Thursday, August 28, 2008

12 - Fragmentos

Até quando estes nossos fragmentos, soltos, sem sítio onde os deixarmos, pedaços do que nunca fomos guardados para mais tarde, até tarde ser uma palavra impossível de descrever, de sentir e voltar a viver. Estes fragmentos servindo-nos as medidas das memórias… memórias de paisagens loucas, de sublime torneadas, em tons de rosa carne, em tons de rosa sombra. Tudo numa noite e depois tantos fragmentos para juntar e fazer deles um único corpo, um único som ou tom, uma única palavra. Tantos fragmentos de palavras que não ousámos dizer, que não ousámos julgar nossas, nem sequer reclamar, mas que ainda assim estavam lá, entre nós, galgando os nossos tímidos gemidos, retendo-se no ínfimo espaço entre as faces quentes, no limiar das nossas expirações e confissões. Até quando estes nossos fragmentos, ancorados em nós como possibilidades ínfimas de sucesso, de expectativas por mais um minuto flamejante, sem o mundo em redor, suficiente para trair uma vez mais toda a tragédia desta nossa história. Somos fragmentos espalhados, a vida a ladear-nos os pormenores das nossas ausências secretas, de tantos segredos incontidos, de gestos tantas vezes silenciados. Até quando?... tantos fragmentos sem um caminho certo, sem um corpo crente, uma noite definitiva de longa, de longínqua, eterna. Que ambos somos feitos do véu que sobressai da noite, do seu ténue limite chegando de repente, dos seus silêncios obscuros e atraentes… a noite a escapar-nos lentamente como se escapasse de uma manhã, desfigurando as suas trevas para desaparecer impune no seu perfume. Percebemos tarde demais que sacrificámos o nosso tempo nos esforços impossíveis de nos perdermos apenas pelo prazer de nos encontrarmos de novo, de juntarmos à pressa os nossos fragmentos porque tudo em nós é uma simples e estranha noção, porque tudo em nós é um mero e cândido motivo, de fugas sem explicação, de um sobressaltado reencontro lascivo… E é o frio da manhã quem nos descobre as expressões inacabadas, das frágeis renúncias consecutivas, milhares de lágrimas guardadas. Peço-te que sejas minha, numa sinceridade de gesto aflito… que te entregues, que te guardes em mim ainda antes desta madrugada ser manhã quente, entrando por este quarto dentro com todo o seu calor e luz, ainda antes da realidade ser o som de um bater de porta quase silencioso, furtivo de inseguro. Nunca seremos só nós, ainda que nos queime a voz de gritarmos os nossos nomes em uníssono ou os nossos ombros se verguem sob o peso de fantasmas desiludidos. Sobrevivemos nestes fragmentos, carentes… da solidão, desferindo certeira todos os seus golpes profundos nos nossos corpos cada vez mais vazios, atravessando os nossos pequenos escudos, entrando-nos alma dentro para nos invadir e deixar cada vez menos de nós nestas quedas tão mal amparadas. Seremos fragmentos, em todos os nossos momentos… os beijos selados, as mãos amarradas, todos os castigos provados.