Saturday, July 18, 2015

34 - Romance

Afastaste-te madrugadoramente,
Deixaste-me o teu sorriso, todo o teu perfume
Dentro do meu quarto, em redor da minha imaginação.
E desejo...
Pelo teu beijo, pelo teu toque,
Tanto que não o posso dizer, não posso,
Porque tudo o que sinto, sinto-o intensamente.
E a minha queda apressa-se...

Estalas os teus dedos e eu estou logo ali,
Depois afastas-te, não me é estranho
Que brinques assim com o meu desespero.
E tento...
Manter o orgulho que necessito para me erguer,
Essa vida de que te alimentas ferozmente,
Essa fé que te move, esse teu credo demoníaco,
E a minha chama demora-se...

Eu preciso que me olhes, é tudo quanto sei,
Mas tu arrastas-me nesta corrente de desprezo,
Parece que não me ouves, mas eu chamo-te.
E espero...
Que tu rompas esta fronteira que nos separa,
Que ouças os meus sussurros já extintos,
E que me queiras perto.
E a minha vida angustia-se...

Pelas tuas mãos,
Morrerei.
Nesse momento,
Não chorarei.
Nos teus sonhos,
Eu danço.
Para sempre,
Um romance.

Thursday, May 21, 2015

33 - Poesia

Sobre rosas morrem todas as poesias,
Tantas as razões inexplicáveis dos amores inconsoláveis,
Como os inundasse um secreto fogo
de tanto arrojo, gritos de novas melodias.

Sobre o mar deitam-se todos os poetas,
De fatos escuros, rodeados de pequenos muros,
Como se imaginar fosse percorrer descalço
sem qualquer percalço, todas as sagas incompletas.

Sobre as páginas esquecem-se todas as palavras,
Tantas as consoantes atrasadas de vogais mal castigadas,
Como se viver fosse fechar todos os sentidos
a todos os segredos redigidos, na procura de novas asas.

Sunday, May 10, 2015

32 - Cicatrizes Beijadas

Confronto o espelho alto e esguio do quarto em absoluto silêncio. Entre mim e o meu reflexo nada existe. Apenas este sentimento de que o tempo parou para mim sem eu saber. Ao olhar-me assim a esta pequena distância, olhos nos olhos, tenho a sensação de em qualquer momento poder dar um passo em frente e entrar neste ilimitado mundo reflectido, fundir-me na minha própria imagem e desaparecer. Chega-me uma nostalgia cruel de antigas perseguições ao meu próprio reflexo numa qualquer superfície cristal, uma antiga ansiedade familiar de ouvir a resposta óbvia à pergunta secreta sobre a identidade da mulher mais bela do mundo, sem que fosse pronunciada qualquer palavra mágica do lado de lá. Bastava-me acreditar e receber os sorrisos que eram retribuídos ao meu olhar lânguido e provocador da minha jovial vaidade tímida e inocente. Custa-me recordar que, como qualquer mulher, também um dia fui uma princesa. Atiro o casaco para cima da cama fechada, desse mundo plano e cada vez mais desértico onde já nenhum de nós dois dorme sem ansiar por acordar e procurar. Desfaço o nó fácil do lenço seda na minha cabeça, retirando-o suavemente, deixando-o deslizar pela minha pele lisa. Seguro-o brevemente nas minhas mãos, enquanto me observo, até o deixar cair à sua sorte no chão. Como pude chegar a isto? Levo as mãos ao rosto, escondendo-o lá dentro, como me pudesse esconder do tempo, do destino, de tudo. É inútil...  
Desabotoo os pequenos botões na lateral da minha cintura e deixo cair a saia cilíndrica e inexpressiva de cor azul enegrecido, como um pequeno sino que se desfaz no chão. Elevo a minha camisola bandeira vento pelos meus braços em auxílio e que disfarça a irregularidade das minhas formas, atirando-a para o lado num misto de raiva e vontade de libertação. Como um último folego antes da total rendição. De lá, do meu reflexo à medida que as roupas vão revelando o meu corpo nu, parece-me saltar um pedido de ajuda da minha boca gémea, da minha face irmã uma expressão a gritar-me para parar e não continuar com este pequeno ritual. As roupas vão morrendo sozinhas no chão e do seu silêncio mortal nada me comove na minha imagem. Tenho a sensação de ir desaparecendo à medida que a ausência das vestes me vai deixando cada vez mais despida. Escondida por detrás de várias peças de roupa ainda tinha a noção de ser uma pessoa. Olhando para mim agora, totalmente desmascarada não tenho a certeza de nada. A única vontade que permanece resistente em mim é a de ser invisível. Depois de não haver mais nada que cubra um centímetro da minha pele, pendo os meus braços âncora e deixo-me ficar nesta confrontação. Tento perceber a dimensão dos danos, a transformação definitiva, a forma como me afectará esta imagem enquanto olho para esta fotografia real de algo que se parece comigo. Talvez algo de mim ainda esteja por aqui, mas olhando-me assim não me encontro. Sinto-me um produto inacabado, um projecto de algo que definitivamente correu muito mal. E estas cicatrizes onde outrora sobressaíam os meus dois peitos, sinto-as como duas feridas abertas que continuamente me infligem uma dor incompreensível, apesar de completamente fechadas, aparentemente saradas, cosidas ponto por ponto como nas peças de roupa que se rasgam e se tentam em vão reparar sem deixar um único vestígio. Dois riscos direitos que saem do meu dorso em direcção ao centro do meu peito. Dois riscos clínicos e implacáveis como aqueles que se fazem por cima de um erro das provas de escola. Não há sentimentos nesta imagem. Apenas desolação. Uma contínua e interrupta desolação. Sinto a porta do quarto entreabrir-se. És tu quem surges, devagar, como tivesses medo do que irias encontrar aqui neste quarto onde já não existimos. Atrás da minha imagem reflectida no espelho apareces tu. Mais pequeno, como o brinquedo de uma criança que se pode levar sem esforço. De lá do meu reflexo poderia pegar-te com as mãos e carregar-te para todo o lado. Como antes virias sem esforço nas minhas mãos e eu nas tuas. A brincar um com o outro, debaixo do sol, lá em cima nas nuvens, pelo mar fora. A tua expressão enquanto me observas é desoladora. Tão desoladora como o sentimento que me invade. Olhamo-nos pelos reflexos, como nos temos olhado nestas semanas desde que regressei do hospital sem ser eu, aparentemente. Todos os olhares escondidos em ângulos mortos, as frases entre nós soltando-se na direcção dos objectos, da televisão, fazendo eternamente ricochete nas paredes, indigeridas sobre a mesa, isoladas. Como nos pudéssemos ferir em qualquer momento com as palavras erradas. Neste momento todas as palavras, todas as expressões e consolações estão eternamente erradas... Tudo está errado numa vida que se perde e já não se encontra. Não consegues permanecer intacto e perante a desolação do momento pendes a cabeça na direcção do chão, numa falsa homenagem, numa impertérrita cobardia, envolvido num suspiro de agonia. Estarei já morta para me procurares junto aos teus pés? Perante o teu isolamento cubro o meu tronco com os meus braços, uma armadura de pele, carne e ossos enfraquecidos que nada protegem, apenas me fragilizam mais. Digo o teu nome baixinho, com medo de te afugentar de vez, com medo de morrer amedrontada se virares as tuas costas agora e me deixares sozinha. Talvez para ti, ouvires o teu nome na minha boca seja o prenúncio de uma assombração e por isso já não me desejes aqui. Permanecemos imóveis. E eu peço-te secretamente para que me carregues para sempre no teu ombro como se fosse uma rainha. A beleza num altar. Uma última vez. 


