Sunday, August 23, 2020

69 - Margaridas

 

Ao atravessar a linha perfeitamente demarcada no chão, o pesado portão bate com estrondo atrás de mim. O seu som metálico estridente é um grito combinado de violência, raiva e desespero. Anuncia-me sem remorso a este mundo de paredes abismo onde acabo de entrar. Este é um novo mundo, com novas regras, alterado para se estar permanentemente ausente do que vai acontecendo lá fora, transformando-se paulatinamente essa ausência na condenação eterna de nunca mais se saber ser gente. “Apenas visitantes” é o que está escrito no chão, mesmo à beira dos meus pés. Deixo-me ficar nas letras de cor amarelo magoado a murmurar do cinzento de um chão intensamente cicatrizado enquanto o guarda de serviço vai remexendo nas coisas que trouxe, deixando de lado sem remorso alguns dos artigos que não são permitidos ultrapassar este ponto intermédio de investigação. Preencho de seguida um formulário para registar o que ficou para trás e assim recuperar a mercadoria proibida quando sair. Todas as ações dentro de uma prisão se assemelham a um crime desde o instante em que se entra até ao momento em que se sai. Seja quem for. Todos somos, de alguma forma, aparentemente culpados por estar aqui neste preciso momento. Atravesso uma porta com uma pequena escotilha, onde do lado de lá, um outro guarda ia observando toda a minúcia da revista até receber a indicação para me deixar passar. Novamente uma porta metálica que se fecha atrás de mim, para me deixar cada vez mais ausente neste plano de isolamento. Por mais vezes que atravesse o corredor que me guia até á sala de visitas, nunca deixarei de sentir como se de um caminho para a condenação se tratasse. Apesar de serem escassos os metros a percorrer, o caminho parece perdurar no infinito. Levo comigo um amor suspenso, neste tempo suspenso de vidas suspensas. Nada se move a partir daqui. E o tempo esquece-se de tudo. Olho para dentro da sala e vejo-te sentada à beira de uma das mesas mais afastada da porta de entrada dos visitantes. Na sala ampla e quadrangular há várias mesas circulares onde se podem reunir cerca de cinco a seis pessoas. Há famílias inteiras a conversar baixinho entre si como se cada segundo dessas conversas fosse um segredo bem guardado que ninguém pode saber. Segredos são das poucas coisas que se podem guardar aqui. Alguns miúdos pequenos brincam à margem dessas conversas, distraídos com os brinquedos que trouxeram e é um tormento sentir que não enquadram ali ao vê-los abstraídos de tudo, como seres abandonados numa dimensão autista. A luz entra pelas janelas retangulares equidistantes entre si e instaladas em três das quatro paredes da sala, gradeando o sol, o céu, as nuvens e os sonhos. A sensação claustrofóbica destes gradeamentos rigorosos servirem na verdade para aprisionar o mundo lá fora, como se fosse ele próprio uma transgressão é terrivelmente opressor. Estou parado à porta da entrada da sala das visitas há já algum tempo a olhar para ti, sentada sozinha na mesa onde te descobri. Uma das guardas prisionais que se encontra na sala a inspecionar o espaço olha para mim como guardasse um óbvio delito oculto. Lanço-lhe um aceno ligeiro com a cabeça e avanço imediatamente na tua direção. Todas as ações, todos os movimentos dentro de uma prisão se assemelham a um crime… sente-se na pele, desde o primeiro instante. Percebo agora que nem te terias apercebido ainda da minha presença na sala pois ao chegar junto de ti percebo que surpreendo o teu pensamento absorto. Há na tua boca um sorriso que se esforça por falar sem sucesso, no teu olhar uma expressão que grita horrivelmente por salvação, nas tuas mãos entrelaçadas sobre a mesa uma oração de preces desmerecidas. Beijo-te na face e sento-me a teu lado. Mostro-te as coisas que te trouxe. Dois livros que inspecionaste vagamente sem grande interesse, os dois cadernos que me pediste na visita anterior, revistas várias que recusas de imediato e três pacotes de bolachas diversas que pousas sobre as pernas. Um pequeno