Acordo. Sob a luz ténue
do exterior (a madrugada já tão longe de ser um estranho poema, o adormecer de
um romance ou a dança de fantasias esquivas), a silhueta do meu corpo move-se
quarto fora rumo ao fim do silêncio tranquilo do mundo dos sonhos, cada vez
mais negro e profundo. Entro na casa de banho e deparo-me na minha imagem
refletida no espelho (já sem palavras, nem sorrisos rasgados a direito por
aquela tonta alegria abundante); onde estou? Pergunto-me repetidamente depois
de me ter confrontado, olhos nos olhos, enfrentando-me como nunca o faria se
todas as respostas nos dias que correm fossem simples de concretas e
despreocupadas. Tudo perdeu o sentido desde o dia em que guardei o teu nome
debaixo da minha língua para não o mais dizer, desde o dia em que a felicidade
(que palavra é essa cuja pronúncia me agoniza?) deixou de ter nome, forma,
sabor. Nada mais… Um banho rápido, todas as pequenas coisas comuns do dia feitas
à pressa para pôr o tempo a correr à minha frente, a roupa a mascarar-me a
postura quebrada deste desgosto bem marcado na minha pele… escolhida na noite
anterior para evitar qualquer indecisão, mãe dos tempos mortos que te trazem em
recordações… recordações de manhãs perdidas como esta em brincadeiras tontas; e
de repente sorrisos a transformarem-se em segundos apaixonados com sabor a
tempo perdido a derreter-se na boca afogada. No mesmo lugar onde agora guardo o
teu nome… Paro por uns instantes para respirar devagar. Nada disso interessa
mais. Não posso pensar em ti.
Não quero. Não vale a pena. Foste, Saíste. Desapareceste. Não
existes mais. O silêncio denuncia-te. Não estás aqui para partilhar sequer pequenos
momentos inócuos, repetidos, rotinas desmentidas, um vulgar pequeno-almoço
(juro que há dias que não sinto o seu sabor… e como depois de toda esta
amargura eternamente dissolvida?). Não virás nunca mais. Estou só. É essa a verdade.
Engulo a seco todos estes pensamentos… (este sabor amargo! É só este o sabor
que consigo sentir!) Chegas-me novamente mesmo antes de sair porta fora. Já
passou tanto tempo mas consigo ouvir-te sempre… atrás de mim, (um fantasma
enorme) a tua respiração por trás do meu ouvido, as tuas palavras doces, infinitos
os desejos de um bom dia de trabalho, toda a força do mundo nessas tuas palavras.
Também todas as armas depois… relembro todas aquelas sílabas, uma por uma,
disparadas a frio! Já na rua sigo o fio condutor da minha vida (será vida?). Agarro-me a ele e espero que me puxe para onde
tenho de ir… sem contrariar. Apanho um táxi e sigo. A cidade e todos os seus segredos
escondidos, dos meus segredos também. Mergulho nas suas veias céleres onde me
fundo e desapareço, não para sempre como por vezes desejo. Lá fora tudo corre
depressa, tão depressa que sinto que parei e não continuei mais, o mundo
continuou. Eu ainda estou aqui… Chego ao emprego, mergulhar na burocracia, nas
rotinas, nos papéis (tantas vezes que a tua carta de letras sangue me passa
pelas mãos onde releio vezes sem conta aquelas palavras que nunca julgaria
tuas), atender pessoas atrás de pessoas, por vezes apareces tu a passar pela
porta num corpo estranho, depois pessoas que não quero ver nem ouvir, colegas
que me releem nos olhos esta tristeza constante, este semblante de penúria que
abomino, deixando-me perguntas a pairar no ar que agarro e escondo no meu
silêncio por não saber responder. O que me fizeste? Mais um dia que passou sem
saber o que ser depois de ti. No regresso a casa a noite cada vez mais noite,
como me quisesse engolir. Um submundo deserto. Tudo isto foi um dia. Apenas um
dia mais depois de ti. (E se não houverem mais dias, levar-te-ei comigo).
Adormeço.
Sunday, February 12, 2017
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