Sorrio na tentativa vã de aliviar esta tensão rigorosa que me rodeia, amenizar qualquer olhar mais crítico de cínico e acalmar este meu espírito de sempre agitado. E como me comove o meu sorriso nervoso de falso ao enfrentar o olhar da minha plateia, aguardando-me…. O chão de soalho envelhecido e irregular deste palco vida parece mover-se sob os meus pés. Sinto o ar denso da sala penumbra entrar-me nos pulmões à força. No interior do meu corpo leva ao limite a capacidade do meu peito, estrangulando-o, e, por baixo de toda esta minha aparência aparentemente calma, os braços da minha alma movendo-se no interior do meu corpo, querendo abrir-se, forçar e rasgar a minha carne para se libertar. Dou um pequeno mas seguro passo na direcção do microfone segurando-o com ambas as mãos, sugerindo uma prece, uma reza introspectiva, secreta. Rezo para não cair. O silêncio sussurrante da sala absorve o bater do meu coração que lateja na minha cabeça como se fosse um tambor descontrolado, ritmando a minha ansiedade. Estou muito nervoso. Tenho quase setenta anos. Nervoso porquê? Esta será apenas mais uma canção… As únicas luzes da sala em tons de escarlate e azul oceano focam a minha face enrugada, a minha pele envelhecida e pálida, vincada pela demora dos anos. Toda uma vida… Olho-me todos os dias ao espelho e toda uma vida… Só aqui neste palco esqueço tudo e me recordo novamente. Só neste palco as minhas palavras são as que sempre quis dizer, a ti principalmente, sem colisões. Estou velho bem o sei meu amor. Na maior parte do tempo tudo o que digo soa a disparates ou a lamechices. Na maior parte do tempo não me pareço com nada sem ser com um cansaço debilitado, cansando-se cada vez mais. Mas é aqui neste palco que renasço um pouco, recuo uns anos e atravesso as memórias, vivendo de novo. Revejo-me novamente no homem de vinte e quatro anos, corpo galante pintado de uma pele morena e lisa. Tu novamente a sobrevoar no interior daquele vestido amarelo que tinhas e que te caía tão bem, ainda menina, como se fosses um pequeno sol à minha espera naquela paragem de autocarro. Olhas-me distante. Como estivesses a anos de distância de mim, ainda nessa paragem de autocarro à minha espera. Estás sentada na primeira fila. Envelheceste muito. Envelhecemos os dois demasiado. Demasiadas lágrimas, demasiados passos atrás, demasiadas incertezas, golpes direitos. Demasiado direitos. Sinto que te devo toda uma vida. É a minha voz que o demonstra quando começo a cantar e todo o silêncio que antes habitava nesta sala se inunda do meu timbre meio rouco, meio cansado, todo um passado. Para foi toda a nossa vida? Tivemos todo o tempo do mundo, para onde foi a nossa vida? Será a nossa vida esta canção que se liberta de dento da minha garganta? Estas sílabas de tons descompassados, de tons atrasados, de uma ou outra nota desafinada? Será a minha voz sufocada o reflexo de tudo o que passámos? Será esta a canção de uma vida não preenchida? Uma vida de saudades de uma verdadeira vida? Uma vida de silêncio por não saber dizer nada que não fosse a cantar sozinho num canto onde ninguém me ouvisse ou em frente a um microfone sobressaltado traduzindo uma confissão compassada? Sei que durante toda a tua vida esperaste por mim, esperaste por um dia de palavras sinceras, honestas, sem silêncios sobressaltados, o meu coração completamente aberto e lá de dentro a imagem do homem que só tu viste. Aqui me tens. Sozinho neste palco, suspenso, sem rede de salvação. Todos os meus erros, todas as minhas imperfeições cá fora que nunca saberei como são... São estas as minhas palavras sinceras, é esta a minha única vaidade, sou eu. O acto sincero atirado cá para fora como um cuspo de sangue seco. Todas estas minhas canções, estas minhas confissões, todas as desilusões. Grito uma nota, depois outra, mais outra cada vez mais alto sem parar, a canção no seu auge antes de se consumir, de me consumir a mim e eu desaparecer. A minha voz rouca soberba alimentando os ouvidos dos que não me sabem escutar, gritando o teu nome, gritando o teu nome bem alto em tantas outras palavras que nunca serão o teu nome. Foda-se tive todo o tempo do mundo. Onde foi que cheguei? Ainda me vês com vinte e quatro anos? Eu sonhei a teu lado anos a fio com a rapariga de vestido amarelo à espera de um autocarro, invejando o sol. Estiveste toda a tua vida a meu lado e estás aqui mais uma vez, a ver-me, a olhar para mim, a amar a minha imagem neste palco mundo que ainda não parou de se mexer desde que o pisei. Que não pára de se mexer. Que não pára. Que não pára até todo o tempo do mundo ser apenas esta canção.
