Se sei, esqueci-me. Passados
trinta anos, esqueci-me. Passado o tempo do perfume das rosas que inundava o ar
que respirava, definitivamente, esqueci-me. Olho para ti sem que te apercebas
da minha vigilância plebeia, remetida ao meu canto, esquecida como se fosse uma
eterna peça de mobília que mesmo assim não se consegue descrever. Nunca te
apercebes. Esmagado na soberba do teu sofá, os teus olhos vagueiam minuciosamente
pelo jornal, absorvido pelas palavras de outros que são todas as que necessitas
para ires sobrepondo lentamente sobre as minhas até chegar o momento em que
nenhuma palavra minha fará qualquer sentido. Observo-te… as tuas rugas
marcam-te a face como caminhos, como cicatrizes das quais não existem memórias
de feridas, O teu cabelo perdeu a força e a juventude em alguns pontos do couro
cabeludo brilhante sem que dês grande importância ao facto, Nas mãos observo
como as veias ganham força sob a pele como cordas que vão amarrando o teu corpo
por dentro até irremediavelmente o sufocar um dia, Perdeste claramente alguma
da aquela tua atrativa robustez física que tão bem te distinguia e que chamava
a atenção de qualquer mulher que passava por ti na rua… a mim, para sempre.
Ainda assim, amo-te. Mas esqueci-me. Passados trinta anos, esqueci-me. Passado
o tempo do perfume de todas as rosas que inundava o ar que respirava, das
maiores e mais belas rosas, definitivamente, esqueci-me. Agora todo o cheiro
que emana do ar é o dos teus cigarros esmagados uns contra os outros no
cinzeiro arrasado… às vezes enojas-me. Isso também faz parte do amor? Enojas-me
sobretudo pela vida que vai ficando inutilmente por contar, ao ponto de ter
vontade de gritar um palavrão ou uma outra palavra qualquer que nos acorde aos
dois e que nos leve de volta ao que um dia tivemos e que foi só nosso. Uma
palavra mágica que encante este desencanto. Tenho vontade de te perguntar em
que ponto destes trinta anos tu seguiste para a esquerda e eu para a direita,
como foi que este pequeno espaço que nos separa se tornou num espaço sem
horizontes onde andamos sempre perdidos um do outro. Sinto que ambos temos uma
doença mortal… cada vez mais o nosso tempo limitado pelo tempo e nós sem fazer
nada. Tu a leres o jornal, a sobrepores palavras de outros sobre as minhas até
que me cale de vez, eu, distraída com a televisão, a única que fala nesta casa,
que diz piadinhas e disparates, que conta histórias, que inunda a casa com o
som de risos, ainda que nós não nos ríamos de nada. Tu que me dizias que o meu
riso se assemelhava a música! Dizias disparates deste género frequentemente…
dizias ainda mais disparates quando fazíamos amor. Tudo isso inundava o ar com o
perfume das rosas, das maiores e mais belas rosas, e eu esquecia que tu fumavas
e permitia o cheiro pestilento dos cigarros esmagados em todo o lado nos
cinzeiros arrasados. Agora quando ocasionalmente fazemos amor, já nem sei se o
fazes comigo, se fazes antes com as tuas fantasias incumpridas que não ousas
revelar, se fechas os olhos ou escondes a tua cara porque queres ali uma miúda
de vinte anos e não um corpo já desgastado, sem energia para séries de sexo
acrobático, sem a rigidez e os contornos de outros tempos e os quais te
deixavam completamente louco. Invariavelmente penetras-me quase sempre por
trás, sem que me tires a maior parte das peças de roupa que me cobre os anos,
como se fosses um animal que cumpre a sua função de cobrir, sem carinho, sem
uma palavra que inunde o ar com o perfume de rosas e faça o tempo perder conta
do seu fio condutor. Disparates. Tantos disparates… sei que também sou uma
cobarde, que não falo, que não grito um palavrão ou uma outra palavra qualquer
que nos acorde aos dois e que nos leve ao que tivemos e que foi só nosso. Uma
palavra mágica que encante este desencanto. Tenho medo de te ver partir todos
