Thursday, December 5, 2019

61 - Veludo azul


A sensação desta aproximação de lábios alheios é docemente dilacerante. O querer recuar quando por detrás de mim só existe uma parede que me empurra para a frente, para uma espada imaginária que trespassa o meu estômago e lança arrepios pela espinha fora ao sentir uma outra respiração entrar na minha boca. Um outro sabor, um outro pormenor. Está calor lá fora na rua, está ainda mais calor aqui dentro deste quarto que se tornou subitamente escarlate. Os meus lábios libertam-se descontrolados ao seguirem as minhas mãos invasoras. Sinto um leve sorriso feminal a nascer na minha boca, alimentando-se dela. Será a perceção imediata de quem vê cair toda a minha fraca resistência perante um mero ímpeto carnal? Será o sentir do pulsar do meu coração que parece querer arrombar o meu peito? Talvez todos os detalhes que se desenham deste impulso imparável entre corpos limite não sejam mais do que uma sequência de truques lascivos estudada para me enfeitiçar. O sorriso débil procurando mumificar o meu, uma pequena dentada quase canibal nos meus lábios, vários desenhos do mesmo desejo concebidos neste plano intensamente erótico. A minha pele ferve incontrolável. É o inferno a nascer dentro de mim, a elevar o meu sexo contra um corpo que se desnuda ao ritmo de uma sensualidade magnética. Há uma imensa violência neste momento que não posso controlar. Uma derrota definida na fronteira entre não já poder voltar atrás e na verdade não o querer. Obedeço apenas à inevitável instrumentalização do desejo humano, rendido como nunca poderia estar mesmo que me atassem as mãos atrás das costas. Sobre esta cama há um manto azul. Veludo azul, onde me deito misturado num outro corpo que não detenho nem amparo… consumo-me nele. A sensação do veludo na minha pele assemelha-se a uma carícia antes de um golpe fatal. Na verdade já nada me pode salvar agora.

Penso em ti. Há momentos assim. Do beijo maquilhado por vezes um resto do teu sabor, açoitando-me.  

As fantasias que não podiam ser e agora o são neste corpo estranho, estranhamente à minha mercê. As rotinas de corpos descodificados a ganharem novos esboços e cores, acima de tudo uma vingança sobre o mundo que insiste em repetir-se e repetir-me. A frivolidade da cena carnal que alimenta tanto esse orgulho passageiro e é tão pouco quando não sentida (na alma?) a ser peculiarmente mais forte. Neste sexo traidor de querer e não querer, acabo por deixar-me ir atrás da indecisão como quem desce estrada fora sem travões e só pensa como é que poderá parar sem fazer nada. É um verdadeiro gosto a mel e a fel a confrontarem-se, derivando no meu corpo suado que não reconhece as mãos que percorrem a minha pele, do beijo que nunca sacia e que na verdade ainda agrava esta sede, do prazer que revela o vermelho e o negro. Tudo na verdade acaba depressa demais. Poderia fingir que esta noite não foi verdadeira. Com o tempo a mentira irreconhecível.

Cinco da manhã. Acordo subitamente como se fosse um outro homem a sonhar comigo no passado. Olho para o corpo ao meu lado, um profano deus, construído por mim, desejado por mim, a mentira precipício por onde caía, celebrando o chão que se aproximava. Preciso sair porta fora desta casa clandestina, porque lá ao fundo na noite tu nunca me imaginarás uma ave de rapina. Atravesso a cidade de uma ponta à outra sem saber para onde vou. Quero regressar mas temo nunca mais poder fazer o mesmo caminho de sempre. Na verdade já me perdi. Veludo azul.