Terei tudo por dizer. Até que finalmente chegue o fim dos meus dias, temo que terei tudo por dizer. Atravesso o tempo como se fosse feito de uma espuma envolvente, de uma névoa infinita, como se o tempo não passasse de uma ilusão que me abraça e me desfaz num ser cada vez mais frágil de diluída ao longo destes dias que vão morrendo sem memória. Sou uma imagem que não existe. Um rosto transparente num corpo voluptuoso ardendo até à inevitável extinção. Nunca ninguém me perguntará onde, como ou quando. Todos os porquês serão postos de lado até um adeus ser demasiado pesado para ser pronunciado, acabando consumido na expiração compacta de quem não aguenta engolir palavras sem sentido a seco. Não importa. Serei tua. Pelo menos até daqui a pouco, até daqui a nada. Até que esta hora nos separe. Até lá vou-me protegendo de ti, refugiada em sorrisos cândidos, em jeitos sensuais cada vez mais enfraquecidos de repetidamente usados, até o tempo ser um minuto atrasado. Pelos corredores sedutores atraio a tua atenção, desfazendo a realidade com o meu corpo meio seda, meio deserto, onde te perdes… e chamo-te do fundo do meu quarto penumbra de onde só eu conheço o caminho de regresso. Nesse mundo seda ninguém me questionará os pensamentos, as palavras escondidas, os falsos testemunhos dos meus movimentos. Sou uma boneca de brincar deliciosamente tua, uma fantasia antecipadamente desnudada, o céu para lá do véu rasgado. Apenas nesta dimensão de corpos devassados e perdidos existo. Nesta dimensão onde o completo esquecimento é um refúgio seguro. O meu e o teu mundo ilibados… Prolongo a nossa união sem emoção até ser tarde demais e os minutos atrasados te empurrarem para fora daqui, para fora de mim. Sais, abandonando-me sem deixares qualquer perfume ou sabor. O adeus uma vez mais engolido a seco sem que outras palavras o acusem, a fechar-se lá fora após o bater da porta violento. Nunca ninguém me salvará. Apesar de conhecer mil faces perfeitas, mil perfis desenhados com a ponta dos meus dedos glaciais até serem perfeitos demais de cansados, ninguém me salvará. Somarei mil casos de amor e ninguém me salvará. Estarei inevitavelmente presa ao tempo que me abraça até ser algo muito frágil de diluída ao longo destes dias que vão morrendo sem memória, adornada de inconfessáveis momentos que me esmagam. Frágil… Não posso deixar de desejar desesperadamente por um momento verdadeiro ao servir mais uma vez a minha carne a troco de uma vida de ânimos adúlteros, não posso deixar de desejar um momento onde não seja apenas uma puta. O meu corpo aflige-se com todos os seus reflexos rosa carne como se todo ele fosse um crime, como se um suborno passado entre mãos finalmente me acusasse. Todo ele não passa de uma censura. Todos os meus movimentos de tão lentos apressando-te para me alcançar, o meu olhar despindo-te do que sabes ser transgressor, as minhas ancas terreno de mãos impotentes balouçando lamentos, os meus beijos onde há muito secaram as mil e uma palavras que falam de fronteiras por transpor e incendiando todos os sonhos que não me podes contar. Poderá alguém saber? Poderá alguém saber de mim? Suspendo o tempo onde não passo de uma história por contar. Regresso e volto a ser uma deusa de um reino vazio. Sorrio candidamente com este ar de quem já não se importa com nada porque nada é tudo a que tenho direito… E abro a porta a mais uma denúncia. Serás tu? Não… A história repetindo-se na minha pele sem que ninguém pare para escutar tudo o que tenho por dizer. Nunca ninguém escutará o que tenho por dizer. E um dia o tempo será para sempre um mundo atrasado.
Monday, May 5, 2008
Subscribe to:
Posts (Atom)