Monday, April 21, 2008
Sunday, April 6, 2008
8 - Quadro Tela de Cinema
Pouso o pincel drogado da mistura de cores sobre a pequena mesa de apoio a meu lado, uma mesa de madeira vincada como linhas de mão, a minha mesa arco-íris, aparando o pincel sufocado. Restos de tinta tatuam-me a pele dos dedos… como vestígios da tua fugaz passagem pelo meu corpo ainda há pouco. Foram estas as horas perdidas à tua procura, gotejando cores sobre a tela pacífica, transformando-a, o tempo parado sob o silêncio da minha respiração, sob o silêncio das tuas últimas palavras punhais, antes de saíres porta fora fugindo uma vez mais, mergulhando nas ruas vazias até te perder de vista. Estou cansado. Sinto-me exausto, extinguido. Não compreendo porquê. Ando há tanto tempo adormecido, procurando-te como um sonâmbulo pelas ruas escuras, pelas ruas de sombras, infinitas, onde me perdi para sempre, desde o dia em que te encontrei numa delas, deflagrando no meu olhar novos tons oriundos da tua pele morena. Desde daí não paro de te procurar nestes quadros telas de cinema. Imagens de ruas nocturnas e desertas, pormenores cuidadosamente delineados, de prédios e casas mudas, de encontros de ruas sem destinos, de luzes difusas e dispersas das silhuetas, de cantos obscuros destacados por tons em pastel e amarelo açafrão, de objectos de hoje que serão de um amanhã até amanhã ser um dia de tempo nenhum. E nós? Teremos um amanhã para nos inundar de cor? Há muito tempo que coloco perguntas das quais vou fugindo sem saber porquê. Talvez porque espero que vejas o quanto estou só quando entre olhares esguios me dizes, que tudo o que queres é o que não sabes querer. Suspiro. Dou dois pequenos passos atrás, para olhar melhor, para me deixar absorver e desaparecer na imagem do quadro tela de cinema, observar bem a imagem que capturei com a câmara fotográfica numa noite qualquer de silenciosa, a imagem agora desdobrada numa escala de palmos de mão, numa escala de braços abertos, estendidos. O tamanho do pensamento desdobrado para uma tela de dois e meio por dois, pintada cuidadosamente até à exaustão do pormenor. Sinto o vazio e a solidão onde me encontro, onde me deixaste, onde nos deixaste a nós. Contemplo o quadro acabado, a tela suando ainda a tinta pegajosa, consumindo a tinta como saliva de beijos, a sua imagem tão perto da imagem que permaneceu de mais uma das nossas noites fugitivas, onde indistintamente sobrevivem alguns dos nossos desejos, vagueando nas ruas à procura de braços que os agarrem de tão ansiosos. Sinto que apenas eu compreendo estes quadros telas de cinema de ruas perdidas, isoladas, vazias. São como filmes repetidos onde aguardo que o teu contorno surja algures junto a um dos cantos obscuros destacados pelos tons de pastel e amarelo açafrão, que a tua imagem se revele junto a um dos objectos temporais como se fosses uma estrela de cinema meio oculta pelo mistério da intangibilidade. Ignoro todas as outras explicações dos olhares que se suspendem sobre os meus quadros telas de cinema e às quais não sei verbalizar nada sem ser um sorriso meio tonto, meio aflito. Só posso ver-te a ti. Só a ti e a mais nada. Nestes quadros telas de cinema chamo a mim a tua presença com a tua ausência. Grito secreta e silenciosamente o meu sofrimento, expurgando a saudade do que na realidade não temos mas desejo. Nas imagens de ruas vazias mascaro-te e protejo-te de todos os outros porque quero-te só para mim e apenas para mim. Na verdade talvez seja eu quem se proteja e mascare de ti. Não sei… Olho uma vez para mais para o quadro tela de cinema. O momento paralisado do qual não consigo sair e o qual talvez abandone um dia por exaustão. Ninguém aguenta uma prisão. Fujo para o quarto e deito-me refugiado pelas longas horas da noite sabendo que mais tarde ou mais cedo vou acordar com a sensação da tua pele a sobrevoar a minha, acariciando-me. Regressas sempre. Como soubesses que te procurei toda a noite pelas ruas vazias de paisagens nocturnas.
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