os dias quando sais para trabalhar e fechas a porta na cara da minha vigilância
plebeia, muito silenciosamente, sem uma palavra, como se fosses um gatuno com
medo de ser apanhado por mim. Tenho medo de que não voltes, que encontres uma
miúda de vinte anos e lhe digas uma série de disparates e ela acredite neles
como eu acreditei, que lhe inundes o ar com o perfume de rosas, mesmo que sejam
das mais pequenas, mas que sejam suficientes para ela não se aperceber do
cheiro dos teus cigarros. Por isso não falo, por isso permaneço em silêncio
sentada no sofá, fingindo estar ocupada com a televisão enquanto tu lês o
jornal, amontoando uma montanha de palavras cada vez maior sobre os disparates
que outrora me disseste porque talvez os queiras esquecer, por isso deixo que
me cubras como se ambos fossemos animais irracionais sem qualquer sentimento,
por isso deixo que finjas que sou uma miúda de vinte anos, por isso vejo-te
partir sem a certeza de um regresso. Tu sabes que te amo… não sabes? Eu sei que
me esqueci. Passado trinta anos, esqueci-me. Apenas sonho em silêncio com o
tempo das rosas, com as maiores, as mais belas, com o seu perfume a saturar-me,
por fora e por dentro. Por favor… lembra-me como foi. Tu ainda sabes como foi…
não sabes?
Thursday, January 31, 2008
3 - Sabes não Sabes?
Thursday, January 24, 2008
2 - Enquanto Dormes
Tu falas enquanto dormes. É comum
durante a noite já toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, acordares-me
com doutrinas murmuradas como numa conversa íntima de amantes. Revelas-me essas
palavras pela noite fora, codificando sonhos, provenientes da profundidade e
escuridão do sono, esperando que eu as oiça e agarre. Uma variedade de sons
desconexos, monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra
perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… a luz ténue dos candeeiros da
rua atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, revelando-a.
Mostra-me nos seus reflexos as tuas expressões, a intensidade com que se
deformam os sons e as palavras que vão saindo da tua boca. A tua face tornando
vivos os sons e crivando um contexto. Os sons balbuciados, que não fazem
sentido no plano de um quarto silencioso, esquecido como tantos outros no ventre
da noite toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, dançando, sussurrando,
adormecendo, levando-nos com ela. Resisto e perco-me nas horas das minhas insónias
a olhar para ti enquanto dormes, o teu corpo belo misturando-se nos contornos dos lençóis revoltos, levando-me a
ansiar por mais sons desconexos, eu a aprender línguas mortas e paralelas,
entusiasmado com uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, a delirar
com uma frase a sobressair neste meu silêncio secreto… tento perceber o que me
dizes, tento entrar nos teus sonhos à força, perceber as tuas preocupações,
afugentar os teus medos, guardar os teus segredos, junto dos meus. Vou perdendo
o rastro ao tempo, sobrevivendo a custo com a ajuda da luz ténue dos candeeiros
da rua que atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, como se
fosse uma carícia minha, tornando-te mais minha do que em qualquer outro
momento. Tu que agora me deixas a espaços com uma torrente de sons balbuciados
noite após noite, monólogos de línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra
perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… Por vezes frases, frases
desunidas que apanho como pedaços de nós, esperando que sobrevivam a nós, que revelem
o que fomos. Mas não consigo acompanhar-te. A tua intensidade invade-me e deixa-me
a lutar por mim... A noite sonâmbula finalmente desaparece. A infantilidade da madrugada
traz-te no seu regresso, os teus olhos abertos pelo toque do despertador
intruso, a luz densa do dia que atravessa a janela incisiva. Descobres os meus
