Sunday, August 23, 2020

70 - Ataque de Pânico

 

Procuro pelas tuas mãos porque há nelas um abrigo infinito,

um código de honra que me salva por não poder fazer mais nada.

Interrompida a noite instante hipnótica, como pronúncio de delito,

subi à voz na minha mente neurótica que grita para ser silenciada.

 

Sou ansiedade, nervo que perdura, loucura que não se quer nem se procura.

Declaro insanidade, incorporo a violência, demência que confirma a minha ausência.    

 

Repouso no berço do teu peito onde os pesadelos são contos de encantar,

o deslumbre de um céu aberto e o calor intenso de uma promessa divina.

Salvas-me desta fragilidade intocável pelo sabor do teu beijo no meu paladar,

de ser um longo murmúrio inconsolável a ecoar na minha alma ravina.  

69 - Margaridas

 

Ao atravessar a linha perfeitamente demarcada no chão, o pesado portão bate com estrondo atrás de mim. O seu som metálico estridente é um grito combinado de violência, raiva e desespero. Anuncia-me sem remorso a este mundo de paredes abismo onde acabo de entrar. Este é um novo mundo, com novas regras, alterado para se estar permanentemente ausente do que vai acontecendo lá fora, transformando-se paulatinamente essa ausência na condenação eterna de nunca mais se saber ser gente. “Apenas visitantes” é o que está escrito no chão, mesmo à beira dos meus pés. Deixo-me ficar nas letras de cor amarelo magoado a murmurar do cinzento de um chão intensamente cicatrizado enquanto o guarda de serviço vai remexendo nas coisas que trouxe, deixando de lado sem remorso alguns dos artigos que não são permitidos ultrapassar este ponto intermédio de investigação. Preencho de seguida um formulário para registar o que ficou para trás e assim recuperar a mercadoria proibida quando sair. Todas as ações dentro de uma prisão se assemelham a um crime desde o instante em que se entra até ao momento em que se sai. Seja quem for. Todos somos, de alguma forma, aparentemente culpados por estar aqui neste preciso momento. Atravesso uma porta com uma pequena escotilha, onde do lado de lá, um outro guarda ia observando toda a minúcia da revista até receber a indicação para me deixar passar. Novamente uma porta metálica que se fecha atrás de mim, para me deixar cada vez mais ausente neste plano de isolamento. Por mais vezes que atravesse o corredor que me guia até á sala de visitas, nunca deixarei de sentir como se de um caminho para a condenação se tratasse. Apesar de serem escassos os metros a percorrer, o caminho parece perdurar no infinito. Levo comigo um amor suspenso, neste tempo suspenso de vidas suspensas. Nada se move a partir daqui. E o tempo esquece-se de tudo. Olho para dentro da sala e vejo-te sentada à beira de uma das mesas mais afastada da porta de entrada dos visitantes. Na sala ampla e quadrangular há várias mesas circulares onde se podem reunir cerca de cinco a seis pessoas. Há famílias inteiras a conversar baixinho entre si como se cada segundo dessas conversas fosse um segredo bem guardado que ninguém pode saber. Segredos são das poucas coisas que se podem guardar aqui. Alguns miúdos pequenos brincam à margem dessas conversas, distraídos com os brinquedos que trouxeram e é um tormento sentir que não enquadram ali ao vê-los abstraídos de tudo, como seres abandonados numa dimensão autista. A luz entra pelas janelas retangulares equidistantes entre si e instaladas em três das quatro paredes da sala, gradeando o sol, o céu, as nuvens e os sonhos. A sensação claustrofóbica destes gradeamentos rigorosos servirem na verdade para aprisionar o mundo lá fora, como se fosse ele próprio uma transgressão é terrivelmente opressor. Estou parado à porta da entrada da sala das visitas há já algum tempo a olhar para ti, sentada sozinha na mesa onde te descobri. Uma das guardas prisionais que se encontra na sala a inspecionar o espaço olha para mim como guardasse um óbvio delito oculto. Lanço-lhe um aceno ligeiro com a cabeça e avanço imediatamente na tua direção. Todas as ações, todos os movimentos dentro de uma prisão se assemelham a um crime… sente-se na pele, desde o primeiro instante. Percebo agora que nem te terias apercebido ainda da minha presença na sala pois ao chegar junto de ti percebo que surpreendo o teu pensamento absorto. Há na tua boca um sorriso que se esforça por falar sem sucesso, no teu olhar uma expressão que grita