Ainda
anseio por essa paixão. Esse fogo que nasce na pele intocada mas que logo deseja
extinção. Estou só. Lá fora um mundo vazio para mim, de ruas que me perseguem por
já não saberem o meu nome, um céu desabrigado das noites que já não se despem
devagar. Volto a recordar como me inventava num coração alheio e regresso
sobrevivente nessas memórias momento de palpitações que iam submergindo misturadas,
para num instante se suspenderem as palavras, fundindo-se orações pequenas de
um só verbo. Era sol e lua num só corpo… Podia fazer nascer amor em qualquer
rua como se cantasse feitiços mas deixando-me enfeitiçar também por quem me
seguia. Esse jogo de um olhar que se fixa e avança antes mesmo do nosso corpo ceder,
denunciado pelas palavras que atropelavam todo o sentido de estar ali, sem chão,
mas resgatado pela vontade do outro lado, perdida também nesse labirinto infinito
de antecipação latente. Olho para o meu reflexo. O cabelo desagregado como se
fosse ele mesmo o tempo desfiando-se, uma ou outra memória mais dura marcada na
face, deixando transparecer a agonia de envelhecer e ter de esquecer todas as
estórias de corpos sagrados guardados nas mãos sem os poder reaver e reviver. A
beleza que se desvanece aos poucos e vai deixando a alma cada vez mais
escondida sob este corpo endurecido e consumido. Sinto-a cansada e desiludida.
Vejo-a diariamente no espelho, algures entre o meu olhar meio desfeito e a
cobardia de me enfrentar. O passar dos anos abatendo cada vez mais o seu
ímpeto, a sua aura desvanecendo devagar como fosse condição necessária de uma
normal aceitação observar o seu declínio de mãos atadas, a boca silenciada, o
corpo castigado pela ausência de emoção de uma imaginação cada vez mais
infértil. Já não ouso repousar as minhas intenções voluptuosas num olhar
incógnito, invadir um pensamento feminal como se fosse um quarto imaginado, sem
ocultar intenções, apenas poder ser predador e cru de uma fome natural.
Capturar e ser refém. Ser transparente em qualquer imaginação que me
descodificasse nessa pequena realidade de homem que não se podia render. Fantasio
com o passado amando o amante que fui, revisitando essa beleza natural das
idades que só sabem segredar paixões. Procuro-a nos olhos distraídos de rasgo
felino do outro lado de um balcão, um corpo desembaraçado e esguio alimentando devaneios,
pequenos mapas de pele descoberta apressando tesouros que já não consigo meus;
na antecipação de um perfume que satura o ar matinal e inunda os meus vagos sentidos,
sobrevivendo angustiadamente encantado numa pequena fantasia cruel de impossível,
já fugindo pela rua fora preso a um véu cabelo negro; na silhueta boneca
porcelana que me segue na viagem de regresso de comboio até casa, lado a lado
como se fosse já metade do meu desejo mas que termina silenciosamente na estação
seguinte sem uma inglória despedida que possa prolongar um pouco mais este
romance ignorado; num olhar denunciado que se prolonga tempo demais; nas curvas
pronunciadas de uma cintura dançarina que chama as minhas mãos; nos lábios que
sabem pronunciar de cor o meu nome sem o dizer… sou um penhasco invertido. Ainda
anseio por essa paixão. Esse fogo queimando-me amargamente a pele de intocada, desesperado
por essa eterna extinção. Procuro-me nos reflexos. Sou apenas um homem transparente
que ninguém quer encontrar. Envergonhado nesta comoção por mim próprio que
todos podem reconhecer.
Wednesday, September 25, 2019
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