Uma vez mais… aqui. Nada de palavras vagas, nada de perguntas indiscretas, nada de emoções escondidas, nada de nada. Nunca quererei saber o porquê de estarmos aqui os dois, sem nada para oferecer, sem sítio para onde recolher ou fugir depois destes inconstantes desvios de rota. Somos dois equívocos ocultos, presos num quarto de hotel, rodeados de quatro paredes em tons de bege mudo, mobílias cruas, cortinados desmaiados, de mergulhos numa paisagem impessoal de desoladora tentação… esquecidos neste espaço tão incaracterístico que nunca poderá confessar nada sobre nós. Nada aqui diz de onde viemos, nem para onde iremos a seguir depois de todos os suores nos queimarem a frio, depois de tudo ser tudo num momento só. Não haverá daqui uma recordação para nos fazer recuar momentos atrás e nos fazer pensar noutra coisa qualquer, nenhuma expectativa irrealizável que guardamos apenas para nos alimentar, nada para nos distrair e nos fazer cair em cada um de nós. Nada de nada. Sou eu e tu, aqui… uma vez mais. O teu corpo e o meu, os seus sabores misturados. Os nossos lamentos absorvidos nestas quatro paredes confessionário, os nossos desejos contidos nesta cela de segredos, debatendo-se furiosamente para sair porta fora a correr, à espera de enlouquecer… Quero-te, sem o querer. Amo-te sem te amar. Sinto que me perco um pouco mais de cada vez que me vejo aqui, rodeada de ti, petrificada pelo teu olhar perdido… eu sei que estás perdido, perdido como eu. Ainda que hajam tantas palavras entre nós que não possam ser ditas, segredos ilesos que não possam ser revelados, tudo em ti serei eu também… uma vez mais aqui. Abres a porta lentamente, sem pressa, como se eu fosse uma convidada indesejada. Fitas-me por segundos junto à parede do quarto, sem me deixares entrar. Por detrás de ti a grave obscuridade do quarto caverna acentuada pelos relances prata da televisão silenciosa que perseguem a tua sombra. Nada de palavras, minhas, tuas, clandestinas. Foi esta a minha oportunidade de fugir e de te esquecer. De correr pelo corredor fora sem que qualquer palavra tua me impedisse de parar. Não fujo. Talvez nunca tenha parado de fugir até chegar aqui. Nunca poderei esquecer a tua face, o teu olhar perdido… eu sei que estás perdido, perdido como eu… tão perdidos… é este o nosso único refúgio. Agarras uma das minhas mãos trémulas, firme e docilmente, saboreia-la, mergulhando-a no teu peito… num segundo tudo é noite no meu pensamento. Puxas-me finalmente para dentro do quarto, para dentro da tua caverna… encostando-me contra a parede, fechas a porta para que se encerrem todas as dúvidas entre nós. E na penumbra do teu quarto onde as nossas noites se fundem, tudo é silêncio... Silêncio mel, silêncio de beijos confidentes. Encontro o sentido de todos os passos secretos, todos os sorrisos pecaminosos, os segredos das luxúrias domadas escondidos habilmente na pele das mãos, no contorno da boca fechada, todos os momentos regressando-me. Resgato os teus distantes sinais de vida. Toda uma distância entre nós que se reduz até estar aqui, o mais próxima que me aproximarei de ti, do teu amor furtivo que se achega e recua de igual forma. Apenas aqui, neste quarto de hotel, nos reconhecemos. Apenas neste quarto de hotel te reconheço e sobrevives. Não saberia o que te dizer se te confessasses agora, neste momento. Se neste momento me dissesses que te perdes, que não queres, que não sabes. Que não queres regressar deste quarto de hotel impenetrável por não suportares relembrar o teu caminho de volta, por já não quereres guardar em ti tudo o que te faz recordar quem és longe deste sonho profundo, longe de mim. Odeio este segredo mas não posso parar de o contar a mim própria, de o decorar repetidamente, uma e outra vez como um vício que não consigo controlar por um sabor demasiado intenso me embriagar e me levar para longe, onde me esqueço de mim. Não te confessas. Nunca te confessarás. Nada de palavras, minhas, tuas, clandestinas. Apenas silêncio mel, silêncio de beijos confidentes.
Sunday, October 12, 2008
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