Penso que poderia
esperar. Na verdade regressaste apenas há alguns dias. Tudo agora se move
devagar. Talvez intimamente só espere que voltes a falhar. Neste presente, já depois
de teres assumido a necessidade de ajuda e do tempo passado em recuperação numa
clínica de desintoxicação, acabámos aqui os dois sem mentiras para desmascarar.
Nada do que tu faças ou possas voltar a fazer tem um pingo de inocência e não
poderá passar sem ser imediatamente reconhecido como consequência dos teus
hábitos, dos teus vícios que deixaste imiscuírem-se entre nós. Uma culpa
antecipada, não há como esconder. Foram longas semanas a aguardar pelo teu
regresso, depois da ruína de dias desfeitos pela irreconhecibilidade da tua
presença junto de mim, de consequências registadas nas palavras que magoaram
mas das quais não te recordas por nesses momentos apenas existires num outro
mundo melancolicamente inebriado. Pensei que poderia esperar. Queria salvar-te
mas na verdade precisava de ser salvo do que eras e do que não poderás voltar a
ser. Essa é a tua luta a partir de agora. Voltar a sorrir sem ser através da
falsa sensação de viveres fora de ti. Desde que voltaste ainda não te vi sorrir
e por isso só quero gritar. Queria salvar-te. Ainda quero. Mas na verdade essa
luta não é minha, ainda que o meu amor por ti talvez me consuma por completo
sem teres a oportunidade de o voltares a ver. Porque agora é tempo de
reergueres os teus escudos devagar, voltares a segurar na espada sem hesitar e
lutar contra os demónios com que tens de conviver a cada segundo. Queria estar
lá para ti, afastar tudo da tua frente, ser o teu cavaleiro andante mas essa é
uma batalha que terás de vencer sozinha. Inevitavelmente acabo por errar
constantemente quando pretendo antecipar as tuas quedas, afastar de ti os meros
incómodos do dia, por mas ridículos e simples que sejam, porque não quero ver-te
falhar outra vez. Quero ser perfeito para ti, mas a perfeição não chega e na
verdade incomoda. Chego perto de ti e é como se fosse alguém que não conheces.
Os teus olhos imediatamente escondem-se de mim. O ar rarefeito entre nós a não
dar espaço para respirar. Não posso salvar-te. Mas tu sabes que é por esse
caminho que vamos. Penso que poderemos esperar. Guardar tudo para mais tarde e
deixar este tempo passar enquanto descobres como regressar incólume de tudo o
que se passou, imune a todos os golpes que desferiste em ti própria,
sobrevivente de um caos que não tem ordem nem tempo para se reorganizar. A
sensação do dia a passar por ti tem uma dor que não consegues quase controlar.
Queima-te o apego pela vida que ainda permanece em ti quando em simultâneo
subsiste uma real noção de total desmerecimento por essa dádiva, à qual,
vulgarmente, todos damos pouco valor. Tentas permanecer viva nas pequenas
coisas. Uma canção que escutas à janela ao ver a vida passar, num beijo da
nossa filha antes de sair para a escola e que na verdade representa uma pequena
rendição, numa carta que escreves a ti própria com o objetivo de perceberes que
há um perdão no meio disto tudo que é preciso saber encontrar e merecer. Tem de
haver algo que possa sobreviver depois de tudo o que se passou. Está aqui
algures entre nós. Entre o regresso a uma normalidade e a certeza de que as
coisas nunca mais poderão voltar a ser o que eram. Teremos de permanecer
ausentes um do outro até que possas efetivamente renascer. Esse é o maior amor
que poderei dar-te neste momento. O espaço seguro para recuperar e voltares a
ser tu mesmo sem merecer. Ter a noção que lutas primeiro por ti para teres
força depois para lutares por nós. Penso que poderia esperar.
Inspirado
em:
Think you can wait
– The National
Filme:
When a Man loves a Woman
