediato. Estarmos sozinhos tem muitas vezes destas coisas. Facilmente somos confrontados por nós próprios e sentimo-nos ainda mais sós. Sinto uma mão sobre um dos meus ombros. A minha irmã que meu deu tanto ao longo da vida, estende-me novamente o braço para me resgatar desta súbita melancolia. Lê a minha expressão no espelho e abraça-me o peito com força, encostando a sua cabeça nas minhas costas, quem sabe para ouvir o meu batimento cardíaco e adivinhar as emoções que por ali andam. Vira-se então para mim e numa pergunta de tão honesta como cruel, arranca finalmente da minha língua o teu nome. Digo que não quero falar em ti, que há em ti um passado que já não posso nem ouso ressuscitar. Invade-lhe nos seus olhos uma expressão de derrota. Certamente sente que era em ti que residia a única esperança de não continuar a isolar-me, adiando constantemente o meu futuro nesta solidão que a minha querida irmã não quer para mim. Há neste silêncio depois da sua pergunta âncora e na minha resposta náufraga algo que diz tudo. Aconchega-me a face. Na sua mão reside o carinho de uma continuidade na esperança quase infinita ou apenas o gesto de quem sabe que vou sofrer ainda mais e já vai antecipando o reconforto, não consigo na verdade distinguir. Pede-me para te ligar, diz-me que ainda há tempo para beber um café, que tudo se resolve. O perdão está ali à minha espera, no amor que o define, que não guarda rancor. É a experiência de quem já sofreu por amor e sobreviveu para contar. Poderia ter respondido que já passaram tantos anos, que há muito tempo que não sei nada de ti. Que lamento que as coisas tenham acabado tão mal, como na verdade acabam sempre quando a intensidade do amor se desequilibra violentamente para um dos lados. Que no meu afastamento havia apenas a intenção de salvar-te, salvar-te de mim, da pessoa indigna que se apoderara da minha inconsciência juvenil de então. Que me afastei porque não suportei a dor de te magoar como se não houvesse já nada dentro de mim que valesse a pena partilhar e de não ter a coragem de a partir desse momento de redenção embarcar numa aventura de reconquistar-te todos os dias. Mas não digo nada disto e acabo apenas por resmungar entre dentes que não vale a pena. Que tu já deves ter alguém e que não posso voltar a entrar na tua vida como se não fosse nada. A minha pele retesou-se instantaneamente como se toda a minha face fosse feita de couro ressequido, sinal claro de que o gosto destas palavras está a escorrer-me lentamente pela garganta como um veneno azedo intragável. A minha irmã observa-me por alguns segundos intermináveis para por fim dizer-me apenas que há em mim um lugar obscuro que tenho de abandonar para poder voltar a viver. Olho para os seus pequenos olhos azuis pérola e por momentos acredito que é ela a minha alma gémea, como se eu fosse um corpo transparente do qual ela sabe e conhece tudo sem a necessidade de remexer ou perguntar. Depois, sem mais palavras e como antigamente, a minha irmã entra na casa de banho roubando-me a vez. Sempre houve nestes pequenos cómicos episódios o equilíbrio certo para os dramas que nos pontuaram a vida. A forma certa de sobreviver… Sorrio ligeiramente ao ver a porta fechar-se. Volto a olhar para o reflexo do espelho. Depois de tantos anos o que poderia dizer a mim mesmo? Que quis esquecer-te. Que quis acreditar que poderia dominar todos os meus sentimentos mas que sei agora ser prisioneiro da minha própria armadilha, traído pelo amor renegado que julgava poder desmontar como se fosse uma máquina com um manual de instruções a acompanhar. Que pensei que o tempo curaria tudo e avançaríamos ambos em frente. Imagino-te a olhar para um espelho também a pensar em mim. É uma prepotência que não me abandonará nunca… querer prender-te a mim para sempre como se tivesse sido a melhor coisa do mundo. Certamente por estes dias tu caminhas livre. Livre de reflexos,.. e ainda que o amor te iluda não voltarás a cair porque a linha do tempo que na verdade não cura tudo já terá sido desdobrada por ti vezes demais, ao ponto de conseguires camuflar na perfeição toda a dor a partir dessa perceção fraturada que temos de nós. Antes de sair dali à pressa queria muito ter partido aquele espelho, mas não tive coragem. As imagens reais são por vezes um horror interminável.  