horrivelmente por salvação, nas tuas mãos entrelaçadas sobre a mesa uma oração de preces desmerecidas. Beijo-te na face e sento-me a teu lado. Mostro-te as coisas que te trouxe. Dois livros que inspecionaste vagamente sem grande interesse, os dois cadernos que me pediste na visita anterior, revistas várias que recusas de imediato e três pacotes de bolachas diversas que pousas sobre as pernas. Um pequeno tesouro aqui. Deixas a restante mercadoria sobre a mesa onde também se destaca um pequeno vaso de flores como novo artigo de decoração. Reparo agora que há um vaso semelhante em cada uma das mesas, algo que na verdade não havia da última vez em que estive aqui. Acaricias entre os dedos as pétalas de uma margarida desfalecida, entre tantas outras a desfalecer lentamente para uma morte confirmada. Pergunto-me quem acaricia quem. Aos poucos tentamos falar, mas há um enorme silêncio para vencer de cada vez que venho aqui. A sua profundidade tem aumentado a cada encontro e sinto cada vez mais dificuldade em mergulhar para te resgatar. Estás aqui há cerca de dois anos e é tudo o que se pode explicar por agora e que na verdade valha a pena dizer sobre o teu presídio. Nos nossos diálogos, cada vez mais constantemente, entre frases desconexas e soltas de qualquer propósito lógico, dizes-me que o teu mundo morreu e que o meu não avança. Ao ouvir-te sei que esperas pelo meu irremediável abandono, pelo meu avançar lógico na direção da preservação da minha vida, pela fuga a uma contínua prisão que és tu. A cada palavra tua a autorização que me iliba e me salva. Seguro as tuas mãos frias por um momento para te acalmar mas há em ti um nervo atroz no toque, uma ausência de sensibilidade na expressão do contacto. Ficamos em silêncio, um silêncio de prenúncios. Do nada e sem qualquer palavra levantas-te e levas-me atrás pela mão até ao outro extremo da sala onde pedes à supervisora para usarmos uma das salas da intimidade. A autorização é-nos concedida entre alguns comentários daninhos e risinhos a transbordar humilhação. Neste lugar não há nada que se possa guardar, muito menos a intimidade. Pedes a uma das guardas para guardar o que te trouxe, exceto as revistas que servem de moeda de troca. Entramos num pequeno quarto onde apenas existe uma cama de solteiro em ferro e vestida com lençóis brancos, uma mesa, uma cadeira, um pacote de guardanapos, um pequeno balde do lixo a um canto e mais nada. Já aqui estivemos antes, agora cada vez menos, muito menos. Na verdade não quero estar aqui, quero apenas romper estas paredes e fugir daqui, levar-te comigo, esquecer tudo isto. Apetece-me destruir isto tudo. Sentas-te na cama e eu sento-me a teu lado hesitante e nervoso, tento abraçar-te mas recusas, cobres a face com as mãos e pedes-me novamente para não voltar mais. Na minha cabeça recuso tal possibilidade. Viro-te para mim e ficamos face com face, olhos nos olhos, durante largos segundos, talvez minutos. As tuas mãos descobrem-me. Abres-me a camisa, botão a botão, sem nunca nos perdermos de vista. Esta não é a realidade que está latente neste ar, nesta depressão. Seguro as tuas mãos e paro a tua intenção de fugires de mim no teu corpo. Há em ti uma expressão a desmoronar-se. Finalmente cedes e a tua cabeça desmaia no meu peito para chorares compulsivamente. Isto sou eu a salvar-te. Finalmente consigo abraçar-te sem qualquer resistência da tua parte e ficamos assim até sermos obrigados a sair dali. Sempre fomos só nós. Seremos sempre nós. Sei que também estou preso aqui, ao teu lado, lá fora, em qualquer lugar, por não saber para onde ir a partir do momento em que saio daqui, por não poder deixar-te para trás nem levar-te comigo. Tudo passou a ser uma prisão, todos os momentos que não posso partilhar, toda a ausência que não podemos colmatar, a vida que passámos a ignorar. Ao voltarmos para a nossa mesa não ouvimos qualquer comentário por parte das guardas prisionais. Talvez te tenham ouvido chorar. Se há algo que é compreendido neste lugar são as lágrimas dos outros. Temos tempo apenas para podermos trocar algumas palavras de despedida nas quais não consigo dimensionar a dor de ter de partir agora, de não poder ouvir a tua voz quando quiser, tocar-te para sentir-me renascer, deitar-me junto de ti para te sentir adormecer ao meu lado. Entre nós apenas este vaso das margaridas a desfalecer. Ninguém se atreve a despi-las.

