É um encontro de
família. Sorrisos fáceis e abraços fraternais, faces que se reconhecem nos
jeitos iguais, anos de histórias acumuladas a chegarem por detrás de cada um e
que passam a estar ali refletidos nos risos das crianças a galoparem pelas
paredes, como se galopassem pela nossa vida à procura de mais uma brincadeira
inocente para recordarmos e reviver. Reencontros de passados que se unem nos
instantes em que bocas se abrem para aconchegar o nome de alguém que faltava e
que chega, para trazê-lo até mais perto de uma glória que de tão insignificante
acaba por ser no fim a única que verdadeiramente importa, íntima e profunda na
emoção de cada um de nós. Sentem-se os abraços como palavras de compreensão, as
perguntas sobre o estado da vida de cada um como resgastes sem retorno do
sofrimento individual, formam-se novamente e sem esforço os elos de segredos
guardados no sangue que partilhamos. Somos cinco irmãos, quatro rapazes e uma
rapariga que não sabe o que fazer de nós, mas que sem nós acredito que pouco
sorri. Há vidas onde a juventude se planta mais fundo e de onde não parece conseguir
nunca mais florir. Talvez seja por ser a mais velha de todos e ter sido uma
saga contínua ver crescer quatro pelintras desajeitados na alma e complexos no
coração como um botão de ligar e desligar. Estão todos casados à exceção de
mim. Os respetivos cônjuges e ninhadas estão aqui também sem perceberem como se
perdem à nossa procura quando nos juntamos todos e entramos num jogo de
segundas personalidades e frases misteriosas que eles não sabem como descodificar.
Fazemos esta reunião aqui nesta casa de família uma vez por mês, quase sempre resguardados
na sala ampla e no calor que emana da sua lareira generosa nos meses mais frios
ou abrigados pelo alpendre amplo da entrada nos meses mais quentes… nessa época
do ano, como hoje, quase sempre nos perdemos distraídos a observar a criançada a
correr pelo quintal a imitarem-nos anos atrás, e, deixamo-nos ficar sentados em
qualquer lado com uma bebida fresca a acompanhar, enquanto nos vai embalando o
silêncio desta zona rural, compassado pelo canto das cigarras à desgarrada e pontuado
pelo crepitar do calor a sobressair da pele das árvores que nos rodeiam como
uma guarda pretoriana. Hoje não é exceção. O almoço correu lindamente, são
horas que passam depressa a falarmos da vida, dos problemas que parecem
subitamente menores, das mínimas trivialidades, a rirmos com todos os
disparates que saem da boca à mesma velocidade que entram os vinhos ou as
cervejas, um ritual para sentirmos que há sempre alguém a quem regressar, como
cada um de nós fosse um refúgio que está ali para sempre fortificado. Ainda
mais agora que os nossos pais já se foram deste mundo e não nos podem senão comtemplar
de um outro lugar que inocentemente esperamos que exista. Morreram-nos demasiado cedo, e nós,
consciencializados nessa crença de que nos seguem ao longe os passos, acreditamos
que esta união entre toda a sua sucessão contribui para não os desiludir. Pelo
menos a mim renova-me a fé… Levanto-me para ir
à casa de banho. No fundo do corredor desta típica casa rústica há um espelho
comprido, de corpo inteiro, esguio e traiçoeiro no seu reflexo quase hipnótico no
seu apelo enevoado. A minha mãe guardou para sempre este espelho sem qualquer
razão. Primeiro na nossa casa principal onde crescemos e depois aqui, quando
finalmente deixou de se enquadrar na evolução da decoração moderna e impessoal
dos tempos. Está velho, a sua superfície refletora já bastante oxidada em todo
o seu perímetro elíptico e a evoluir lentamente para o resto da área como uma pequena
praga; o seu corpo em madeira escurecida muito trabalhada que o ampara e define,
tão cruelmente deprimente como alguém outrora belo que não soube envelhecer. Fiquei
parado suspenso na minha própria imagem refletida e uma estranha sensação de
não saber para onde ir invadiu-me de imediato. Estarmos sozinhos tem muitas
vezes destas coisas. Facilmente somos confrontados por nós próprios e sentimo-nos
ainda mais sós. Sinto uma mão sobre um dos meus ombros. A minha irmã que meu
deu tanto ao longo da vida, estende-me novamente o braço para me resgatar desta
