Escrevo-te esta carta
porque são mais duras as palavras que guardamos dentro de nós. Essas palavras
às quais não permitimos pequenas fugas, muito menos gritos através das grades
que as aprisionam, por temermos a alteração de toda a nossa realidade se as
libertarmos e inevitavelmente nos tornarmos reféns do seu alcance. Não poderás
nunca saber o que sinto sob pena de todo este amor morrer aos pés da tua
renúncia. Talvez o meu medo de soçobrar perante a impossibilidade dos meus desejos
irrealizáveis seja maior que esta paixão que guardo secretamente por ti. Ainda
que estas páginas de papel nunca te manchem as mãos, é-me necessária esta
mecânica literária de exteriorizar o que não tem destino para ter a certeza de
que tudo isto não passa de uma fantasia que avassalou selvaticamente a minha consciência.
Por vezes imortalizamos os nossos sentimentos nos objetos que deixamos para
trás. Estas páginas serão o meu único e verdadeiro testemunho. Poderia
contar-te sobre como me é querida a rotina de ir ao teu encontro. A felicidade
de todos os dias entrar no edifício do escritório onde trabalhamos há cerca de seis
anos. Passar pelo vigilante desmaiado de tantos dias copiados na cúbica receção
aquário, inundada pela luz exterior. Subir pelo elevador e ir ao teu encontro,
como se de um verdadeiro encontro amoroso se tratasse. Poderia tentar
explicar-te em algumas linhas a sensação de ansiedade que me assalta por saber
que após a abertura das portas do elevador por onde fui subindo poderei finalmente
ver a tua face. Diariamente percorrer a pequena distância até à sala do estúdio
e procurar-te imediatamente dentro do espaço amplo, quase industrial. Quando te
encontro é a felicidade que me fala ainda que todas as vozes se calem à minha
volta. No meio de tantas pessoas que vão martelando os teclados dos computadores,
sentadas atrás das diversas secretárias perfeitamente alinhadas, danças por ali
de um lado para o outro perfeitamente harmoniosa, o teu rabo-de-cavalo a marcar
o ritmo dos teus passos e dos desejos percetíveis nos vários olhares que vão
atravessando a sala na direção do teu corpo feminino perfeitamente torneado. O
teu sorriso na minha direção, o bom-dia nos teus lábios sílaba, o meu nome
prolongando-se na tua voz são beijos sem contacto, são carícias sonhadoras. Eu
apenas posso admirar-te de uma distância involuta enquanto o meu coração
acelera descompassadamente indefinido. Compreenderias a minha angústia se
lesses estas folhas de papel, o meu testamento desse meu sentimento por ti, o
livro de instruções que descodifica o meu olhar alheado quando passas na minha
linha de visão, papéis na tua mão, um deles poderia ser a minha carta, tu a
distribuir cópias por todos os lados, o meu segredo desvendado na boca de toda
a gente e eu sem ter para onde fugir. Se lesses tu a minha carta terminarias as
suas linhas com um sorriso inesperado ou a rasgar esta inconfidência em mil
pedaços? Não tenho coragem para descobrir. Ainda que durante estes últimos
meses nos tenhamos aproximado mais do que alguma vez imaginei. Uma amizade a
crescer diariamente, nascida nos cafés da manhã na copa do escritório, onde fomos
revelando aos poucos partes de nós, velando segredos nos nossos cofres de
intimidade. Temo, para meu infortúnio, que tenhamos ido na direção errada. Chegas-me
a contar os teus desamores, os teus desaires do coração, os quais se cravam no
meu peito como facas. Seguro-te nas mãos, ouço-te pacientemente enquanto
lamentas a falta de sorte no amor. Rio-me para fora desse teu lamento e grito
por dentro enquanto afasto o cabelo do teu rosto. Pode ser que um dia ouças este
meu clamor surdo. Hoje voltou a acontecer novamente ainda mais intensamente.
Pensei em beijar-te enquanto vertias umas lágrimas por um desgraçado qualquer
não saber ver o que vejo a cada segundo. Recuarias perante o meu beijo ou render-se-iam
os teus lábios? Morro de desespero por não saber. A tua face estava tão próxima
que podia sentir o calor da tua respiração na minha face. Os nossos perfumes a
formarem uma nova fragância. O bater do teu coração a falar tão alto para
dentro das minhas mãos. O tempo repentinamente parado à nossa espera. Terei
fantasiado tudo na minha cabeça? Não sei. Resta-me este caminho. Esperar que
dês um passo adiante por não ter coragem de ser eu a fazê-lo. Sonhar com uma
paixão a nascer destemida no teu coração e que arrebate o meu de um só golpe.
Para já vou sobrevivendo com estes momentos em que na desculpa de um consolo
distribuo algumas cândidas carícias, abraço-te para dentro do meu peito sem saberes,
alimentando aos poucos um futuro alternativo. Guardo tudo nesta carta à qual provavelmente
nunca terás a oportunidade de responder. Não passa de um mero mecanismo de
sobrevivência. A ingenuidade da esperança. Porque por momentos, hoje, senti-te
minha. Como eu sou, fatalmente, tua.
Monday, November 18, 2019
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