Tuesday, May 12, 2020

67 - Narciboy



Contar-te-ei doces mentiras. Da minha boca sairão as canções para te encantar perdidamente como se um conto romântico governasse a tua vida a partir da introdução da minha personagem imaculada e irresistível no teu percurso linear. Farei tudo o que puder para te ter. Serás minha, sei que serás minha. Não haverá forma de me rejeitares, de me dizeres que não perante os meus encantos, encantada que estarás por vivermos a sós na brandura dos meus recantos onde te faço dançar, levitar. Não sei quem és mas na verdade não importa. Em cada face, a cada olhar que se cruza com o meu, sinto que é nos meus olhos que todas se perdem mais cedo ou mais tarde. Tu também… não há melhor momento. A candura desse naufragar inesquecível aos meus pés. Saber que farás tudo por mim em qualquer circunstância. Sei que já deste por mim. As miragens das minhas feições entre os outros não te são estranhas. Ficaste em mim vezes demais, uns segundos a mais e eu já percebi. Retribuo sem sorrisos, apenas um olhar profundo e penetrante sem medos, porque sei que tenho tudo do meu lado, a beleza e a confiança que não vacila, o falso dramatismo destes momentos que articulo para te deixar ainda mais intrigada e a viver no depois. Arranjarei forma de procurar-te num acaso manobrado. Na noite talvez… criarei a maquiavélica oportunidade de oferecer-te uma bebida mélica, fazer-te sorrir, levar-te a dançar até um dos meus recantos. O primeiro beijo acontecerá devagar, como uma tempestade que demora a chegar mas se vê ao longe. Os meus lábios a descodificarem o código dos teus como desde o início imaginaste que seria. É-me quase possível ver-me já nesse momento perfeito. O meu corpo perfeito, a face perfeita, o sorriso perfeito, o beijo demoníaco vindo do céu que te suspende no ar. Seguir-me-ás depois até onde te levar o meu pecado balsâmico, esse meu charme de feromonas hipnótico conduzindo-te aos poucos para dentro do meu domínio invisível. Murmurar-te-ei pequenos segredos para te aproximares de mim, revelar-te-ei histórias ocultas a todas as outras pessoas apenas por seres tu, pensamentos só meus ficarão amarrados entre nós para te fazer sentir ainda mais atraída por esta minha alma que se desarma com o simples fim de te desnudar. Tudo isto foi intensamente treinado e repetido para ser quase divino. Esta expressão volúvel e abaunilhada na minha face, o penteado moldado com o requinte de uma estrela de cinema, os músculos intensamente trabalhados como peças de fábrica, as palavras certas nos silêncios errados. Não vou passar por ti sem ser um sonho, não quererei ser menos do que um escultural adónis imortalizado na tua boca, espírito e sexo, uma loucura indefensável da qual não pretenderás fugir... um novo deus. Sobre a cama cumpriremos os infames rituais dos nossos corpos nus consumindo-se na exaustão desfigurada até à total sobriedade do apetite. Tudo será permitido nesse espaço entre os corações que batem descontroladamente, para sempre irreal a quem não deixar passar esse momento sem o saborear até ao fim, aficando os dentes bem fundo no sangue desvalido, as unhas na pele desprotegida. À nossa volta poderia acabar o mundo. Por agora seria suficiente, pelo menos para ti sabida de teres vivido em mim. Em ti serei uma chama imensa à procura de arder mais, em mim serás uma noite que termina para que eu possa perdurar. Levarei o teu coração na minha mão.

