Sunday, April 6, 2008

8 - Quadro Tela de Cinema

Pouso o pincel drogado da mistura de cores sobre a pequena mesa de apoio a meu lado, uma mesa de madeira vincada como linhas de mão, a minha mesa arco-íris, aparando o pincel sufocado. Restos de tinta tatuam-me a pele dos dedos… como vestígios da tua fugaz passagem pelo meu corpo ainda há pouco. Foram estas as horas perdidas à tua procura, gotejando cores sobre a tela pacífica, transformando-a, o tempo parado sob o silêncio da minha respiração, sob o silêncio das tuas últimas palavras punhais, antes de saíres porta fora fugindo uma vez mais, mergulhando nas ruas vazias até te perder de vista. Estou cansado. Sinto-me exausto, extinguido. Não compreendo porquê. Ando há tanto tempo adormecido, procurando-te como um sonâmbulo pelas ruas escuras, pelas ruas de sombras, infinitas, onde me perdi para sempre, desde o dia em que te encontrei numa delas, deflagrando no meu olhar novos tons oriundos da tua pele morena. Desde daí não paro de te procurar nestes quadros telas de cinema. Imagens de ruas nocturnas e desertas, pormenores cuidadosamente delineados, de prédios e casas mudas, de encontros de ruas sem destinos, de luzes difusas e dispersas das silhuetas, de cantos obscuros destacados por tons em pastel e amarelo açafrão, de objectos de hoje que serão de um amanhã até amanhã ser um dia de tempo nenhum. E nós? Teremos um amanhã para nos inundar de cor? Há muito tempo que coloco perguntas das quais vou fugindo sem saber porquê. Talvez porque espero que vejas o quanto estou só quando entre olhares esguios me dizes, que tudo o que queres é o que não sabes querer. Suspiro. Dou dois pequenos passos atrás, para olhar melhor, para me deixar absorver e desaparecer na imagem do quadro tela de cinema, observar bem a imagem que capturei com a câmara fotográfica numa noite qualquer de silenciosa, a imagem agora desdobrada numa escala de palmos de mão, numa escala de braços abertos, estendidos. O tamanho do pensamento desdobrado para uma tela de dois e meio por dois, pintada cuidadosamente até à exaustão do pormenor. Sinto o vazio e a solidão onde me encontro, onde me deixaste, onde nos deixaste a nós. Contemplo o quadro acabado, a tela suando ainda a tinta pegajosa, consumindo a tinta como saliva de beijos, a sua imagem tão perto da imagem que permaneceu de mais uma das nossas noites fugitivas, onde indistintamente sobrevivem alguns dos nossos desejos, vagueando nas ruas à procura de braços que os agarrem de tão ansiosos. Sinto que apenas eu compreendo estes quadros telas de cinema de ruas perdidas, isoladas, vazias. São como filmes repetidos onde aguardo que o teu contorno surja algures junto a um dos cantos obscuros destacados pelos tons de pastel e amarelo açafrão, que a tua imagem se revele junto a um dos objectos temporais como se fosses uma estrela de cinema meio oculta pelo mistério da intangibilidade. Ignoro todas as outras explicações dos olhares que se suspendem sobre os meus quadros telas de cinema e às quais não sei verbalizar nada sem ser um sorriso meio tonto, meio aflito. Só posso ver-te a ti. Só a ti e a mais nada. Nestes quadros telas de cinema chamo a mim a tua presença com a tua ausência. Grito secreta e silenciosamente o meu sofrimento, expurgando a saudade do que na realidade não temos mas desejo. Nas imagens de ruas vazias mascaro-te e protejo-te de todos os outros porque quero-te só para mim e apenas para mim. Na verdade talvez seja eu quem se proteja e mascare de ti. Não sei… Olho uma vez para mais para o quadro tela de cinema. O momento paralisado do qual não consigo sair e o qual talvez abandone um dia por exaustão. Ninguém aguenta uma prisão. Fujo para o quarto e deito-me refugiado pelas longas horas da noite sabendo que mais tarde ou mais cedo vou acordar com a sensação da tua pele a sobrevoar a minha, acariciando-me. Regressas sempre. Como soubesses que te procurei toda a noite pelas ruas vazias de paisagens nocturnas.

1 comment:

Unknown said...

Há muito que não dava uma olhadela... mas valeu a pena voltar. Este encheu-me as medidas, está... nem sei que palavra usar.
Simplesmente espectacular!!!
Porque será???
Beeijo do tamanho do Oceano que nos separa.