olhos, também eles abertos e fixos em ti. Um bom-dia a correr, numa língua
morta e paralela a este plano, um beijo mal dado com sabor a sono. Já foges de
mim… Os sons do dia, todo ele braços e pernas, músculo, movimento, a entrarem
pela casa como intrusos inesperados. O som da água a perfurar torneiras, o som
da água a colidir intensamente no teu corpo, os teus pés húmidos a marcar o
chão de um lado para o outro num rasto confuso que não ouso perseguir, portas a
bater nesta e naquela divisão, a torradeira a fazer saltar fatias de pão
tostado como se fossem brinquedos atirados ao ar, peças de loiça primeiro sobre
a bancada da cozinha depois sobre a mesa da sala, a televisão a inundar
subitamente o ar de palavras estranhas, falando por nós, novamente os teus pés
de um lado para o outro, o som abafado da tua pele sobre o pavimento, um passo impaciente,
mais portas a bater, do quarto, do roupeiro cheio de eus e tus pendurados à
espera de sair dali a correr, a imagem cansada da casa de banho ainda húmida do
teu duche como se fosse suor, as gavetas da cómoda, toda uma sinfonia de sons e
vestígios que te levam dali para fora, uma vez mais os teus passos, agora
torturando os vizinhos com o som oco dos teus saltos altos, finalmente o tilintar
das tuas chaves de casa a assinalarem a antecipação da última porta que se
fecha, o final do agora, de mais este momento apressado. No fim de tudo, tantos
sons desconexos, nós a comunicarmos através de línguas mortas e paralelas sem
palavras, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível na minha mente que
não tem destino onde se fazer ouvir… Por vezes frases, frases que só fazem
sentido neste plano porque os nossos corpos por vezes colidem e não temos mais
nada para dizer, mas dizemos o que queremos ouvir. Oiço de ti uma despedida
fugitiva, duas pequenas palavras totalmente compreensíveis que conseguem inundar
o ar de solidão. A minha solidão. Mais uma porta que se fecha…. Fico ali a olhar
para aquela porta como se tivesses fechado um túmulo atrás de ti. Resta-me
saber que mais tarde a noite virá, toda ela corpo, de forma negra e silenciosa.
Com ela a luz ténue dos candeeiros da rua atravessando as janelas abertas,
incidindo sobre a tua face para te revelar no meu silêncio secreto dos teus sons
desconexos, dos teus monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra
palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase... alguém com quem eu
possa falar...
Monday, January 14, 2008
1 - Encontro Amoroso
Chego a casa depois de mais uma
passagem pelo sonâmbulo turno noturno que me absorveu nas longas horas da
noite, mastigando-me, degustando a minha resistência até ao último grito íntimo
de delírio. Abro e fecho a porta de entrada de casa tão silenciosamente como uma
verdadeira invasora… de vidas, de horas e horas perdidas, tempos trocados. Sei
que no escuro do quarto ainda dormes na nossa cama que tantas vezes sustenta a
solidão dos nossos corpos, um seguindo o outro, como confessores indignos dos
nossos próprios desejos. O cheiro do meu suor está colado na minha pele como se
fosse uma outra pele. Depois de pousar a mala no sofá, passo a mão pelo pescoço
e pela nuca, num gesto que tem tanto de carícia como de repelente, tentando
relaxar os músculos retesados, sacudindo depois as mãos como pudesse expulsar com
estes simples movimentos aparentemente aflitos, esta película invisível que me
arrasta continuamente numa sensação melancólica. Não posso. Nesse suor estão
dissolvidos todos os momentos da noite passada, todos os pensamentos que
absorvi no silêncio dos gemidos e dos lamentos forasteiros de perdidos, nos
sussurros de palavras irracionais de lúcidas. Não me recordo a última vez que
esqueci este cheiro, a última vez que percebi que não domina o meu sentido olfativo.
