Monday, November 18, 2019

60 - Amor não correspondido


Escrevo-te esta carta porque são mais duras as palavras que guardamos dentro de nós. Essas palavras às quais não permitimos pequenas fugas, muito menos gritos através das grades que as aprisionam, por temermos a alteração de toda a nossa realidade se as libertarmos e inevitavelmente nos tornarmos reféns do seu alcance. Não poderás nunca saber o que sinto sob pena de todo este amor morrer aos pés da tua renúncia. Talvez o meu medo de soçobrar perante a impossibilidade dos meus desejos irrealizáveis seja maior que esta paixão que guardo secretamente por ti. Ainda que estas páginas de papel nunca te manchem as mãos, é-me necessária esta mecânica literária de exteriorizar o que não tem destino para ter a certeza de que tudo isto não passa de uma fantasia que avassalou selvaticamente a minha consciência. Por vezes imortalizamos os nossos sentimentos nos objetos que deixamos para trás. Estas páginas serão o meu único e verdadeiro testemunho. Poderia contar-te sobre como me é querida a rotina de ir ao teu encontro. A felicidade de todos os dias entrar no edifício do escritório onde trabalhamos há cerca de seis anos. Passar pelo vigilante desmaiado de tantos dias copiados na cúbica receção aquário, inundada pela luz exterior. Subir pelo elevador e ir ao teu encontro, como se de um verdadeiro encontro amoroso se tratasse. Poderia tentar explicar-te em algumas linhas a sensação de ansiedade que me assalta por saber que após a abertura das portas do elevador por onde fui subindo poderei finalmente ver a tua face. Diariamente percorrer a pequena distância até à sala do estúdio e procurar-te imediatamente dentro do espaço amplo, quase industrial. Quando te encontro é a felicidade que me fala ainda que todas as vozes se calem à minha volta. No meio de tantas pessoas que vão martelando os teclados dos computadores, sentadas atrás das diversas secretárias perfeitamente alinhadas, danças por ali de um lado para o outro perfeitamente harmoniosa, o teu rabo-de-cavalo a marcar o ritmo dos teus passos e dos desejos percetíveis nos vários olhares que vão atravessando a sala na direção do teu corpo feminino perfeitamente torneado. O teu sorriso na minha direção, o bom-dia nos teus lábios sílaba, o meu nome prolongando-se na tua voz são beijos sem contacto, são carícias sonhadoras. Eu apenas posso admirar-te de uma distância involuta enquanto o meu coração acelera descompassadamente indefinido. Compreenderias a minha angústia se lesses estas folhas de papel, o meu testamento desse meu sentimento por ti, o livro de instruções que descodifica o meu olhar alheado quando passas na minha linha de visão, papéis na tua mão, um deles poderia ser a minha carta, tu a distribuir cópias por todos os lados, o meu segredo desvendado na boca de toda a gente e eu sem ter para onde fugir. Se lesses tu a minha carta terminarias as suas linhas com um sorriso inesperado ou a rasgar esta inconfidência em mil pedaços? Não tenho coragem para descobrir. Ainda que durante estes últimos meses nos tenhamos aproximado mais do que alguma vez imaginei. Uma amizade a crescer diariamente, nascida nos cafés da manhã na copa do escritório, onde fomos revelando aos poucos partes de nós, velando segredos nos nossos cofres de intimidade. Temo, para meu infortúnio, que tenhamos ido na direção errada. Chegas-me a contar os teus desamores, os teus desaires do coração, os quais se cravam no meu peito como facas. Seguro-te nas mãos, ouço-te pacientemente enquanto lamentas a falta de sorte no amor. Rio-me para fora desse teu lamento e grito por dentro enquanto afasto o cabelo do teu rosto. Pode ser que um dia ouças este meu clamor surdo. Hoje voltou a acontecer novamente ainda mais intensamente. Pensei em beijar-te enquanto vertias umas lágrimas por um desgraçado qualquer não saber ver o que vejo a cada segundo. Recuarias perante o meu beijo ou render-se-iam os teus lábios? Morro de desespero por não saber. A tua face estava tão próxima que podia sentir o calor da tua respiração na minha face. Os nossos perfumes a formarem uma nova fragância. O bater do teu coração a falar tão alto para dentro das minhas mãos. O tempo repentinamente parado à nossa espera. Terei fantasiado tudo na minha cabeça? Não sei. Resta-me este caminho. Esperar que dês um passo adiante por não ter coragem de ser eu a fazê-lo. Sonhar com uma paixão a nascer destemida no teu coração e que arrebate o meu de um só golpe. Para já vou sobrevivendo com estes momentos em que na desculpa de um consolo distribuo algumas cândidas carícias, abraço-te para dentro do meu peito sem saberes, alimentando aos poucos um futuro alternativo. Guardo tudo nesta carta à qual provavelmente nunca terás a oportunidade de responder. Não passa de um mero mecanismo de sobrevivência. A ingenuidade da esperança. Porque por momentos, hoje, senti-te minha. Como eu sou, fatalmente, tua.

Tuesday, November 12, 2019

59 - Ausência


Imagino-te ainda nessa rua onde nos conhecemos
O mesmo padrão de cores inaugurando o céu.
Ali perto do mar, do sossego ao beijo que contivemos
na boca sem respirar, celebrando um momento réu.

Imagino-te ainda naquela cama onde nos inventámos   
A mesma luz ténue acariciando a intensidade do teu clamor.  
Esquecidos do mundo, da ausência à saudade que guardámos
Nas nossas almas sem fundo, incendiando todo esse fulgor.

Imagino-te ainda nessa despedida onde nos traímos
Os ínfimos pormenores elevando a memória imortal.
Ali perto do mar, de uma palavra ao grito que ouvimos
na solidão ao regressar, perdurando no gosto a sal.