Sunday, February 12, 2017

36 - Apenas Mais Um Dia



Acordo. Sob a luz ténue do exterior (a madrugada já tão longe de ser um estranho poema, o adormecer de um romance ou a dança de fantasias esquivas), a silhueta do meu corpo move-se quarto fora rumo ao fim do silêncio tranquilo do mundo dos sonhos, cada vez mais negro e profundo. Entro na casa de banho e deparo-me na minha imagem refletida no espelho (já sem palavras, nem sorrisos rasgados a direito por aquela tonta alegria abundante); onde estou? Pergunto-me repetidamente depois de me ter confrontado, olhos nos olhos, enfrentando-me como nunca o faria se todas as respostas nos dias que correm fossem simples de concretas e despreocupadas. Tudo perdeu o sentido desde o dia em que guardei o teu nome debaixo da minha língua para não o mais dizer, desde o dia em que a felicidade (que palavra é essa cuja pronúncia me agoniza?) deixou de ter nome, forma, sabor. Nada mais… Um banho rápido, todas as pequenas coisas comuns do dia feitas à pressa para pôr o tempo a correr à minha frente, a roupa a mascarar-me a postura quebrada deste desgosto bem marcado na minha pele… escolhida na noite anterior para evitar qualquer indecisão, mãe dos tempos mortos que te trazem em recordações… recordações de manhãs perdidas como esta em brincadeiras tontas; e de repente sorrisos a transformarem-se em segundos apaixonados com sabor a tempo perdido a derreter-se na boca afogada. No mesmo lugar onde agora guardo o teu nome… Paro por uns instantes para respirar devagar. Nada disso interessa mais. Não posso pensar em ti. Não quero. Não vale a pena. Foste, Saíste. Desapareceste. Não existes mais. O silêncio denuncia-te. Não estás aqui para partilhar sequer pequenos momentos inócuos, repetidos, rotinas desmentidas, um vulgar pequeno-almoço (juro que há dias que não sinto o seu sabor… e como depois de toda esta amargura eternamente dissolvida?). Não virás nunca mais. Estou só. É essa a verdade. Engulo a seco todos estes pensamentos… (este sabor amargo! É só este o sabor que consigo sentir!) Chegas-me novamente mesmo antes de sair porta fora. Já passou tanto tempo mas consigo ouvir-te sempre… atrás de mim, (um fantasma enorme) a tua respiração por trás do meu ouvido, as tuas palavras doces, infinitos os desejos de um bom dia de trabalho, toda a força do mundo nessas tuas palavras. Também todas as armas depois… relembro todas aquelas sílabas, uma por uma, disparadas a frio! Já na rua sigo o fio condutor da minha vida (será vida?). Agarro-me a ele e espero que me puxe para onde tenho de ir… sem contrariar. Apanho um táxi e sigo. A cidade e todos os seus segredos escondidos, dos meus segredos também. Mergulho nas suas veias céleres onde me fundo e desapareço, não para sempre como por vezes desejo. Lá fora tudo corre depressa, tão depressa que sinto que parei e não continuei mais, o mundo continuou. Eu ainda estou aqui… Chego ao emprego, mergulhar na burocracia, nas rotinas, nos papéis (tantas vezes que a tua carta de letras sangue me passa pelas mãos onde releio vezes sem conta aquelas palavras que nunca julgaria tuas), atender pessoas atrás de pessoas, por vezes apareces tu a passar pela porta num corpo estranho, depois pessoas que não quero ver nem ouvir, colegas que me releem nos olhos esta tristeza constante, este semblante de penúria que abomino, deixando-me perguntas a pairar no ar que agarro e escondo no meu silêncio por não saber responder. O que me fizeste? Mais um dia que passou sem saber o que ser depois de ti. No regresso a casa a noite cada vez mais noite, como me quisesse engolir. Um submundo deserto. Tudo isto foi um dia. Apenas um dia mais depois de ti. (E se não houverem mais dias, levar-te-ei comigo). Adormeço.


35 - Palavras sem Asas


São essas as tuas palavras?
Um eco aberto, as tuas palavras sem asas.
Um grito de perto, uma tábua de salvação,
Palavras sem asas, tão perto do chão.


São essas as tuas palavras?
Um sonhar tão alto, as tuas palavras sem asas.
Um silêncio de palco, um olhar de desdém,
Palavras sem asas, do meu desejo refém.