Não me é possível esquecê-lo nem nos poucos momentos de lazer, de descanso ou
simples alienação… porque tudo o que desejo é que o meu pensamento se perca e
se esqueça de mim, esqueça que tem uma dona, um comando ou rumo, que tem
sonhos, planos formulados e por formular, responsabilidades para demarcar de
tudo o resto, preocupações para tentar esquecer… Dispo-me lentamente aqui mesmo
na sala sempre fria de Invernos substituindo Invernos das solidões consecutivas
que nenhum verão como este consegue vencer. A roupa sobre o sofá como os
contornos de um fantasma de um tempo perdido. Entro na casa de banho lenta e
silenciosamente, invejando fantasmas e invado a banheira túmulo. A água morna
abraça o meu corpo e esconde todo o meu cansaço por pequenos momentos. O vapor
esconde-me e afasta-me do mundo. Leva-me para um lugar onde não existo e de
onde não quereria voltar, apenas para ser tua novamente. A água leva parte deste
peso, de noites a alimentar esperanças que não são minhas, de vidas prestes a
terminar nas minhas mãos, de lamentos que acabam por ser também um pouco meus.
O que realmente se perde nas lágrimas? Por fim renascida, invado o nosso
quarto, silenciosamente e vejo-te, ali tão perto, misturado na roupa de cama
como se tivesses lutado toda a noite. Não suportas o calor dos verões, debates-te
toda a noite na tentativa de te libertares dele. Não consegues… olho para o
relógio da cómoda e percebo que falta apenas um minuto para despertares com o
despertador. Desligo-o furtivamente e deito-me na cama ao teu lado sem que
sintas a minha presença. Por um momento apenas. Serei tua novamente, no dia em
que o tempo não nos diga que é tarde demais... abres os teus olhos e estou ali,
mesmo no teu raio de ação. O tempo já a correr contra nós. Estamos ambos
despidos, frente a frente como não estamos há muito tempo, há demasiado tempo.
Desejo-te. Sei que talvez não consigas compreender este momento. Sei que estou
perdida há muito tempo. Sentes a minha respiração pesada sobrepondo-se à tua de
uma maneira cavalgante, como se lutasse para libertar toda a minha vontade. Não
posso. Agarras-me pelo braço decidido e puxas-me para junto de ti. Por momentos
a sensação da tua pele sabe-me a salvação, a Santo Graal, a maneira como me agarras
num movimento só e me esmagas junto ao teu peito parece-me uma colisão divina.
Não demora muito até que as tuas pernas deslizem para junto das minhas e o teu
sexo entre no meu sem que digas qualquer palavra, nem sequer entre beijos.
Primeiro devagar, seguro, depois com mais vigor. Primeiro de lado, depois
puxando-me para o teu colo. Não podes saber o que quero e preciso. O que ambos
precisamos. Este ato em si destrói-me até me libertar. O teu vigor, a tua
vontade, os teus músculos retesados como estivesses nervoso ou tenso, como
lutasses novamente durante a noite para te libertares do calor que te invade.
Não consegues… impeles sim uma e outra vez o teu sexo no meu, dentro do meu,
até ser meu também. As tuas mãos nas minhas nádegas, forçando o meu corpo a
balançar sobre o teu. Cada vez mais longe. Estou tão cansada. A noite anterior,
todas as noites que perdemos, todos os nossos desencontros a atirarem-me
finalmente ao chão. Todas as noites novamente perdidas. Sinto que estivemos
longe e que nos mantemos assim desde então, mesmo agora quando o amor cresce
entre nós dois de uma forma desgovernada, como fosse um mal-entendido, e, ainda
assim incontrolável. Cada vez com mais força. Encontrámo-nos. Cubro a face com
uma das mãos e choro quando sinto o orgasmo inundar-me de uma torrente só, a
sensação de calor a partir do meu sexo, espalhando-se pelo resto do corpo. Bato
no teu peito e tu gritas e gemes de uma maneira rouca. Nem te apercebes que
choro. Nem sei se realmente estamos aqui os dois. Eu subi de uma realidade
qualquer, tu desceste de um sonho descalço. Estamos ambos neste plano por um
tempo determinado e ínfimo, finito. O suficiente para este pequeno encontro
amoroso. Ouço ainda palavras de eterno amor na tua voz sussurrada, chamando-me
para perto, enquanto me abraças numa prisão de pulsações. O nosso tempo acabou.