Saturday, August 1, 2020

68 - Espelho Partido



É um encontro de família. Sorrisos fáceis e abraços fraternais, faces que se reconhecem nos jeitos iguais, anos de histórias acumuladas a chegarem por detrás de cada um e que passam a estar ali refletidos nos risos das crianças a galoparem pelas paredes, como se galopassem pela nossa vida à procura de mais uma brincadeira inocente para recordarmos e reviver. Reencontros de passados que se unem nos instantes em que bocas se abrem para aconchegar o nome de alguém que faltava e que chega, para trazê-lo até mais perto de uma glória que de tão insignificante acaba por ser no fim a única que verdadeiramente importa, íntima e profunda na emoção de cada um de nós. Sentem-se os abraços como palavras de compreensão, as perguntas sobre o estado da vida de cada um como resgastes sem retorno do sofrimento individual, formam-se novamente e sem esforço os elos de segredos guardados no sangue que partilhamos. Somos cinco irmãos, quatro rapazes e uma rapariga que não sabe o que fazer de nós, mas que sem nós acredito que pouco sorri. Há vidas onde a juventude se planta mais fundo e de onde não parece conseguir nunca mais florir. Talvez seja por ser a mais velha de todos e ter sido uma saga contínua ver crescer quatro pelintras desajeitados na alma e complexos no coração como um botão de ligar e desligar. Estão todos casados à exceção de mim. Os respetivos cônjuges e ninhadas estão aqui também sem perceberem como se perdem à nossa procura quando nos juntamos todos e entramos num jogo de segundas personalidades e frases misteriosas que eles não sabem como descodificar. Fazemos esta reunião aqui nesta casa de família uma vez por mês, quase sempre resguardados na sala ampla e no calor que emana da sua lareira generosa nos meses mais frios ou abrigados pelo alpendre amplo da entrada nos meses mais quentes… nessa época do ano, como hoje, quase sempre nos perdemos distraídos a observar a criançada a correr pelo quintal a imitarem-nos anos atrás, e, deixamo-nos ficar sentados em qualquer lado com uma bebida fresca a acompanhar, enquanto nos vai embalando o silêncio desta zona rural, compassado pelo canto das cigarras à desgarrada e pontuado pelo crepitar do calor a sobressair da pele das árvores que nos rodeiam como uma guarda pretoriana. Hoje não é exceção. O almoço correu lindamente, são horas que passam depressa a falarmos da vida, dos problemas que parecem subitamente menores, das mínimas trivialidades, a rirmos com todos os disparates que saem da boca à mesma velocidade que entram os vinhos ou as cervejas, um ritual para sentirmos que há sempre alguém a quem regressar, como cada um de nós fosse um refúgio que está ali para sempre fortificado. Ainda mais agora que os nossos pais já se foram deste mundo e não nos podem senão comtemplar de um outro lugar que inocentemente esperamos que exista. Morreram-nos demasiado cedo, e nós, consciencializados nessa crença de que nos seguem ao longe os passos, acreditamos que esta união entre toda a sua sucessão contribui para não os desiludir. Pelo menos a mim renova-me a fé… Levanto-me para ir à casa de banho. No fundo do corredor desta típica casa rústica há um espelho comprido, de corpo inteiro, esguio e traiçoeiro no seu reflexo quase hipnótico no seu apelo enevoado. A minha mãe guardou para sempre este espelho sem qualquer razão. Primeiro na nossa casa principal onde crescemos e depois aqui, quando finalmente deixou de se enquadrar na evolução da decoração moderna e impessoal dos tempos. Está velho, a sua superfície refletora já bastante oxidada em todo o seu perímetro elíptico e a evoluir lentamente para o resto da área como uma pequena praga; o seu corpo em madeira escurecida muito trabalhada que o ampara e define, tão cruelmente deprimente como alguém outrora belo que não soube envelhecer. Fiquei parado suspenso na minha própria imagem refletida e uma estranha sensação de não saber para onde ir invadiu-me de imediato. Estarmos sozinhos tem muitas vezes destas coisas. Facilmente somos confrontados por nós próprios e sentimo-nos ainda mais sós. Sinto uma mão sobre um dos meus ombros. A