súbita melancolia. Lê a minha expressão no espelho e abraça-me o peito com
força, encostando a sua cabeça nas minhas costas, quem sabe para ouvir o meu
batimento cardíaco e adivinhar as emoções que por ali andam. Vira-se então para
mim e numa pergunta de tão honesta como cruel, arranca finalmente da minha
língua o teu nome. Digo que não quero falar em ti, que há em ti um passado que
já não posso nem ouso ressuscitar. Invade-lhe nos seus olhos uma expressão de
derrota. Certamente sente que era em ti que residia a única esperança de não
continuar a isolar-me, adiando constantemente o meu futuro nesta solidão que a
minha querida irmã não quer para mim. Há neste silêncio depois da sua pergunta
âncora e na minha resposta náufraga algo que diz tudo. Aconchega-me a face. Na sua
mão reside o carinho de uma continuidade na esperança quase infinita ou apenas o
gesto de quem sabe que vou sofrer ainda mais e já vai antecipando o reconforto,
não consigo na verdade distinguir. Pede-me para te ligar, diz-me que ainda há
tempo para beber um café, que tudo se resolve. O perdão está ali à minha
espera, no amor que o define, que não guarda rancor. É a experiência de quem já
sofreu por amor e sobreviveu para contar. Poderia ter respondido que já
passaram tantos anos, que há muito tempo que não sei nada de ti. Que lamento
que as coisas tenham acabado tão mal, como na verdade acabam sempre quando a
intensidade do amor se desequilibra violentamente para um dos lados. Que no meu
afastamento havia apenas a intenção de salvar-te, salvar-te de mim, da pessoa
indigna que se apoderara da minha inconsciência juvenil de então. Que me
afastei porque não suportei a dor de te magoar como se não houvesse já nada dentro
de mim que valesse a pena partilhar e de não ter a coragem de a partir desse
momento de redenção embarcar numa aventura de reconquistar-te todos os dias. Mas
não digo nada disto e acabo apenas por resmungar entre dentes que não vale a
pena. Que tu já deves ter alguém e que não posso voltar a entrar na tua vida como
se não fosse nada. A minha pele retesou-se instantaneamente como se toda a minha
face fosse feita de couro ressequido, sinal claro de que o gosto destas
palavras está a escorrer-me lentamente pela garganta como um veneno azedo intragável.
A minha irmã observa-me por alguns segundos intermináveis para por fim dizer-me
apenas que há em mim um lugar obscuro que tenho de abandonar para poder voltar
a viver. Olho para os seus pequenos olhos azuis pérola e por momentos acredito
que é ela a minha alma gémea, como se eu fosse um corpo transparente do qual ela
sabe e conhece tudo sem a necessidade de remexer ou perguntar. Depois, sem mais
palavras e como antigamente, a minha irmã entra na casa de banho roubando-me a
vez. Sempre houve nestes pequenos cómicos episódios o equilíbrio certo para os
dramas que nos pontuaram a vida. A forma certa de sobreviver… Sorrio
ligeiramente ao ver a porta fechar-se. Volto a olhar para o reflexo do espelho.
Depois de tantos anos o que poderia dizer a mim mesmo? Que quis esquecer-te.
Que quis acreditar que poderia dominar todos os meus sentimentos mas que sei
agora ser prisioneiro da minha própria armadilha, traído pelo amor renegado que
julgava poder desmontar como se fosse uma máquina com um manual de instruções a
acompanhar. Que pensei que o tempo curaria tudo e avançaríamos ambos em frente.
Imagino-te a olhar para um espelho também a pensar em mim. É uma prepotência
que não me abandonará nunca… querer prender-te a mim para sempre como se
tivesse sido a melhor coisa do mundo. Certamente por estes dias tu caminhas livre.
Livre de reflexos,.. e ainda que o amor te iluda não voltarás a cair porque a linha
do tempo que na verdade não cura tudo já terá sido desdobrada por ti vezes
demais, ao ponto de conseguires camuflar na perfeição toda a dor a partir dessa perceção fraturada que temos de nós. Antes de sair dali à pressa queria muito
ter partido aquele espelho, mas não tive coragem. As imagens reais são por
vezes um horror interminável.
Saturday, August 1, 2020
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