Wednesday, April 22, 2020

66 - Leva-me contigo



Leva-me até à superfície no teu canto de sereia,
Para ver quem passa, quem abandona os seus,
Pois o mar já não pode ocultar estes sonhos meus,
E a vida acena-me dos pequenos castelos de areia.

Empurra-me para fora deste céu num abraço vingador,
Quero saber quem vive, quem se recusa a morrer,
Pois estou muito só e Deus deixou-se adormecer,
E no mundo ainda resta algum do seu infame amor.

Leva-me contigo, pelo caminho infinito que a alma anseia
Para conhecer quem deslumbra, quem esconde a magia,
Pois não quero uma noite profunda sem esgotar a luz do dia,
E os braços do sol iluminam tudo à minha beira.

Sunday, March 8, 2020

65 - Feitiço de papel



Espalhei todas as tuas cartas antigas sobre a mesa. Imensas páginas de papel gasto sobrepondo-se em pequenos volumes desorganizados por toda a superfície da peça da mobília. Em cada uma delas, o arquivo dos teus longos testemunhos que salvavam as longas separações entre nós, preenchendo esse vazio com a tua narrativa emocional, sufocando a antecipação de cada reencontro até ao limite do suportável. Diariamente este exercício de voltar a descobrir todos os segredos esquecidos. Uma e outra carta relida com a mesma intensidade de antes como na verdade fosse a primeira vez, o mesmo sentimento de ternura por cada palavra tua. Ao reler cada uma destas páginas fábula consigo ouvir a tua voz promessa a meu lado a contar-me cada história, cada confissão, descobrindo aos poucos o contorno dos contextos reais ou imaginados que compunhas habilmente para neles me perder, emocionando-me uma e outra vez na expressão que cada sentimento sobressaía nas palavras certas que espalhavas como um caminho, eternizando cada momento. As tuas doutrinas de paixão a definirem o ritmo em cada linha, como pequenos contos literários de encantar. Como poderia ter evitado amar-te depois de passares para a minha mão todos estes feitiços de papel? Em cada memória a minha consciência a render-se, não querendo regressar. Estes são os meus dias.

Passaram dois anos. Mas ainda assim todos os meus momentos pertencem-te. O sentimento de que a minha história só existe porque tu exististe em mim segrega-me toda a energia e não me deixa mover. Como é possível já ter passado dois anos? Olho para estes dois anos e não consigo descrever algo que os defina a não ser a tua ausência, muito menos registar um acontecimento digno de nota que não seja recordar-te. Estou parada a ver o tempo a passar ao meu lado como uma película de filme sem fim, para sempre enfeitiçada por todas as declarações de amor que deixaste nas minhas mãos desamparadas. Há vagos momentos de libertação que surgem do nada, pois num momento invulgar invoca-me o desejo de escrever-te uma carta, contar-te como me parecem indignos os meus dias pela falta de vida que neles se reconhecem e pedir-te que me libertes de alguma forma, como pudesse haver de facto um antídoto mágico invocado. Talvez seja o meu desespero a falar, o meu instinto de sobrevivência a defender-me da carência fabricada nesta solidão pela tua cruel e eterna inexistência física. Pois ainda que ouça a tua voz em qualquer canto da casa, junto ao meu ouvido, mesmo antes de adormecer, sei que não estás aqui para junto do teu corpo exilar-me feliz. Agora já não há para onde fugir mesmo que todas as minhas células protestem pela inevitabilidade desta realidade. Dois anos depois, continuas a viver aqui, como na verdade ocupasses espaço. Os teus objetos pessoais cimentados nos lugares de sempre a aguardar pelo teu regresso, as tuas roupas a guardar o teu cheiro como óbvio código genético, como confirmação de prova que estás ainda por aqui, as tuas sombras em todo o lado estampadas para sempre. As poucas pessoas que ainda me querem salvar perguntam-me frequentemente por ti mesmo sem pronunciarem o teu nome quando questionam como estou, quando me dizem que já é tempo de seguir em frente, como seguir em frente fosse uma mera escolha improvisada, sendo perfeitamente inevitável esquecer-te no imediato dessa decisão. Não quero esquecer-te. Como poderia esquecer-te quando é ainda a tua respiração pesada ao meu lado que me acorda pela manhã? A tua mão a deslizar devagar pelo meu ombro. Abraço-me. Perdida no labirinto dos meus pensamentos, acabo apenas por escrever uma frase solta na página ilesa de qualquer desígnio imortal.