Sunday, March 22, 2015

31 - Cativo


Na profundidade do teu rosto esmagam-se rosas,
Dilatas o seu perfume doce como suplicante véu,
Para lá dos mortais cativos, do fatigante céu.
E eu, eterno escravo dessas fragrâncias sinuosas.

Na frivolidade das tuas mãos entregam-se insolentes,
Consomes a sua ávida tentação como provocante carência,         
Para lá de um desejo quieto, de uma excitante confidência.
E eu, segredo esquecido nas tuas confissões dementes.

Na imortalidade do teu peito despedaçam-se corações,
Cavalgas cada pulsação rendida como fulgurante concubina,
Para lá de qualquer amor sincero, da atraente alma feminina.
E eu, amante irracional das tuas indiscretas agressões.

Sunday, March 8, 2015

30 - Souberas Tu

Souberas tu o que é, ser homem,
Saber como é vã a tentativa de conter,
Este desejo que derrubas e deitas junto do teu,
Para que me consuma contigo e em ti,
Num misto de perdição e prazer.

Souberas tu o que é, ser fraco,
Não ter forças para fugir ou afastar-te,
Arrastar uma súplica pela tua presença,
Desaparecer quando te escondes em mim,
Ser criança indecisa que não sabe escolher.

Souberas tu o que é, ser cruel,
Deslizar pela tua carne a minha fome,
Extinguir no teu sabor a minha sede,
Ocultar a minha culpa com a tua vontade,
Deixar-te morrer sem te ousar salvar.

Souberas tu o que é, ser quem sou,
Esta alma negra que se envolve de branco,
Um anjo perfeito que omite pecado fatal,
Ser crime que aguarda dedo acusador,
Ser culpa que em ti ganha forma e corpo.

Souberas saber como é,
Sentir o que sinto,
Quando a ti,
Se confessa o homem.

Monday, February 23, 2015

29 - Longínquo

Sou resto de memória, resto de vento,
Espalhando-me pelos teus cabelos, sufocando céus,
Uma carícia do imaginário, vagando o sofrimento,
Inundando-me na tua boca, segredando véus. 

E nesses romances desfeitos, presos aos nossos peitos,
Somos apenas asas cortadas, golpes direitos, lágrimas paradas.

Friday, January 2, 2015

28 - À tua janela

À tua janela todas as sílabas do meu signo canto,
as vezes de uma canção levada por um inquieto pranto,
deste sentimento que não me alcança, antes me acusa e me lança
sobre um corpo vazio, de lábios suspeitos e um peito imenso de frio.   

À tua janela uma eterna madrugada de noite oriente,
que dos seus silêncios apenas o teu nome num clamor demente,
atravessando o céu infinito e sereno, como intruso delito que condeno
a esta solidão de dias estreitos, num longo drama de gestos imperfeitos.
 
À tua janela um último cenário, uma súbita fuga de luz,
que me esmaga o coração rosário todo o peso desta lúgubre cruz.
Não sei se de ti um sorriso atrasado, ou ser de mim um amante inventado,

mas renasço nesta manhã jasmim ao largo da tua sombra rosa manequim.