Thursday, May 21, 2015

33 - Poesia

Sobre rosas morrem todas as poesias,
Tantas as razões inexplicáveis dos amores inconsoláveis,
Como os inundasse um secreto fogo
de tanto arrojo, gritos de novas melodias.

Sobre o mar deitam-se todos os poetas,
De fatos escuros, rodeados de pequenos muros,
Como se imaginar fosse percorrer descalço
sem qualquer percalço, todas as sagas incompletas.

Sobre as páginas esquecem-se todas as palavras,
Tantas as consoantes atrasadas de vogais mal castigadas,
Como se viver fosse fechar todos os sentidos
a todos os segredos redigidos, na procura de novas asas.

Sunday, May 10, 2015

32 - Cicatrizes Beijadas

Confronto o espelho alto e esguio do quarto em absoluto silêncio. Entre mim e o meu reflexo nada existe. Apenas este sentimento de que o tempo parou para mim sem eu saber. Ao olhar-me assim a esta pequena distância, olhos nos olhos, tenho a sensação de em qualquer momento poder dar um passo em frente e entrar neste ilimitado mundo reflectido, fundir-me na minha própria imagem e desaparecer. Chega-me uma nostalgia cruel de antigas perseguições ao meu próprio reflexo numa qualquer superfície cristal, uma antiga ansiedade familiar de ouvir a resposta óbvia à pergunta secreta sobre a identidade da mulher mais bela do mundo, sem que fosse pronunciada qualquer palavra mágica do lado de lá. Bastava-me acreditar e receber os sorrisos que eram retribuídos ao meu olhar lânguido e provocador da minha jovial vaidade tímida e inocente. Custa-me recordar que, como qualquer mulher, também um dia fui uma princesa. Atiro o casaco para cima da cama fechada, desse mundo plano e cada vez mais desértico onde já nenhum de nós dois dorme sem ansiar por acordar e procurar. Desfaço o nó fácil do lenço seda na minha cabeça, retirando-o suavemente, deixando-o deslizar pela minha pele lisa. Seguro-o brevemente nas minhas mãos, enquanto me observo, até o deixar cair à sua sorte no chão. Como pude chegar a isto? Levo as mãos ao rosto, escondendo-o lá dentro, como me pudesse esconder do tempo, do destino, de tudo. É inútil...  
Desabotoo os pequenos botões na lateral da minha cintura e deixo cair a saia cilíndrica e inexpressiva de cor azul enegrecido, como um pequeno sino que se desfaz no chão. Elevo a minha camisola bandeira vento pelos meus braços em auxílio e que disfarça a irregularidade das minhas formas, atirando-a para o lado num misto de raiva e vontade de libertação. Como um último folego antes da total rendição. De lá, do meu reflexo à medida que as roupas vão revelando o meu corpo nu, parece-me saltar um pedido de ajuda da minha boca gémea, da minha face irmã uma expressão a gritar-me para parar e não continuar com este pequeno ritual. As roupas vão morrendo sozinhas no chão e do seu silêncio mortal nada me comove na minha imagem. Tenho a sensação de ir desaparecendo à medida que a ausência das vestes me vai deixando cada vez mais despida. Escondida por detrás de várias peças de roupa ainda tinha a noção de ser uma pessoa. Olhando para mim agora, totalmente desmascarada não tenho a certeza de nada. A única vontade que permanece resistente em mim é a de ser invisível. Depois de não haver mais nada que cubra um centímetro da minha pele, pendo os meus braços âncora e deixo-me ficar nesta confrontação. Tento perceber a dimensão dos danos, a transformação definitiva, a forma como me afectará esta imagem enquanto olho para esta fotografia real de algo que se parece comigo. Talvez algo de mim ainda esteja por aqui, mas olhando-me assim não me encontro. Sinto-me um produto inacabado, um projecto de algo que definitivamente correu muito mal. E estas cicatrizes onde outrora sobressaíam os meus dois peitos, sinto-as como duas feridas abertas que continuamente me infligem uma dor incompreensível, apesar de completamente fechadas, aparentemente saradas, cosidas ponto por ponto como nas peças de roupa que se rasgam e se tentam em vão reparar sem deixar um único vestígio. Dois riscos direitos que saem do meu dorso em direcção ao centro do meu peito. Dois riscos clínicos e implacáveis como aqueles que se fazem por cima de um erro das provas de escola. Não há sentimentos nesta imagem. Apenas desolação. Uma contínua e interrupta desolação. Sinto a porta do quarto entreabrir-se. És tu quem surges, devagar, como tivesses medo do que irias encontrar aqui neste quarto onde já não existimos. Atrás da minha imagem reflectida no espelho apareces tu. Mais pequeno, como o brinquedo de uma criança que se pode levar sem esforço. De lá do meu reflexo poderia pegar-te com as mãos e carregar-te para todo o lado. Como antes virias sem esforço nas minhas mãos e eu nas tuas. A brincar um com o outro, debaixo do sol, lá em cima nas nuvens, pelo mar fora. A tua expressão enquanto me observas é desoladora. Tão desoladora como o sentimento que me invade. Olhamo-nos pelos reflexos, como nos temos olhado nestas semanas desde que regressei do hospital sem ser eu, aparentemente. Todos os olhares escondidos em ângulos mortos, as frases entre nós soltando-se na direcção dos objectos, da televisão, fazendo eternamente ricochete nas paredes, indigeridas sobre a mesa, isoladas. Como nos pudéssemos ferir em qualquer momento com as palavras erradas. Neste momento todas as palavras, todas as expressões e consolações estão eternamente erradas... Tudo está errado numa vida que se perde e já não se encontra. Não consegues permanecer intacto e perante a desolação do momento pendes a cabeça na direcção do chão, numa falsa homenagem, numa impertérrita cobardia, envolvido num suspiro de agonia. Estarei já morta para me procurares junto aos teus pés? Perante o teu isolamento cubro o meu tronco com os meus braços, uma armadura de pele, carne e ossos enfraquecidos que nada protegem, apenas me fragilizam mais. Digo o teu nome baixinho, com medo de te afugentar de vez, com medo de morrer amedrontada se virares as tuas costas agora e me deixares sozinha. Talvez para ti, ouvires o teu nome na minha boca seja o prenúncio de uma assombração e por isso já não me desejes aqui. Permanecemos imóveis. E eu peço-te secretamente para que me carregues para sempre no teu ombro como se fosse uma rainha. A beleza num altar. Uma última vez.