Friday, March 7, 2008

7 - Lá ao Fundo o Mar

Lá ao fundo o mar negro. Um mar negro noite, negro sombra, absorvendo a lua como se fosse sua, o seu reflexo ondulando nas ondas quase estátuas como mão tacteando uma pele molhada, resplandescendo segredos e sonhos. No mar negro noite, negro sombra, todas as perguntas, flutuando... todos os mistérios submersos à espera da coragem, à espera de um salto profundo, aguardando sereno pelo nosso mergulho arcano…. Todos os enigmas que me rodeavam naufragando nas primeiras palavras, algo sinistras, algo canção, uma canção rouca, frágil e insegura, fugindo-me da boca para nos embarcar numa viagem. “Queres ir para outro lado?”. Seguiste-me como se seguir fosse comandar. Seguiste-me até junto do mar negro noite, negro sombra, como se as minhas palavras tivessem um chamamento encantado, como se o meu corpo fosse uma mão gigante, um abraço sombra gigante, onde te perdeste imóvel, guardando o meu beijo na tua boca como um verdadeiro primeiro beijo, como uma inocência quebrada. Seguindo-me como se realmente houvesse um outro lado, um lado onde nos pudéssemos encontrar para sempre protegidos no interior de um mar negro noite, negro sombra, abraçando-nos… abraçando-nos tão perto que não escutámos o mar segredar-nos todas as perguntas antes do nosso mergulho tão fabuloso de arcano. Apenas mergulhámos mais fundo até desaparecermos na noite, nas sombras e nos perdermos.

Lá ao fundo o mar azul. Um mar azul arrebatador, azul mundo. Anos azul, anos arrebatador, explodindo o céu, deflagrando estrelas, invertendo mundos uma e outra vez apenas para nos encontrarmos novamente, sorrindo. Um mar azul arrebatador, azul mundo a nossos pés… onde vivemos como pequenos aprendizes de deuses, dançando nele por não saber andar, por ter esquecido, flutuando cada vez mais para longe de tudo, absorvidos no nosso sonho até perdermos de vista todos os horizontes e sermos só mar arrebatador de tanto azul. Perdidos neste mar onde não ousas responder às perguntas que vão surgindo do teu íntimo profundo, do medo de saberes as respostas, de as saboreares, de as sentires debaixo da língua como se fosse um sabor doce guardado para mais logo, de tanto passares o seu gosto para mim entre beijos latejantes, sussurrados, ofegantes, fechados… amando-nos. Imersos nesse mar azul arrebatador. De tão imersos em momentos tão longos como caminhos não fizemos parte do mundo e onde fomos o mundo esqueceu-se de nós. Azul, para sempre azul de tão arrebatador.

Lá ao fundo o mar verde. Um mar verde saudade, verde solidão. O mar azul arrebatador, azul mundo, ausente, ainda tão presente. A sua cor esbatendo-se nos meus olhos até ser mar verde saudade, verde solidão. Afogo-me nele, engulo-o sofregamente, preenchendo-me os pulmões, ocultando-me as lágrimas escondidas, tornando cada vez mais esta ausência numa definição dos nossos momentos que me vão fugindo das mãos, sem que consiga evitar que fujam, que se soltem dos meus braços, lábios e peito, sem que novas memórias de tão verdadeiras rompam para me agarrar com força e vontade a esse mundo azul onde me perdi e me encontrei. Tento escutá-lo mas perco-me dele. Na verdade nunca o escutei de verdade… afastei-me cada vez mais até perder finalmente tudo da minha vista, até já não saber distinguir o teu cheiro, até esquecer a tua cor e não conhecer os teus reflexos ainda tão marcados na minha pele e coração. Tornei-me num fugitivo de nós, do nosso mundo azul, tornando-me finalmente numa sombra, num ladrão de momentos, num somar incessante e insano de vestígios infames. Faltou-me a coragem para mergulhar no mar verde saudade, verde solidão e procurar-te. Ver onde te afogavas, salvar-te, salvar-nos a nós e por fim salvar-me a mim.


Lá ao fundo o mar cinza. Um mar cinza revolta, cinza ruínas. Um mar debatendo-se para se manter vivo, para nos manter a respirar sob a sua pele. Vejo-o e renego-o. Já o esqueci. Parece-me cada vez mais longe, cada vez mais perdido, cada segundo mais o seu tom cinza revolta devorando-me, a sua alma consumindo-se abaixo da linha do horizonte como um mundo desmoronando-se em ruínas. Tudo isto que vivemos será ondas devastadoras, para sempre tormentas do nosso tempo extinguido. É tarde, demasiado tarde… todas as palavras que saem da minha boca apenas te mantêm longe, afogando-te nessa revolta, transformando o teu rosto numa memória cinza. E tu apenas choras, junto a mim, ajoelhada a meus pés como se fossem uma tábua de salvação, olhando-me nos olhos como nunca mais o poderei fazer. Agarrando as minhas mãos onde já não restam sinais de quaisquer momentos verdadeiros, dos nossos momentos e quebras-te finalmente em pedacinhos, tão pequenos, como se fosses tu o próprio mar perdendo-se sob a areia. Nunca mais esquecerei esse silêncio… o silêncio de todas as palavras que ficaram por dizer que guardei não sei porquê, num silêncio maldito.