Friday, June 5, 2009

17 - Prisão Aberta

O céu explode em câmara lenta, de cores a delinear o rosto do sol deflagrado e propagando-se nos longos contornos de nuvens reluzentes… o mar vagueia igual no canto do nosso olhar, de ondas repetindo-se nas margens cansadas do seu castigo… apenas este horizonte interminável de areia morna sob os nossos pés descalços como mais um éden reconquistado. Tudo está perfeito como nunca o poderia ser neste nosso infinito fim. Os nossos corpos extinguidos da união laranja mel ainda tão latente, as nossas palavras pontuando cuidadosamente o silêncio como curiosos sorrisos tímidos de quem não se quer fazer notar, as mãos que se separam e não voltam a encontrar-se, mesmo tão intensamente perto, mesmo desejando de novo. Ainda reside entre nós este amor sem qualquer hipótese de sobrevivência que se esquece de morrer de vez. Para onde devo eu fugir de ti? Onde me esconder de ti, senão em ti uma vez mais? Encontras-me sempre entre as indecisões viciadas do teu corpo inquieto, absorves-me na tua mágoa oculta que se funde nas minhas mãos através da tua pele quente e escondes-me por detrás dos teus mais loucos desejos, também meus… hoje devorados uma vez mais pelo nosso oculto coração. E mesmo assim, mesmo depois dos longos dias magoados de não ser tua… sempre tu. Porquê amar-te tanto se tudo te distrai de mim? Poderia fugir agora, correr praia fora até seres uma recordação muito pequena, sem rosto nem forma definida… talvez nem notasses pela minha falta até te sentires novamente como um lobo faminto, procurando-me de sorriso rasgado e vagabundo, sufocando-me pelo nosso reencontro obrigatório. Fugiria desta prisão aberta que não tem mais do que os teus braços para me prender, para me agarrar e conter. Correria para longe até este horizonte amarelo de azul espelho ser o princípio de qualquer coisa indefinida de libertadora… o encontro de um novo rosto que me estranharia mas que me seguiria de enredado até um lugar incógnito sem qualquer vestígio do teu perfume inebriante a saturar o ar… e encontrar-me-ia distraída a revistar o nosso passado cúmplice numa rua por onde nunca tenhas passado a segredar-me romances, num quarto onde não me tenhas sorrido de cansado, num amor que não me esmagasse de impossível. Sei que não me pedirias para ficar, nem seguirias o meu rasto, porque não o sabes fazer, porque não te podes pretender. Mas ainda assim estou aqui, procurando a tua mão sem sequer me mexer, o meu rosto ainda pintado da união laranja mel a segredar-te sorrisos tímidos para me fazer notar. Não me atrevi a fugir, não corri por esta praia fora deixando a tua imagem lá atrás cada vez mais pequena, a cada passo célere tornando-te mais ténue de longínquo, uma recordação de pormenores dispersos e desconexos, escapando finalmente desta minha prisão sombra e luz. Mas depois de ti, mesmo depois de mais um dia magoado de não ter sido verdadeiramente tua… sempre tu. …O céu que não se deflagra de vez …o mar que torna a ouvir os meus segredos que tu tão bem conheces de teus, castigando-me de igual …apenas este éden reconquistado, sem horizontes por vencer. Não quero continuar a viver nesta prisão aberta, sem os teus braços para me prender, para me agarrar e conter, de me quereres por não saberes parar de me desejar.