Sunday, June 1, 2008

11 - Cópias

Já não sorris como antes. O teu sorriso não é mais do que um esgar forçado, enganado por uma face que não se conhece quando encontra um espelho demasiado sincero. Também sei que o meu sorriso já não é o mesmo. Também já me encontrei com esses espelhos sinceros que me miram de todos os lados, de todos os ângulos mortos. Por agora evito-os. Ocasionalmente também encontro passados a rir do fundo desses espelhos, risos jovens de outrora tão pouco parecidos com a nossa voz monocórdica. O meu e o teu riso a misturarem-se um no outro, lembrando canções. Canções encantadas pela tua voz doce onde o meu nome caía tão bem… Segui-te… Onde foi que chegámos? Aqui e mais longe não fomos. Desistimos. Sentados à beira desta mesa rectangular perfeitamente centrada na nossa cozinha, onde nos deparamos de frente com um tempo demasiado curto, um fôlego demasiado oprimido, suspensos neste espaço, neste pequeno compartimento revestido de uma pedra moderna de cinza, uma televisão quase muda lá num canto a divertir-se sozinha, uma janela por onde uma tímida luz nos invade como um sopro vago, móveis escuros abarrotados de pratos, de copos e de tantas outras coisas das quais vamos perdendo a memória e sentido da existência. Sinto como fossemos também peças de loiça fechadas nesses armários usadas apenas em ocasiões especiais de repetidas, em datas particulares de memórias quase apagadas, agarrados firmemente quando alguém nos lança a mão, na direcção do fundo do passado, encontrando-nos. Aquela travessa especial, aquele conjunto especial que se julgava esquecido. Somos nós. Regressando à vida em momentos pontuais de parágrafos abismo. Depois mais nada se espera de nós. Jantares em silêncio, a televisão a divertir-se sozinha, os miúdos a falarem entre eles de coisas que nos foge da sanidade demasiado ténue. Fantasmagoricamente atravessas-me com o olhar como se já não estivesse aqui. Serves a comida aos miúdos, as suas mãos pequenas estendidas para ti, os braços esticados à tua procura mesmo estando tu ali tão perto, à procura da vida que lhes deste porque tu saberás o que é a vida e todas as respostas estarão contigo. Serão eles as nossas âncoras, prendendo-nos, amarrando-nos um ao outro até os nossos perfumes de esgotados já não se distinguirem. Elogiam-nos à distância, as vozes agudinhas dos nossos amigos, quase desenhadas, acompanhando os apertos das suas bochechas elásticas… São perfeitos... Estes nossos filhos, estes produtos do nosso amor, são perfeitos. Tu porém aborreceste-te cada vez mais com as suas confusões, as suas birras, as suas traquinices. Esgotam-te. Chama-los à atenção por te sujarem a tolha lavada e acabada de colocar sobre a mesa, as nódoas de comida a sobreporem-se aos desenhos de frutos e legumes habilmente bordados. Acaba por ser uma história repetida… O pano António... Falas para mim como se não estivesse ali, como se já tivesse partido e tu chamasses um fantasma, trazendo-me de volta como uma figura encantada, sem canção encantada e o meu nome apenas a soar a cansaço. Estendo-te o pano e tu apanha-lo num estender de braço tenso, puxando-o agressivamente. Quase sigo atrás do pano. Segui-te. Onde foi que chegámos? A estas repetições de histórias. Por vezes ainda me lembro.... Sou eu, depois de tudo, ainda teu. Quero muito dizer-te que ainda sou eu. Dizer-te que chegado a casa, desejo despir-me para ti, libertar-me das minhas defesas. Dizer-te que por detrás desta minha linha segura, o cabelo tendencialmente e imaculadamente penteado para o lado direito da minha face brilhante, o sorriso gasto de Fausto, as roupas formais e sempre direitas dos músculos hoje cobardes, sorri a intenção maliciosa dos sonhos por tocar. Guardados no canto do meu olhar pecador, alimentados por cada curva sedutoramente desmaiada, cada peito voluptuoso balouçando livremente, cada par de pernas galopante, tão parecidos com os teus anos atrás. Guardados estes anseios para os consumir em ti, contigo. Que o calor sobe e ferve em mim sem que ainda assim uma pinga de suor indistinta me denuncie, que me transformo em dragão e serpente num só. Sem um destino, refugio-me nestas fantasias de uma vida inacabada. Terás de acordar para me ver. Já não posso deitar-me a teu lado e sentir-me como uma história de fim já conhecido. Todas as nossas palavras escritas nas nossas peles, rimadas de cor, sem sabor. O meu nome tatuado no teu peito, as suas cores atenuando-se, o seu som outrora teu soneto perdendo cada vez mais a definição de uma palavra gasta. Acorda e encontra a minha mão que procura o teu corpo durante noites a fim e eu sigo-te de novo. Até ao lugar onde nunca é tarde demais.