Porque morreste?

Sunday, March 1, 2020

64 - Ainda estou aqui




Queria poder dizer quem sou. Queria regressar ao conforto da minha alma, ao íntimo do meu ser. O dia já segue e eu não segui com ele. Estou suspenso neste meu limbo, hora após hora até horas já serem na verdade dias e semanas acumuladas, permanecendo subtraído de uma continuidade natural dos que seguem para aqui ou para ali atrás das coisas que na verdade poucas vezes se alcançam. É a vida a não ser vida, preso ainda ao querer viver sem saber… na verdade, cada vez menos. Atinge-me o drama que domina os meus pensamentos, empurrando-me para o abismo que lá impera. Normalmente passo os dias deitado na cama a inventar-me numa outra dimensão. O homem que fui, as recordações que fazem de mim quem sou. A querer regressar e sem poder. Por estar preso a este cansaço devastador que afoga a minha respiração, aos poucos desconjurando-me o corpo como que se quebrasse os meus ossos frágeis, arrastando-me para todo o lado atrás deste sofrimento invisível. Da cama para o sofá, do sofá para a cama, pouco mais do que isso. Todos os movimentos são um beco sem saída, assim como o são os pensamentos que fluem na direção do desatino. Quando há uma réstia de forças a emergir lá no fundo tento focar-me em algumas pequenas tarefas de casa, tornar-me um pouco mais útil, pequenos passos para obrigar a cabeça a reagir aos poucos, mas acabo por esquecer pequenas coisas banais que não seriam para esquecer, frustrando-me cada vez mais na imbecilidade da minha inoperância. Ninguém escolhe cair neste vórtice de apatia e debilidade. Cruelmente também não se escolhe quando de lá sair. É a nossa cabeça que nos terá de dizer quando esse momento chegar. Os fármacos ajudam e farão o seu trabalho mais tarde ou mais cedo. A terapia de me pôr a falar de mim e descobrir que na verdade não conhecia toda a minha debilidade ajudar-me-á a encontrar esse caminho e quem sabe tornar-me mais forte. Porque neste momento sou um caso perdido, uma avaria em reparação que aguarda apenas por uma oportunidade de se reerguer. Há pequenos refúgios. A palavra de um amigo, a segurança de quem por vezes nos parece entender sem que tenhamos de falar, o abraço de quem nos quer bem. Sou eu a debater-me e a procurar todos os motivos para não me deixar ir. Por vezes ocupo parte do meu dia a rever álbuns de fotografias. Diz-me a voz da medicina mental que é normal querer reviver a felicidade, querer resgatá-la, ir buscar as sensações passadas onde nos sentíamos confortáveis e seguros. Ou talvez seja apenas a autocomiseração de quem sente que tudo está perdido. Talvez na verdade seja tudo a mesma coisa. Acabo habitualmente por reviver o nosso passado através das imagens onde guardámos as nossas primeiras recordações, a juventude do futuro eterno estampado nos nossos rostos, os sorrisos gravados como medalhas. Aprendíamos a ser felizes. Na verdade, ao tentar aliviar a minha dor neste mecanismo de sobrevivência, acabo por descobrir uma dor maior que ainda agrava mais todo este cenário amargurado. A cada dia que passa o sentimento de já não ser o homem que amaste, que sou um estranho que não conheces, alguém que já não vale a pena salvar. Vejo-o todos os dias nos teus olhos. Perco-te logo pela manhã quando estás pronta para sair pela porta fora, totalmente envolvida pela rotina diária que não aguarda por desleixos nem preguiça. Miúdos que têm de estar na escola a tempo e horas, o emprego que te espera, as pequenas coisas que necessitamos para viver agarradas à pressa, tarefas indispensáveis para que os dias continuem com o seu rumo numa direção pré-definida, uma bomba-relógio que miraculosamente não explode porque diariamente se desativa a tempo. Uns segundos antes da porta se fechar atrás de ti, lanças-me um último olhar. A incompreensão na tua expressão quase petrificada perante esta minha suspensão de vida fere-me de morte. Os beijos dos miúdos na minha face soam-me a uma despedida final. Faltou o teu beijo. Às vezes penso que é uma repugnância pela minha condição. A minha melancolia continua a pulsar e não há forma de mudar o ritmo. Depois tudo é silêncio e o silêncio é quem mais me acusa por nele conseguir ouvir mais facilmente esta minha angústia. Bem sei que já não somos miúdos, que o amor a partir de uma determinada altura exige garantias mas esta não foi uma escolha minha. Sinto que não posso falhar e vejo-me a falhar repetidamente. Grito e choro de desespero. Sinto que está tudo perdido e não há forma de me salvar. Religiosamente deixo os gritos e as lágrimas para estes momentos de solidão para evitar perder-me ainda mais na tua perceção. Só queria rasgar a minha pele e arrancar cá de dentro esta merda incorpórea que não há forma de combater, renascer igual ao homem rapaz futuro que conheceste e pelo qual te apaixonaste perdidamente. Sentir-nos-íamos novamente seguros, sem medo de que esta vida descambe, que tudo se perca sem remédio e se alterem os nossos destinos tão bem programados. Talvez até houvesse tempo para sentirmos novamente aquela paixão febril que nos fazia delirar um pelo outro a toda a hora, nem que fosse por um breve momento entre o contínuo contacto desavindo. Não tenho força para lutar porque o peso sobre os meus ombros deixa-me inerte. Regresso à cama no quarto penumbra e de tanto chorar e desesperar acabo por adormecer esgotado sem me aperceber do tempo a fugir uma vez mais sem qualquer sinal de conforto e esperança. Acordei a meio da noite já contigo a meu lado, claramente vencida pelo cansaço de quem parece viver a vida sozinha, suportando esta ingloriosa condição que me define nos entretantos. Queria ter um resto de coragem para te acordar e pedir-te para não desistires de mim porque eu sei que ainda estou aqui. Algures.

