Friday, November 11, 2011

20 - Noite Quente

E através da janela do meu quarto invade-me este incêndio transgressor, sem que nada o previsse, sem que o pudesse impedir, finalmente, uma chama imensa, subjugando-me. Nada mais seria que uma noite fechada, reeditada, inimiga… um sono embriagado pelos silêncios acomodados de repetidos, constantes nos meus sonhos, vigilantes ou alados. Apenas uma noite de verão, quente e pegajosa, suada e inquieta… uma submissa noite fechada até o arrebatador cenário laranja mel irromper violentamente pela pequena janela do meu quarto, incendiando-me a cama e a pele, entrando-me pelo olhar dormente e sufocar a minha respiração penosa. Levanto-me devagar… Lá fora o som das sirenes uivando noite fora e gritos de socorro atropelando-se uns aos outros nos seus ecos dilatados, escondem-se na minha garganta para ressoar ainda mais alto. Percorro indecisa a pequena distância entre o meu quarto e a varanda, sentindo a cada passo dado nos corredores subitamente encantados de silhuetas irregulares, como se o medo me tacteasse a pele do pescoço, o fundo das costas, em redor do meu umbigo, carinhosamente. Os reflexos gigantes das labaredas lá fora a entrar-me casa adentro, parecendo agora incendiar o interior de todo o meu apartamento, tacteando todas as paredes em reflexos ágeis, quase fugazes, como pequenos chicotes de luz, despertando de todos os cantos, observando-me suspensos do tecto, morrendo neste chão, sob os meus pés… Por fim tudo arde… Da varanda do meu apartamento onde vou existindo lúgubre nestes últimos silenciosos anos, todo o cenário laranja mel transforma apaixonadamente uma noite fechada numa perturbadora tela de fogo, inflamando-se repetidamente no meu rosto. Desta minha varanda onde perscruto amargamente o trilho dos céus, onde as noites se prolongam dentro de mim, olho silenciosamente indistinta para o outro lado da longa e larga avenida, vendo como as chamas se propagam pelas divisões do esguio e envelhecido prédio abandonado. O fogo como um predador faminto, destruindo o interior de todo o seu corpo de escombros, do seu fraco coração, percorrendo todos os compartimentos à procura por onde arder, existir e nunca morrer… nunca mais morrer. As suas chamas incontroladas alando nos espaços vazios das divisões abandonadas, irrompendo violentamente nos quartos já esquecidos dos murmúrios breves e que se guardam nas mãos, irrompendo selvaticamente pelas janelas homem actor como anjos de fogo de asas abertas, gritando bem alto, absorvendo tudo em seu redor como se chamassem para si o mundo para se consumir com eles. Por fim tudo arde… As chamas sol prolongam-se até mim através do seu calor incendiário. Sou uma pequena expugnação para este incêndio transgressor que me enfrenta cara-a-cara vitorioso de ardente, ladeando-se pela minha cintura, escalando pelas minhas costas, capturando-me, como dois enormes braços me envolvessem acima dos meus ombros para me conter, reduzindo-me a cinzas. Por fim tudo arde… Tudo arde em meu redor, em mim, destruindo todas as mentiras que criei para me proteger, esquecer, sobreviver. Encerrei tudo o que existiu entre nós em mim, num quarto vazio, numa divisão esquecida, aninhando noite após noite esta solidão na minha cama de passados revisitados, de palavras castigadas, de beijos cada vez mais envenenados, até noites serem anos demorados de emoções destroçadas, perdões antecipados, fulgores esgotados. Que tudo arda… Que tudo arda pela vontade deste incêndio transgressor, que me subjuga pela sua chama bela de imensa, que procura em mim por onde arder, existir e nunca morrer… nunca mais morrer.