Monday, April 1, 2013

22 - Reencontro


Depois do som da tua voz ao telefone, depois da hesitação nas tuas palavras e intenções, das consecutivas pausas trágicas, pontuando estrategicamente o teu quase monólogo inebriante, este silêncio novamente. Este silêncio que me apetece rasgar ferozmente. Destruir. Aniquilá-lo de vez. Como depois de ti, desde sempre um silêncio obrigatório que me define, imobilizando-me, ocultando-me de tudo o resto, subjugando-me a uma personagem incaracterística que vai atravessando os meus dias como se fosse eu, uma imitação minha, desvanecida, esquecida no desempenho de um isolamento exemplar. Uma súbita excitação sibilante atravessa o meu corpo de norte a sul como se uma corrente elétrica interminável percorresse toda a extensão das minhas veias, retendo-me na incerteza da veracidade sobre este momento, do qual não pretendo sair. Quero correr imediatamente na tua direção, não esperar nem um segundo mais. Quero sair porta fora para te encontrar imediatamente no local marcado e suspender o tempo depois de te descobrir. O suficiente apenas para te reter em mim durante o nosso reencontro, totalmente inesperado, invulgarmente aladino. Preparo-me! Um banho quente revigorante que leva lentamente de mim a sensação amorfa de não viver, o olhar perdido no espelho enquanto mecanicamente desfaço a barba de vários dias quietos, desmascarando-me, a pressa na escolha de peças de vestuário sem ter a certeza de ter tomado a decisão certa na combinação definida, a introdução de perfume sobre a pele na esperança de ser um tónico que te encante e te leve a querer explorar-me novamente, como desta vez pudesses descobrir algo inédito em mim. Novamente esta esperança que tinha aprendido a ignorar a tentar-me, bem perto do ouvido, baixinho, segredando-me o teu nome. Nada é afinal imperdoável, muito menos os nossos próprios insucessos. Tento libertar-me desta ansiedade permanente que me leva a não dominar cada segundo da minha vida e que agora parece afogar-me. Afinal de contas é só um café, provavelmente nada mais que uma hora de conversa desconexa, totalmente perdida e sem destino, soluçada entre palavras indecisas, talvez atravessando às cegas algumas recordações mal guardadas, um beijo que queimará a face de fria e que incendiará com certeza o meu sangue. Tudo isso temo e muito mais. Tudo o que escondo de mim, por detrás dos meus olhos, das palavras que não ouso dizer. Não devia ter atendido o telefone. Devia antes tê-lo deixado tocar até se desligar, até o cardíaco sinal de chamada se tornar num vazio sentimento de solidão em ambos os lados da linha. Não ligaria de volta e o meu silêncio acabaria por fechar este ciclo de vez, ultrapassando assim mais um dia, mantendo-me a uma distância intransponível que nunca te permitisse ousar percorrer. Terei sido eu a chamar-te sem saber, lançando no ar um invisível apelo que voou até ti? Domino-me. Afinal nada mais que um café... Saio porta fora. Atravesso a cidade num passo decidido, percorrendo-a como se não pertencesse aqui. A noite está límpida e fria, cristalina. Aperto o sobretudo escuro junto ao pescoço para impedir a entrada da brisa gélida no meu corpo e apresso os meus passos o mais que posso. Sinto-me um intruso ao me intrometer nesta aparente calma noturna, como um personagem de filme que tem um mistério por desvendar, segundas intenções escondidas, totalmente desconhecidas, nobres ou maquiavélicas, atravessando estas ruas vazias até ao seu destino, até ao seu objetivo definido, onde finalmente se irá desenrolar a ação concreta, a cena principal e fulcral, caminhando por entre edifícios mudos com um falcão no seu coração, galgando as sombras. Chego finalmente ao pequeno café onde combinámos o nosso pequeno reencontro. Entro muito devagar, tentado engolir a pulsação desgovernada que lateja na minha garganta e procuro-te por momentos. Não te encontro e é um desespero abandonado que me invade de imediato, como se regressasse ao meu sentimento habitual, olhando para todas as direções sem saber para onde ir. Estou parado à entrada do espaço bafiento e soturno, a música lasciva contornando-me, os olhares indecentes alvejando-me sem tréguas, atrás de mim a porta por onde entrei e por onde penso imediatamente escapar, sem que saiba para onde. Segundos podem afinal ser anos e anos a sobreporem-se devagar. Olhas-me sentada de uma mesa do outro lado da sala, o teu braço no ar como se fosse um iminente pedido de socorro que lanças no ar inocentemente quando na verdade sou eu quem precisa de ser salvo. Sorris-me quando percebes que já te encontrei, olhos nos olhos. E caminho para ti.