Monday, February 17, 2020

63 - Majestade


Havia uma aura inexplicável à tua volta. Atraía-nos como a luz atrai a pequena e frágil traça, queimando-nos da mesma forma ardente ao nos aproximarmos demasiado desse teu flamante calor. Hipnotizava-nos a tua magnífica beleza delirante que iludia a nossa realidade, ficando qualquer um de nós tragicamente à mercê de cometermos o erro crasso de nos deixarmos loucamente levar pelo infinito desejo sem que daí houvesse retorno. Junto de ti formavam-se inúmeras fantasias eróticas, desejos de amor e outras frivolidades terrenas derivadas de imaginárias conquistas impossíveis, estabelecendo-se porém toda uma distância inalcançável que te separava de quem te rodeava, mesmo quando no teu cabelo amazona se prendiam respirações ou se libertavam suspiros ainda tão juvenis. Sabia ser mais um dos teus reféns deixados à solta, angustiadamente consciente de saber não haver pior prisão do que aquela que se vive sem cárcere que a defina. Mas seria porventura inevitável. Desde o primeiro olhar o sonho do teu corpo incrustado na minha violada sensualidade, desde o teu primeiro sorriso esse reflexo eterno de imitação na minha boca como pudesse haver uma correspondência imediata de metades que se completariam ali mesmo. Divago… era tudo muito mais intenso. E secreto.