minha irmã que meu deu tanto ao longo da vida, estende-me novamente o braço para me resgatar desta súbita melancolia. Lê a minha expressão no espelho e abraça-me o peito com força, encostando a sua cabeça nas minhas costas, quem sabe para ouvir o meu batimento cardíaco e adivinhar as emoções que por ali andam. Vira-se então para mim e numa pergunta de tão honesta como cruel, arranca finalmente da minha língua o teu nome. Digo que não quero falar em ti, que há em ti um passado que já não posso nem ouso ressuscitar. Invade-lhe nos seus olhos uma expressão de derrota. Certamente sente que era em ti que residia a única esperança de não continuar a isolar-me, adiando constantemente o meu futuro nesta solidão que a minha querida irmã não quer para mim. Há neste silêncio depois da sua pergunta âncora e na minha resposta náufraga algo que diz tudo. Aconchega-me a face. Na sua mão reside o carinho de uma continuidade na esperança quase infinita ou apenas o gesto de quem sabe que vou sofrer ainda mais e já vai antecipando o reconforto, não consigo na verdade distinguir. Pede-me para te ligar, diz-me que ainda há tempo para beber um café, que tudo se resolve. O perdão está ali à minha espera, no amor que o define, que não guarda rancor. É a experiência de quem já sofreu por amor e sobreviveu para contar. Poderia ter respondido que já passaram tantos anos, que há muito tempo que não sei nada de ti. Que lamento que as coisas tenham acabado tão mal, como na verdade acabam sempre quando a intensidade do amor se desequilibra violentamente para um dos lados. Que no meu afastamento havia apenas a intenção de salvar-te, salvar-te de mim, da pessoa indigna que se apoderara da minha inconsciência juvenil de então. Que me afastei porque não suportei a dor de te magoar como se não houvesse já nada dentro de mim que valesse a pena partilhar e de não ter a coragem de a partir desse momento de redenção embarcar numa aventura de reconquistar-te todos os dias. Mas não digo nada disto e acabo apenas por resmungar entre dentes que não vale a pena. Que tu já deves ter alguém e que não posso voltar a entrar na tua vida como se não fosse nada. A minha pele retesou-se instantaneamente como se toda a minha face fosse feita de couro ressequido, sinal claro de que o gosto destas palavras está a escorrer-me lentamente pela garganta como um veneno azedo intragável. A minha irmã observa-me por alguns segundos intermináveis para por fim dizer-me apenas que há em mim um lugar obscuro que tenho de abandonar para poder voltar a viver. Olho para os seus pequenos olhos azuis pérola e por momentos acredito que é ela a minha alma gémea, como se eu fosse um corpo transparente do qual ela sabe e conhece tudo sem a necessidade de remexer ou perguntar. Depois, sem mais palavras e como antigamente, a minha irmã entra na casa de banho roubando-me a vez. Sempre houve nestes pequenos cómicos episódios o equilíbrio certo para os dramas que nos pontuaram a vida. A forma certa de sobreviver… Sorrio ligeiramente ao ver a porta fechar-se. Volto a olhar para o reflexo do espelho. Depois de tantos anos o que poderia dizer a mim mesmo? Que quis esquecer-te. Que quis acreditar que poderia dominar todos os meus sentimentos mas que sei agora ser prisioneiro da minha própria armadilha, traído pelo amor renegado que julgava poder desmontar como se fosse uma máquina com um manual de instruções a acompanhar. Que pensei que o tempo curaria tudo e avançaríamos ambos em frente. Imagino-te a olhar para um espelho também a pensar em mim. É uma prepotência que não me abandonará nunca… querer prender-te a mim para sempre como se tivesse sido a melhor coisa do mundo. Certamente por estes dias tu caminhas livre. Livre de reflexos,.. e ainda que o amor te iluda não voltarás a cair porque a linha do tempo que na verdade não cura tudo já terá sido desdobrada por ti vezes demais, ao ponto de conseguires camuflar na perfeição toda a dor a partir dessa perceção fraturada que temos de nós. Antes de sair dali à pressa queria muito ter partido aquele espelho, mas não tive coragem. As imagens reais são por vezes um horror interminável.