Confronto o espelho
alto e esguio do quarto em absoluto silêncio. Entre mim e o meu reflexo nada
existe. Apenas este sentimento de que o tempo parou para mim sem eu saber. Ao
olhar-me assim a esta pequena distância, olhos nos olhos, tenho a sensação de em
qualquer momento poder dar um passo em frente e entrar neste ilimitado mundo reflectido,
fundir-me na minha própria imagem e desaparecer. Chega-me uma nostalgia cruel de
antigas perseguições ao meu próprio reflexo numa qualquer superfície cristal, uma
antiga ansiedade familiar de ouvir a resposta óbvia à pergunta secreta sobre a identidade
da mulher mais bela do mundo, sem que fosse pronunciada qualquer palavra mágica
do lado de lá. Bastava-me acreditar e receber os sorrisos que eram retribuídos
ao meu olhar lânguido e provocador da minha jovial vaidade tímida e inocente.
Custa-me recordar que, como qualquer mulher, também um dia fui uma princesa. Atiro
o casaco para cima da cama fechada, desse mundo plano e cada vez mais desértico
onde já nenhum de nós dois dorme sem ansiar por acordar e procurar. Desfaço o
nó fácil do lenço seda na minha cabeça, retirando-o suavemente, deixando-o deslizar
pela minha pele lisa. Seguro-o brevemente nas minhas mãos, enquanto me observo,
até o deixar cair à sua sorte no chão. Como pude chegar a isto? Levo as mãos ao
rosto, escondendo-o lá dentro, como me pudesse esconder do tempo, do destino,
de tudo. É inútil...
Desabotoo os pequenos
botões na lateral da minha cintura e deixo cair a saia cilíndrica e
inexpressiva de cor azul enegrecido, como um pequeno sino que se desfaz no chão.
Elevo a minha camisola bandeira vento pelos meus braços em auxílio e que
disfarça a irregularidade das minhas formas, atirando-a para o lado num misto
de raiva e vontade de libertação. Como um último folego antes da total
rendição. De lá, do meu reflexo à medida que as roupas vão revelando o meu
corpo nu, parece-me saltar um pedido de ajuda da minha boca gémea, da minha
face irmã uma expressão a gritar-me para parar e não continuar com este pequeno
ritual. As roupas vão morrendo sozinhas no chão e do seu silêncio mortal nada
me comove na minha imagem. Tenho a sensação de ir desaparecendo à medida que a
ausência das vestes me vai deixando cada vez mais despida. Escondida por detrás
de várias peças de roupa ainda tinha a noção de ser uma pessoa. Olhando para mim
agora, totalmente desmascarada não tenho a certeza de nada. A única vontade que
permanece resistente em mim é a de ser invisível. Depois de não haver mais nada
que cubra um centímetro da minha pele, pendo os meus braços âncora e deixo-me
ficar nesta confrontação. Tento perceber a dimensão dos danos, a transformação
definitiva, a forma como me afectará esta imagem enquanto olho para esta
fotografia real de algo que se parece comigo. Talvez algo de mim ainda esteja
por aqui, mas olhando-me assim não me encontro. Sinto-me um produto inacabado,
um projecto de algo que definitivamente correu muito mal. E estas cicatrizes
onde outrora sobressaíam os meus dois peitos, sinto-as como duas feridas
abertas que continuamente me infligem uma dor incompreensível, apesar de completamente
fechadas, aparentemente saradas, cosidas ponto por ponto como nas peças de
roupa que se rasgam e se tentam em vão reparar sem deixar um único vestígio.
Dois riscos direitos que saem do meu dorso em direcção ao centro do meu peito.
Dois riscos clínicos e implacáveis como aqueles que se fazem por cima de um
erro das provas de escola. Não há sentimentos nesta imagem. Apenas desolação.
Uma contínua e interrupta desolação. Sinto a porta do quarto entreabrir-se. És
tu quem surges, devagar, como tivesses medo do que irias encontrar aqui neste
quarto onde já não existimos. Atrás da minha imagem reflectida no espelho apareces
tu. Mais pequeno, como o brinquedo de uma criança que se pode levar sem esforço.
De lá do meu reflexo poderia pegar-te com as mãos e carregar-te para todo o
lado. Como antes virias sem esforço nas minhas mãos e eu nas tuas. A brincar um
com o outro, debaixo do sol, lá em cima nas nuvens, pelo mar fora. A tua
expressão enquanto me observas é desoladora. Tão desoladora como o sentimento
que me invade. Olhamo-nos pelos reflexos, como nos temos olhado nestas semanas desde
que regressei do hospital sem ser eu, aparentemente. Todos os olhares
escondidos em ângulos mortos, as frases entre nós soltando-se na direcção dos
objectos, da televisão, fazendo eternamente ricochete nas paredes, indigeridas sobre
a mesa, isoladas. Como nos pudéssemos ferir em qualquer momento com as palavras
erradas. Neste momento todas as palavras, todas as expressões e consolações estão
eternamente erradas... Tudo está errado numa vida que se perde e já não se
encontra. Não consegues permanecer intacto e perante a desolação do momento pendes
a cabeça na direcção do chão, numa falsa homenagem, numa impertérrita cobardia,
envolvido num suspiro de agonia. Estarei já morta para me procurares junto aos
teus pés? Perante o teu isolamento cubro o meu tronco com os meus braços, uma
armadura de pele, carne e ossos enfraquecidos que nada protegem, apenas me
fragilizam mais. Digo o teu nome baixinho, com medo de te afugentar de vez, com
medo de morrer amedrontada se virares as tuas costas agora e me deixares
sozinha. Talvez para ti, ouvires o teu nome na minha boca seja o prenúncio de
uma assombração e por isso já não me desejes aqui. Permanecemos imóveis. E eu
peço-te secretamente para que me carregues para sempre no teu ombro como se
fosse uma rainha. A beleza num altar. Uma última vez.
