Wednesday, September 25, 2019

55 - Transparente



Ainda anseio por essa paixão. Esse fogo que nasce na pele intocada mas que logo deseja extinção. Estou só. Lá fora um mundo vazio para mim, de ruas que me perseguem por já não saberem o meu nome, um céu desabrigado das noites que já não se despem devagar. Volto a recordar como me inventava num coração alheio e regresso sobrevivente nessas memórias momento de palpitações que iam submergindo misturadas, para num instante se suspenderem as palavras, fundindo-se orações pequenas de um só verbo. Era sol e lua num só corpo… Podia fazer nascer amor em qualquer rua como se cantasse feitiços mas deixando-me enfeitiçar também por quem me seguia. Esse jogo de um olhar que se fixa e avança antes mesmo do nosso corpo ceder, denunciado pelas palavras que atropelavam todo o sentido de estar ali, sem chão, mas resgatado pela vontade do outro lado, perdida também nesse labirinto infinito de antecipação latente. Olho para o meu reflexo. O cabelo desagregado como se fosse ele mesmo o tempo desfiando-se, uma ou outra memória mais dura marcada na face, deixando transparecer a agonia de envelhecer e ter de esquecer todas as estórias de corpos sagrados guardados nas mãos sem os poder reaver e reviver. A beleza que se desvanece aos poucos e vai deixando a alma cada vez mais escondida sob este corpo endurecido e consumido. Sinto-a cansada e desiludida. Vejo-a diariamente no espelho, algures entre o meu olhar meio desfeito e a cobardia de me enfrentar. O passar dos anos abatendo cada vez mais o seu ímpeto, a sua aura desvanecendo devagar como fosse condição necessária de uma normal aceitação observar o seu declínio de mãos atadas, a boca silenciada, o corpo castigado pela ausência de emoção de uma imaginação cada vez mais infértil. Já não ouso repousar as minhas intenções voluptuosas num olhar incógnito, invadir um pensamento feminal como se fosse um quarto imaginado, sem ocultar intenções, apenas poder ser predador e cru de uma fome natural. Capturar e ser refém. Ser transparente em qualquer imaginação que me descodificasse nessa pequena realidade de homem que não se podia render. Fantasio com o passado amando o amante que fui, revisitando essa beleza natural das idades que só sabem segredar paixões. Procuro-a nos olhos distraídos de rasgo felino do outro lado de um balcão, um corpo desembaraçado e esguio alimentando devaneios, pequenos mapas de pele descoberta apressando tesouros que já não consigo meus; na antecipação de um perfume que satura o ar matinal e inunda os meus vagos sentidos, sobrevivendo angustiadamente encantado numa pequena fantasia cruel de impossível, já fugindo pela rua fora preso a um véu cabelo negro; na silhueta boneca porcelana que me segue na viagem de regresso de comboio até casa, lado a lado como se fosse já metade do meu desejo mas que termina silenciosamente na estação seguinte sem uma inglória despedida que possa prolongar um pouco mais este romance ignorado; num olhar denunciado que se prolonga tempo demais; nas curvas pronunciadas de uma cintura dançarina que chama as minhas mãos; nos lábios que sabem pronunciar de cor o meu nome sem o dizer… sou um penhasco invertido. Ainda anseio por essa paixão. Esse fogo queimando-me amargamente a pele de intocada, desesperado por essa eterna extinção. Procuro-me nos reflexos. Sou apenas um homem transparente que ninguém quer encontrar. Envergonhado nesta comoção por mim próprio que todos podem reconhecer.

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