Saturday, August 1, 2020

68 - Espelho Partido



É um encontro de família. Sorrisos fáceis e abraços fraternais, faces que se reconhecem nos jeitos iguais, anos de histórias acumuladas a chegarem por detrás de cada um e que passam a estar ali refletidos nos risos das crianças a galoparem pelas paredes, como se galopassem pela nossa vida à procura de mais uma brincadeira inocente para recordarmos e reviver. Reencontros de passados que se unem nos instantes em que bocas se abrem para aconchegar o nome de alguém que faltava e que chega, para trazê-lo até mais perto de uma glória que de tão insignificante acaba por ser no fim a única que verdadeiramente importa, íntima e profunda na emoção de cada um de nós. Sentem-se os abraços como palavras de compreensão, as perguntas sobre o estado da vida de cada um como resgastes sem retorno do sofrimento individual, formam-se novamente e sem esforço os elos de segredos guardados no sangue que partilhamos. Somos cinco irmãos, quatro rapazes e uma rapariga que não sabe o que fazer de nós, mas que sem nós acredito que pouco sorri. Há vidas onde a juventude se planta mais fundo e de onde não parece conseguir nunca mais florir. Talvez seja por ser a mais velha de todos e ter sido uma saga contínua ver crescer quatro pelintras desajeitados na alma e complexos no coração como um botão de ligar e desligar. Estão todos casados à exceção de mim. Os respetivos cônjuges e ninhadas estão aqui também sem perceberem como se perdem à nossa procura quando nos juntamos todos e entramos num jogo de segundas personalidades e frases misteriosas que eles não sabem como descodificar. Fazemos esta reunião aqui nesta casa de família uma vez por mês, quase sempre resguardados na sala ampla e no calor que emana da sua lareira generosa nos meses mais frios ou abrigados pelo alpendre amplo da entrada nos meses mais quentes… nessa época do ano, como hoje, quase sempre nos perdemos distraídos a observar a criançada a correr pelo quintal a imitarem-nos anos atrás, e, deixamo-nos ficar sentados em qualquer lado com uma bebida fresca a acompanhar, enquanto nos vai embalando o silêncio desta zona rural, compassado pelo canto das cigarras à desgarrada e pontuado pelo crepitar do calor a sobressair da pele das árvores que nos rodeiam como uma guarda pretoriana. Hoje não é exceção. O almoço correu lindamente, são horas que passam depressa a falarmos da vida, dos problemas que parecem subitamente menores, das mínimas trivialidades, a rirmos com todos os disparates que saem da boca à mesma velocidade que entram os vinhos ou as cervejas, um ritual para sentirmos que há sempre alguém a quem regressar, como cada um de nós fosse um refúgio que está ali para sempre fortificado. Ainda mais agora que os nossos pais já se foram deste mundo e não nos podem senão comtemplar de um outro lugar que inocentemente esperamos que exista. Morreram-nos demasiado cedo, e nós, consciencializados nessa crença de que nos seguem ao longe os passos, acreditamos que esta união entre toda a sua sucessão contribui para não os desiludir. Pelo menos a mim renova-me a fé… Levanto-me para ir à casa de banho. No fundo do corredor desta típica casa rústica há um espelho comprido, de corpo inteiro, esguio e traiçoeiro no seu reflexo quase hipnótico no seu apelo enevoado. A minha mãe guardou para sempre este espelho sem qualquer razão. Primeiro na nossa casa principal onde crescemos e depois aqui, quando finalmente deixou de se enquadrar na evolução da decoração moderna e impessoal dos tempos. Está velho, a sua superfície refletora já bastante oxidada em todo o seu perímetro elíptico e a evoluir lentamente para o resto da área como uma pequena praga; o seu corpo em madeira escurecida muito trabalhada que o ampara e define, tão cruelmente deprimente como alguém outrora belo que não soube envelhecer. Fiquei parado suspenso na minha própria imagem refletida e uma estranha sensação de não saber para onde ir invadiu-me de imediato. Estarmos sozinhos tem muitas vezes destas coisas. Facilmente somos confrontados por nós próprios e sentimo-nos ainda mais sós. Sinto uma mão sobre um dos meus ombros. A minha irmã que meu deu