Ainda hoje não consigo reviver nem reconstruir os passos que dei para chegar até ti. Amigos comuns, encontros casuais, um atrevimento fugaz de abrir a minha boca e fazer-te sorrir por uns segundos. Dos contactos breves às conversas a sós a eterna sensação de uma queda livre sem saber para onde caía. Estávamos puramente ilibados naquele ambiente estudantil universitário que compunha, entre olhares persecutórios e desejos hostis, o contexto que nos rodeava, a fórmula inequivocamente correta de viver a vida e saboreá-la nos erros cometidos; porque aqueles eram os nossos anos. Se há altura para viver a paixão é nesses anos de juventude quando não se pode negar essas vontades do corpo que se afogueiam descontroladamente até ao rubor das faces, como escarlatina demente e permanente. Descuidadamente percorri esse caminho inacessível que me aproximava cada vez mais do teu púlpito, esquecendo, a cada passo na direção da tua intimidade, como poderia depois regressar até ao ponto onde antes sabia ser eu. Talvez na verdade apenas quisesse perder-me na tua inacessibilidade e depois sobreviver. A mulher Majestade e eu o teu rei e súbdito… a tua beleza arrebatadora, o corpo perfeito, a sedução em cada movimento, era tudo na verdade demasiado perfeito. Toda essa tua violência sedutora aproximou-nos ao ponto de ser impossível resistir. Como poderia eu resistir?

Esta manhã, tantos anos depois, uma música trouxe-te de volta, a mesma música que dançámos sozinhos numa noite de apelos da alma e agravos do coração, meus e teus… cantávamos palavras escondidas atrás do momento que passava lento ao som da balada ferida. Na minha memória o mesmo perfume gravado como uma sombra do mesmo tom da tua pele morena, a mesma sensação de assombro a regressar perante a tua presença voluta nos meus braços. Oiço a música devagar, os meus olhos fixos na enseada calma à minha frente, a deixar a vida vir atrás de mim para recordar o naufrágio desse meu passado na língua do refrão, como sabedoria circunstancial:

Oh you were majesty
Your robes were heavy
And your longing was a cutting from bone

Minha Majestade… vivi momentaneamente sob o teu desígnio, sob a tua alçada e completo controlo. Nada poderia afastar-me de ti. Nunca teria caído aos teus pés sem que da tua boca saísse o meu nome invocando esse desejo. Nunca poderia ter-me libertado e sobreviver se desse desejo tivesse nascido um amor. Escravo para sempre seria o meu fado. De um homem perdido a fugitivo seria esse, para sempre, o som do meu clamor.  

Oh you were majesty
Your ropes were heavy
And your cheeks were very red
Oh you were majesty
And it's like I said
That spirit, is now dead


                                            Depois de Majesty dos Madrugada 

Tuesday, February 4, 2020

62 - Súplica final


Sentes o rubor do meu beijo.
Não sabes quem beijas.
Chamas por mim, pelo meu nome,
essa viscosidade doce e arrastada,
que só saboreio nos teus lábios.

A voz estranha que não reconheces,
deixa-te surpreendida.
Sem nexo, pedes-me que te abrace
com força, para que te esmague.

Não morreria por ti.
E tu sabes.
Choras. Ninguém chora como tu.
Só eu sorrio como tu choras.

Deitas-te sobre mim e sou um fraco pulsar regular.
Fala-te o coração que parou há pouco,
por querer, por descuido, por não saber bater.
Mas ainda assim, respiras para dentro de mim
asfixiada, ainda assim, és tu. Sempre tu.

Já não há sonhos.
Tu finalmente descobres.
E deixas de condenar e castigar,
quem já não sonha.

Olhas-me uma última vez.
O meu rosto decorado, desvanecendo-se.
Ainda há pouco estava aqui,
agora… já não sabes nada de mim.