tesouro aqui. Deixas a restante mercadoria sobre a mesa onde também se destaca um pequeno vaso de flores como novo artigo de decoração. Reparo agora que há um vaso semelhante em cada uma das mesas, algo que na verdade não havia da última vez em que estive aqui. Acaricias entre os dedos as pétalas de uma margarida desfalecida, entre tantas outras a desfalecer lentamente para uma morte confirmada. Pergunto-me quem acaricia quem. Aos poucos tentamos falar, mas há um enorme silêncio para vencer de cada vez que venho aqui. A sua profundidade tem aumentado a cada encontro e sinto cada vez mais dificuldade em mergulhar para te resgatar. Estás aqui há cerca de dois anos e é tudo o que se pode explicar por agora e que na verdade valha a pena dizer sobre o teu presídio. Nos nossos diálogos, cada vez mais constantemente, entre frases desconexas e soltas de qualquer propósito lógico, dizes-me que o teu mundo morreu e que o meu não avança. Ao ouvir-te sei que esperas pelo meu irremediável abandono, pelo meu avançar lógico na direção da preservação da minha vida, pela fuga a uma contínua prisão que és tu. A cada palavra tua a autorização que me iliba e me salva. Seguro as tuas mãos frias por um momento para te acalmar mas há em ti um nervo atroz no toque, uma ausência de sensibilidade na expressão do contacto. Ficamos em silêncio, um silêncio de prenúncios. Do nada e sem qualquer palavra levantas-te e levas-me atrás pela mão até ao outro extremo da sala onde pedes à supervisora para usarmos uma das salas da intimidade. A autorização é-nos concedida entre alguns comentários daninhos e risinhos a transbordar humilhação. Neste lugar não há nada que se possa guardar, muito menos a intimidade. Pedes a uma das guardas para guardar o que te trouxe, exceto as revistas que servem de moeda de troca. Entramos num pequeno quarto onde apenas existe uma cama de solteiro em ferro e vestida com lençóis brancos, uma mesa, uma cadeira, um pacote de guardanapos, um pequeno balde do lixo a um canto e mais nada. Já aqui estivemos antes, agora cada vez menos, muito menos. Na verdade não quero estar aqui, quero apenas romper estas paredes e fugir daqui, levar-te comigo, esquecer tudo isto. Apetece-me destruir isto tudo. Sentas-te na cama e eu sento-me a teu lado hesitante e nervoso, tento abraçar-te mas recusas, cobres a face com as mãos e pedes-me novamente para não voltar mais. Na minha cabeça recuso tal possibilidade. Viro-te para mim e ficamos face com face, olhos nos olhos, durante largos segundos, talvez minutos. As tuas mãos descobrem-me. Abres-me a camisa, botão a botão, sem nunca nos perdermos de vista. Esta não é a realidade que está latente neste ar, nesta depressão. Seguro as tuas mãos e paro a tua intenção de fugires de mim no teu corpo. Há em ti uma expressão a desmoronar-se. Finalmente cedes e a tua cabeça desmaia no meu peito para chorares compulsivamente. Isto sou eu a salvar-te. Finalmente consigo abraçar-te sem qualquer resistência da tua parte e ficamos assim até sermos obrigados a sair dali. Sempre fomos só nós. Seremos sempre nós. Sei que também estou preso aqui, ao teu lado, lá fora, em qualquer lugar, por não saber para onde ir a partir do momento em que saio daqui, por não poder deixar-te para trás nem levar-te comigo. Tudo passou a ser uma prisão, todos os momentos que não posso partilhar, toda a ausência que não podemos colmatar, a vida que passámos a ignorar. Ao voltarmos para a nossa mesa não ouvimos qualquer comentário por parte das guardas prisionais. Talvez te tenham ouvido chorar. Se há algo que é compreendido neste lugar são as lágrimas dos outros. Temos tempo apenas para podermos trocar algumas palavras de despedida nas quais não consigo dimensionar a dor de ter de partir agora, de não poder ouvir a tua voz quando quiser, tocar-te para sentir-me renascer, deitar-me junto de ti para te sentir adormecer ao meu lado. Entre nós apenas este vaso das margaridas a desfalecer. Ninguém se atreve a despi-las.

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