Sunday, February 24, 2013

21 - Luto



Rodo a chave de casa, abro a porta e entro neste espaço negro que me absorve de imediato como num salto rumo a um mergulho afogado. Tudo está fechado, aprisionado, nada existe aqui. Todos os objetos petrificados, os rostos das fotografias como estranhos obscuros, completamente silenciados. As sombras quietas à minha espera em todos os cantos, sufocando os meus movimentos até ser uma sombra também, indistinta. Quero deixar de me ouvir a gritar pelo teu nome cá dentro no meu peito, pois é tudo o que escuto quando estou só. Fecho a porta e caminho no escuro, escondendo-me, rumo a uma repetida ausência. Entro na cozinha fria e finalmente a luz que renasce numa hesitação psicadélica demasiado demorada, artificial. A sua envolvência branca e baça como uma névoa translúcida magoa-me e enerva-me, ao mesmo tempo que vou sentindo que o ar aprisionado no meu peito como um peso que me esmaga constantemente, parece querer explodir a qualquer momento. Pouso as chaves de casa sobre a mesa. Ligo a televisão para ouvir alguém falar comigo. Quero fugir porque ninguém me ouve, porque já ninguém escuta a minha voz. Quero procurar as tuas mãos. Só quero ouvir a tua voz a silenciar o meu desassossego. Desespero... quero ser o tempo para poder andar para trás, correr para trás, atravessar os meses, os anos, as décadas, regressar ao nosso primeiro instante. Regressar ao instante do vestido amarelo sobrevoando sobre o teu corpo ainda jovem, enquanto me esperavas numa paragem de autocarro, sorrindo-me, sem saberes que me esperavas e que sorrias para mim. Quero ver-te novamente a sorrir para mim por não saberes o que seríamos, onde te levaria... apenas por um dia e eternamente sermos nós outra vez, sem o sabermos. O teu nome a ecoar novamente no meu peito, cada vez mais alto, explodindo na dor. Não sustenho as lágrimas. Não há como as suster, pois não param de regressar... ainda há pouco estavas aqui. Derrotado, sento-me numa das cadeiras da mesa da cozinha e enterro a cabeça nas minhas mãos, nos meus braços. Depois de engolido este desgosto, desta mágoa amarga me invadir os sentidos, apenas o sabor desta horrível verdade que ocupa todos os cantos desta casa de repente penumbra, num momento este meu túmulo penitente. Tu que a esta mesa só querias ver todos os sorrisos rasgados de felizes. Apenas querias ouvir os nossos nomes, os nomes dos nossos filhos, dos nossos netos, misturando-se num frenesim de palavras cantadas, de histórias recontadas uma e outra vez, entre risos histéricos de quem se ri sem saber porquê. Mas agora não está aqui ninguém. Olho para a televisão de forma abstrata e fingo que a ouço falar comigo. Só queria ouvir-te a ti a falar comigo, uma vez mais... e silenciares este meu desassossego. Levanto-me. Quero fugir. Quero fugir ainda que não saiba para onde ir nesta noite feita. Saio novamente de casa apenas para respirar o ar frio desta noite de Dezembro. Aqui fora os sons angustiantes da vida que não pára, da horrível continuidade depois de definitivamente já nada existir depois de ti. Carros que passam num rasgo inesperado, arrastando a luz. Vozes que se ouvem baixinho a atravessar o silêncio muito devagar, como não quisessem ser descobertas. A noite a respirar profundamente comigo, a engolir-me nela. Os segundos a passar e eu apenas a querer impedi-los de continuar. É isto estar só. Queria ver-te aqui fora, apenas à distância de chamar o teu nome. Queria ouvir-te a reclamar do frio, a esperar por mim, no jardim a podar as roseiras quietinha como te tivesses a esconder dentro delas, a olhar para mim num momento qualquer sem eu perceber, por já me ter esquecido de ser encontrado por ti. Não esquecerei jamais. São estas as lágrimas que não páram de regressar. Olho para casa e para a luz ténue de um regresso inevitável a esta repetida ausência. Volto a entrar no espaço negro e subo ao nosso quarto, deitando-me nos lençois frios desfigurados de todas as noites anteriores.