Sunday, September 29, 2019

56 - High and Dry


As cores nos meus quadros são réus dos teus reflexos intermitentes. Paisagens urbanas desérticas que antecipam a tua ausência, a forma como me foges das mãos ainda antes do crepúsculo ser extinto pelo negrume profundo da noite, submergindo numa qualquer rua noturna para te esconderes de mim, misticamente centrada na tua personagem de encenar outras personagens, envolvida na exuberância de momentos capturados por essa fome de uma imortalidade irreal e singular. Um ponto de fuga interminável que reproduzo e aprofundo uma e outra vez através de fotografias ampliadas pela arte de sutura dos meus pincéis. Dessa paleta tons melancólicos vou construindo um mundo de beleza mística e perfeita onde se perdem olhares e falsas perceções, estranhos ao verdadeiro sentimento exprimido na simples ausência de silhuetas arcanas. São apenas edifícios e ruas ultrapassadas pelo tempo mas não pela virtude da sua antiguidade que determinam este falso contexto de espiritualidade urbana adormecida. Ali escondido por detrás dos reflexos das sombras o verdadeiro e simples sentimento oculto. Vão-me sobrevivendo os longos silêncios que deixas aqui, como vocábulo de um cenário que transporto para as telas brancas de saberem já a tua inexistência e onde só eu posso definir-te. Falo aqui, nas cores dos meus pincéis, um monólogo de um sentimento disléxico de quem amplia o seu amor mas reflete desamor…  

Acabas por regressar. Regressas sempre. Numa antecipação da noite que se afasta e te deixa entrar. O teu corpo sombra procurando o meu como quisesses mergulhar para dentro do meu peito e interromper a revolução que ali permanece desde o teu último beijo. Entras ao de leve na cama e sobes imediatamente ao meu corpo altar, onde sabes ser deus. Não há palavras que parem a tua intenção de viver um momento indistinto que ainda assim em ti perdura mais do que qualquer outro. Penso sempre que se regressas é porque precisas de alguém que saiba onde está o teu coração, ainda que saiba que este é o teu filme e eu seja apenas um personagem que desempenha um papel no teu drama arquitetado em emoções desarrumadas. Longas são as horas dos nossos corpos demorados um no outro. Adormeces sem te despedires… Ficas por uns dias. Mergulhas nos meus quadros. Ocupas-me as mãos indefesas. Sobes-me ao pensamento e desmontas pequenos enigmas. Espalhas sorrisos no meu rosto apenas por ter o teu rosto no meu. Falas-me das rotinas de dias copiados que são na verdade medos futuros. Vivemos juntos o que se vive quando se partilham espelhos. Durante dias não necessitas de uma personagem e deixas que me apaixone por ti por te apaixonares assim. Guardo estes dias por saber que a tua impaciência vai crescendo à medida de saberes serem insuficientes as minhas conquistas que mais parecem derrotas inevitáveis. Vou percebendo como se prolongam os teus silêncios perante o meu esgotamento de intenções, como se funde o teu gosto no meu sem que daí sobressaia um sabor, como te isolas demorada num canto como a anunciar uma partida porque acreditas que a prisão do amor é ser livre. Ficas por uns dias. Haverá noite outra vez.

                                                                                                                       De High and Dry dos Radiohead


Wednesday, September 25, 2019

55 - Transparente



Ainda anseio por essa paixão. Esse fogo que nasce na pele intocada mas que logo deseja extinção. Estou só. Lá fora um mundo vazio para mim, de ruas que me perseguem por já não saberem o meu nome, um céu desabrigado das noites que já não se despem devagar. Volto a recordar como me inventava num coração alheio e regresso sobrevivente nessas memórias momento de palpitações que iam submergindo misturadas, para num instante se suspenderem as palavras, fundindo-se orações pequenas de um só verbo. Era sol e lua num só corpo… Podia fazer nascer amor em qualquer rua como se cantasse feitiços mas deixando-me enfeitiçar também por quem me seguia. Esse jogo de um olhar que se fixa e avança antes mesmo do nosso corpo ceder, denunciado pelas palavras que atropelavam todo o sentido de estar ali, sem chão, mas resgatado pela vontade do outro lado, perdida também nesse labirinto infinito de antecipação latente. Olho para o meu reflexo. O cabelo desagregado como se fosse ele mesmo o tempo desfiando-se, uma ou outra memória mais dura marcada na face, deixando transparecer a agonia de envelhecer e ter de esquecer todas as estórias de corpos sagrados guardados nas mãos sem os poder reaver e reviver. A beleza que se desvanece aos poucos e vai deixando a alma cada vez mais escondida sob este corpo endurecido e consumido. Sinto-a cansada e desiludida. Vejo-a diariamente no espelho, algures entre o meu olhar meio desfeito e a cobardia de me enfrentar. O passar dos anos abatendo cada vez mais o seu ímpeto, a sua aura desvanecendo devagar como fosse condição necessária de uma normal aceitação observar o seu declínio de mãos atadas, a boca silenciada, o corpo castigado pela ausência de emoção de uma imaginação cada vez mais infértil. Já não ouso repousar as minhas intenções voluptuosas num olhar incógnito, invadir um pensamento feminal como se fosse um quarto imaginado, sem ocultar intenções, apenas poder ser predador e cru de uma fome natural. Capturar e ser refém. Ser transparente em qualquer imaginação que me descodificasse nessa pequena realidade de homem que não se podia render. Fantasio com o passado amando o amante que fui, revisitando essa beleza natural das idades que só sabem segredar paixões. Procuro-a nos olhos distraídos de rasgo felino do outro lado de um balcão, um corpo desembaraçado e esguio alimentando devaneios, pequenos mapas de pele descoberta apressando tesouros que já não consigo meus; na antecipação de um perfume que satura o ar matinal e inunda os meus vagos sentidos, sobrevivendo angustiadamente encantado numa pequena fantasia cruel de impossível, já fugindo pela rua fora preso a um véu cabelo negro; na silhueta boneca porcelana que me segue na viagem de regresso de comboio até casa, lado a lado como se fosse já metade do meu desejo mas que termina silenciosamente na estação seguinte sem uma inglória despedida que possa prolongar um pouco mais este romance ignorado; num olhar denunciado que se prolonga tempo demais; nas curvas pronunciadas de uma cintura dançarina que chama as minhas mãos; nos lábios que sabem pronunciar de cor o meu nome sem o dizer… sou um penhasco invertido. Ainda anseio por essa paixão. Esse fogo queimando-me amargamente a pele de intocada, desesperado por essa eterna extinção. Procuro-me nos reflexos. Sou apenas um homem transparente que ninguém quer encontrar. Envergonhado nesta comoção por mim próprio que todos podem reconhecer.