Sunday, February 24, 2013

21 - Luto



Rodo a chave de casa, abro a porta e entro neste espaço negro que me absorve de imediato como num salto rumo a um mergulho afogado. Tudo está fechado, aprisionado, nada existe aqui. Todos os objetos petrificados, os rostos das fotografias como estranhos obscuros, completamente silenciados. As sombras quietas à minha espera em todos os cantos, sufocando os meus movimentos até ser uma sombra também, indistinta. Quero deixar de me ouvir a gritar pelo teu nome cá dentro no meu peito, pois é tudo o que escuto quando estou só. Fecho a porta e caminho no escuro, escondendo-me, rumo a uma repetida ausência. Entro na cozinha fria e finalmente a luz que renasce numa hesitação psicadélica demasiado demorada, artificial. A sua envolvência branca e baça como uma névoa translúcida magoa-me e enerva-me, ao mesmo tempo que vou sentindo que o ar aprisionado no meu peito como um peso que me esmaga constantemente, parece querer explodir a qualquer momento. Pouso as chaves de casa sobre a mesa. Ligo a televisão para ouvir alguém falar comigo. Quero fugir porque ninguém me ouve, porque já ninguém escuta a minha voz. Quero procurar as tuas mãos. Só quero ouvir a tua voz a silenciar o meu desassossego. Desespero... quero ser o tempo para poder andar para trás, correr para trás, atravessar os meses, os anos, as décadas, regressar ao nosso primeiro instante. Regressar ao instante do vestido amarelo sobrevoando sobre o teu corpo ainda jovem, enquanto me esperavas numa paragem de autocarro, sorrindo-me, sem saberes que me esperavas e que sorrias para mim. Quero ver-te novamente a sorrir para mim por não saberes o que seríamos, onde te levaria... apenas por um dia e eternamente sermos nós outra vez, sem o sabermos. O teu nome a ecoar novamente no meu peito, cada vez mais alto, explodindo na dor. Não sustenho as lágrimas. Não há como as suster, pois não param de regressar... ainda há pouco estavas aqui. Derrotado, sento-me numa das cadeiras da mesa da cozinha e enterro a cabeça nas minhas mãos, nos meus braços. Depois de engolido este desgosto, desta mágoa amarga me invadir os sentidos, apenas o sabor desta horrível verdade que ocupa todos os cantos desta casa de repente penumbra, num momento este meu túmulo penitente. Tu que a esta mesa só querias ver todos os sorrisos rasgados de felizes. Apenas querias ouvir os nossos nomes, os nomes dos nossos filhos, dos nossos netos, misturando-se num frenesim de palavras cantadas, de histórias recontadas uma e outra vez, entre risos histéricos de quem se ri sem saber porquê. Mas agora não está aqui ninguém. Olho para a televisão de forma abstrata e fingo que a ouço falar comigo. Só queria ouvir-te a ti a falar comigo, uma vez mais... e silenciares este meu desassossego. Levanto-me. Quero fugir. Quero fugir ainda que não saiba para onde ir nesta noite feita. Saio novamente de casa apenas para respirar o ar frio desta noite de Dezembro. Aqui fora os sons angustiantes da vida que não pára, da horrível continuidade depois de definitivamente já nada existir depois de ti. Carros que passam num rasgo inesperado, arrastando a luz. Vozes que se ouvem baixinho a atravessar o silêncio muito devagar, como não quisessem ser descobertas. A noite a respirar profundamente comigo, a engolir-me nela. Os segundos a passar e eu apenas a querer impedi-los de continuar. É isto estar só. Queria ver-te aqui fora, apenas à distância de chamar o teu nome. Queria ouvir-te a reclamar do frio, a esperar por mim, no jardim a podar as roseiras quietinha como te tivesses a esconder dentro delas, a olhar para mim num momento qualquer sem eu perceber, por já me ter esquecido de ser encontrado por ti. Não esquecerei jamais. São estas as lágrimas que não páram de regressar. Olho para casa e para a luz ténue de um regresso inevitável a esta repetida ausência. Volto a entrar no espaço negro e subo ao nosso quarto, deitando-me nos lençois frios desfigurados de todas as noites anteriores.

1 comment:

Morris said...

<3 until we meet again <3 4ever in my heart