tanto ao longo da vida, estende-me novamente o braço para me resgatar desta súbita melancolia. Lê a minha expressão no espelho e abraça-me o peito com força, encostando a sua cabeça nas minhas costas, quem sabe para ouvir o meu batimento cardíaco e adivinhar as emoções que por ali andam. Vira-se então para mim e numa pergunta de tão honesta como cruel, arranca finalmente da minha língua o teu nome. Digo que não quero falar em ti, que há em ti um passado que já não posso nem ouso ressuscitar. Invade-lhe nos seus olhos uma expressão de derrota. Certamente sente que era em ti que residia a única esperança de não continuar a isolar-me, adiando constantemente o meu futuro nesta solidão que a minha querida irmã não quer para mim. Há neste silêncio depois da sua pergunta âncora e na minha resposta náufraga algo que diz tudo. Aconchega-me a face. Na sua mão reside o carinho de uma continuidade na esperança quase infinita ou apenas o gesto de quem sabe que vou sofrer ainda mais e já vai antecipando o reconforto, não consigo na verdade distinguir. Pede-me para te ligar, diz-me que ainda há tempo para beber um café, que tudo se resolve. O perdão está ali à minha espera, no amor que o define, que não guarda rancor. É a experiência de quem já sofreu por amor e sobreviveu para contar. Poderia ter respondido que já passaram tantos anos, que há muito tempo que não sei nada de ti. Que lamento que as coisas tenham acabado tão mal, como na verdade acabam sempre quando a intensidade do amor se desequilibra violentamente para um dos lados. Que no meu afastamento havia apenas a intenção de salvar-te, salvar-te de mim, da pessoa indigna que se apoderara da minha inconsciência juvenil de então. Que me afastei porque não suportei a dor de te magoar como se não houvesse já nada dentro de mim que valesse a pena partilhar e de não ter a coragem de a partir desse momento de redenção embarcar numa aventura de reconquistar-te todos os dias. Mas não digo nada disto e acabo apenas por resmungar entre dentes que não vale a pena. Que tu já deves ter alguém e que não posso voltar a entrar na tua vida como se não fosse nada. A minha pele retesou-se instantaneamente como se toda a minha face fosse feita de couro ressequido, sinal claro de que o gosto destas palavras está a escorrer-me lentamente pela garganta como um veneno azedo intragável. A minha irmã observa-me por alguns segundos intermináveis para por fim dizer-me apenas que há em mim um lugar obscuro que tenho de abandonar para poder voltar a viver. Olho para os seus pequenos olhos azuis pérola e por momentos acredito que é ela a minha alma gémea, como se eu fosse um corpo transparente do qual ela sabe e conhece tudo sem a necessidade de remexer ou perguntar. Depois, sem mais palavras e como antigamente, a minha irmã entra na casa de banho roubando-me a vez. Sempre houve nestes pequenos cómicos episódios o equilíbrio certo para os dramas que nos pontuaram a vida. A forma certa de sobreviver… Sorrio ligeiramente ao ver a porta fechar-se. Volto a olhar para o reflexo do espelho. Depois de tantos anos o que poderia dizer a mim mesmo? Que quis esquecer-te. Que quis acreditar que poderia dominar todos os meus sentimentos mas que sei agora ser prisioneiro da minha própria armadilha, traído pelo amor renegado que julgava poder desmontar como se fosse uma máquina com um manual de instruções a acompanhar. Que pensei que o tempo curaria tudo e avançaríamos ambos em frente. Imagino-te a olhar para um espelho também a pensar em mim. É uma prepotência que não me abandonará nunca… querer prender-te a mim para sempre como se tivesse sido a melhor coisa do mundo. Certamente por estes dias tu caminhas livre. Livre de reflexos,.. e ainda que o amor te iluda não voltarás a cair porque a linha do tempo que na verdade não cura tudo já terá sido desdobrada por ti vezes demais, ao ponto de conseguires camuflar na perfeição toda a dor a partir dessa perceção fraturada que temos de nós. Antes de sair dali à pressa queria muito ter partido aquele espelho, mas não tive coragem. As imagens reais são por vezes um horror interminável.  

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