Depois do som da tua
voz ao telefone, depois da hesitação nas tuas palavras e intenções, das consecutivas
pausas trágicas, pontuando estrategicamente o teu quase monólogo inebriante,
este silêncio novamente. Este silêncio que me apetece rasgar ferozmente. Destruir.
Aniquilá-lo de vez. Como depois de ti, desde sempre um silêncio obrigatório que
me define, imobilizando-me, ocultando-me de tudo o resto, subjugando-me a uma
personagem incaracterística que vai atravessando os meus dias como se fosse eu,
uma imitação minha, desvanecida, esquecida no desempenho de um isolamento
exemplar. Uma súbita excitação sibilante atravessa o meu corpo de norte a sul
como se uma corrente elétrica interminável percorresse toda a extensão das
minhas veias, retendo-me na incerteza da veracidade sobre este momento, do qual
não pretendo sair. Quero correr imediatamente na tua direção, não esperar nem um
segundo mais. Quero sair porta fora para te encontrar imediatamente no local
marcado e suspender o tempo depois de te descobrir. O suficiente apenas para te
reter em mim durante o nosso reencontro, totalmente inesperado, invulgarmente
aladino. Preparo-me! Um banho quente revigorante que leva lentamente de mim a
sensação amorfa de não viver, o olhar perdido no espelho enquanto mecanicamente
desfaço a barba de vários dias quietos, desmascarando-me, a pressa na escolha
de peças de vestuário sem ter a certeza de ter tomado a decisão certa na
combinação definida, a introdução de perfume sobre a pele na esperança de ser
um tónico que te encante e te leve a querer explorar-me novamente, como desta
vez pudesses descobrir algo inédito em mim. Novamente esta esperança que tinha
aprendido a ignorar a tentar-me, bem perto do ouvido, baixinho, segredando-me o
teu nome. Nada é afinal imperdoável, muito menos os nossos próprios insucessos.
Tento libertar-me desta ansiedade permanente que me leva a não dominar cada
segundo da minha vida e que agora parece afogar-me. Afinal de contas é só um
café, provavelmente nada mais que uma hora de conversa desconexa, totalmente
perdida e sem destino, soluçada entre palavras indecisas, talvez atravessando
às cegas algumas recordações mal guardadas, um beijo que queimará a face de
fria e que incendiará com certeza o meu sangue. Tudo isso temo e muito mais. Tudo
o que escondo de mim, por detrás dos meus olhos, das palavras que não ouso
dizer. Não devia ter atendido o telefone. Devia antes tê-lo deixado tocar até se
desligar, até o cardíaco sinal de chamada se tornar num vazio sentimento de
solidão em ambos os lados da linha. Não ligaria de volta e o meu silêncio
acabaria por fechar este ciclo de vez, ultrapassando assim mais um dia, mantendo-me
a uma distância intransponível que nunca te permitisse ousar percorrer. Terei
sido eu a chamar-te sem saber, lançando no ar um invisível apelo que voou até
ti? Domino-me. Afinal nada mais que um café... Saio porta fora. Atravesso a
cidade num passo decidido, percorrendo-a como se não pertencesse aqui. A noite
está límpida e fria, cristalina. Aperto o sobretudo escuro junto ao pescoço
para impedir a entrada da brisa gélida no meu corpo e apresso os meus passos o
mais que posso. Sinto-me um intruso ao me intrometer nesta aparente calma noturna,
como um personagem de filme que tem um mistério por desvendar, segundas
intenções escondidas, totalmente desconhecidas, nobres ou maquiavélicas, atravessando
estas ruas vazias até ao seu destino, até ao seu objetivo definido, onde
finalmente se irá desenrolar a ação concreta, a cena principal e fulcral, caminhando
por entre edifícios mudos com um falcão no seu coração, galgando as sombras. Chego
finalmente ao pequeno café onde combinámos o nosso pequeno reencontro. Entro muito
devagar, tentado engolir a pulsação desgovernada que lateja na minha garganta e
procuro-te por momentos. Não te encontro e é um desespero abandonado que me
invade de imediato, como se regressasse ao meu sentimento habitual, olhando
para todas as direções sem saber para onde ir. Estou parado à entrada do espaço
bafiento e soturno, a música lasciva contornando-me, os olhares indecentes
alvejando-me sem tréguas, atrás de mim a porta por onde entrei e por onde penso
imediatamente escapar, sem que saiba para onde. Segundos podem afinal ser anos
e anos a sobreporem-se devagar. Olhas-me sentada de uma mesa do outro lado da
sala, o teu braço no ar como se fosse um iminente pedido de socorro que lanças
no ar inocentemente quando na verdade sou eu quem precisa de ser salvo.
Sorris-me quando percebes que já te encontrei, olhos nos olhos. E caminho para
ti.
Monday, April 1, 2013
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