Thursday, January 31, 2008

3 - Sabes não Sabes?

Se sei, esqueci-me. Passados trinta anos, esqueci-me. Passado o tempo do perfume das rosas que inundava o ar que respirava, definitivamente, esqueci-me. Olho para ti sem que te apercebas da minha vigilância plebeia, remetida ao meu canto, esquecida como se fosse uma eterna peça de mobília que mesmo assim não se consegue descrever. Nunca te apercebes. Esmagado na soberba do teu sofá, os teus olhos vagueiam minuciosamente pelo jornal, absorvido pelas palavras de outros que são todas as que necessitas para ires sobrepondo lentamente sobre as minhas até chegar o momento em que nenhuma palavra minha fará qualquer sentido. Observo-te… as tuas rugas marcam-te a face como caminhos, como cicatrizes das quais não existem memórias de feridas, O teu cabelo perdeu a força e a juventude em alguns pontos do couro cabeludo brilhante sem que dês grande importância ao facto, Nas mãos observo como as veias ganham força sob a pele como cordas que vão amarrando o teu corpo por dentro até irremediavelmente o sufocar um dia, Perdeste claramente alguma da aquela tua atrativa robustez física que tão bem te distinguia e que chamava a atenção de qualquer mulher que passava por ti na rua… a mim, para sempre. Ainda assim, amo-te. Mas esqueci-me. Passados trinta anos, esqueci-me. Passado o tempo do perfume de todas as rosas que inundava o ar que respirava, das maiores e mais belas rosas, definitivamente, esqueci-me. Agora todo o cheiro que emana do ar é o dos teus cigarros esmagados uns contra os outros no cinzeiro arrasado… às vezes enojas-me. Isso também faz parte do amor? Enojas-me sobretudo pela vida que vai ficando inutilmente por contar, ao ponto de ter vontade de gritar um palavrão ou uma outra palavra qualquer que nos acorde aos dois e que nos leve de volta ao que um dia tivemos e que foi só nosso. Uma palavra mágica que encante este desencanto. Tenho vontade de te perguntar em que ponto destes trinta anos tu seguiste para a esquerda e eu para a direita, como foi que este pequeno espaço que nos separa se tornou num espaço sem horizontes onde andamos sempre perdidos um do outro. Sinto que ambos temos uma doença mortal… cada vez mais o nosso tempo limitado pelo tempo e nós sem fazer nada. Tu a leres o jornal, a sobrepores palavras de outros sobre as minhas até que me cale de vez, eu, distraída com a televisão, a única que fala nesta casa, que diz piadinhas e disparates, que conta histórias, que inunda a casa com o som de risos, ainda que nós não nos ríamos de nada. Tu que me dizias que o meu riso se assemelhava a música! Dizias disparates deste género frequentemente… dizias ainda mais disparates quando fazíamos amor. Tudo isso inundava o ar com o perfume das rosas, das maiores e mais belas rosas, e eu esquecia que tu fumavas e permitia o cheiro pestilento dos cigarros esmagados em todo o lado nos cinzeiros arrasados. Agora quando ocasionalmente fazemos amor, já nem sei se o fazes comigo, se fazes antes com as tuas fantasias incumpridas que não ousas revelar, se fechas os olhos ou escondes a tua cara porque queres ali uma miúda de vinte anos e não um corpo já desgastado, sem energia para séries de sexo acrobático, sem a rigidez e os contornos de outros tempos e os quais te deixavam completamente louco. Invariavelmente penetras-me quase sempre por trás, sem que me tires a maior parte das peças de roupa que me cobre os anos, como se fosses um animal que cumpre a sua função de cobrir, sem carinho, sem uma palavra que inunde o ar com o perfume de rosas e faça o tempo perder conta do seu fio condutor. Disparates. Tantos disparates… sei que também sou uma cobarde, que não falo, que não grito um palavrão ou uma outra palavra qualquer que nos acorde aos dois e que nos leve ao que tivemos e que foi só nosso. Uma palavra mágica que encante este desencanto. Tenho medo de te ver partir todos os dias quando sais para trabalhar e fechas a porta na cara da minha vigilância plebeia, muito silenciosamente, sem uma palavra, como se fosses um gatuno com medo de ser apanhado por mim. Tenho medo de que não voltes, que encontres uma miúda de vinte anos e lhe digas uma série de disparates e ela acredite neles como eu acreditei, que lhe inundes o ar com o perfume de rosas, mesmo que sejam das mais pequenas, mas que sejam suficientes para ela não se aperceber do cheiro dos teus cigarros. Por isso não falo, por isso permaneço em silêncio sentada no sofá, fingindo estar ocupada com a televisão enquanto tu lês o jornal, amontoando uma montanha de palavras cada vez maior sobre os disparates que outrora me disseste porque talvez os queiras esquecer, por isso deixo que me cubras como se ambos fossemos animais irracionais sem qualquer sentimento, por isso deixo que finjas que sou uma miúda de vinte anos, por isso vejo-te partir sem a certeza de um regresso. Tu sabes que te amo… não sabes? Eu sei que me esqueci. Passado trinta anos, esqueci-me. Apenas sonho em silêncio com o tempo das rosas, com as maiores, as mais belas, com o seu perfume a saturar-me, por fora e por dentro. Por favor… lembra-me como foi. Tu ainda sabes como foi… não sabes?

Thursday, January 24, 2008

2 - Enquanto Dormes

Tu falas enquanto dormes. É comum durante a noite já toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, acordares-me com doutrinas murmuradas como numa conversa íntima de amantes. Revelas-me essas palavras pela noite fora, codificando sonhos, provenientes da profundidade e escuridão do sono, esperando que eu as oiça e agarre. Uma variedade de sons desconexos, monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… a luz ténue dos candeeiros da rua atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, revelando-a. Mostra-me nos seus reflexos as tuas expressões, a intensidade com que se deformam os sons e as palavras que vão saindo da tua boca. A tua face tornando vivos os sons e crivando um contexto. Os sons balbuciados, que não fazem sentido no plano de um quarto silencioso, esquecido como tantos outros no ventre da noite toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, dançando, sussurrando, adormecendo, levando-nos com ela. Resisto e perco-me nas horas das minhas insónias a olhar para ti enquanto dormes, o teu corpo belo misturando-se nos  contornos dos lençóis revoltos, levando-me a ansiar por mais sons desconexos, eu a aprender línguas mortas e paralelas, entusiasmado com uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, a delirar com uma frase a sobressair neste meu silêncio secreto… tento perceber o que me dizes, tento entrar nos teus sonhos à força, perceber as tuas preocupações, afugentar os teus medos, guardar os teus segredos, junto dos meus. Vou perdendo o rastro ao tempo, sobrevivendo a custo com a ajuda da luz ténue dos candeeiros da rua que atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, como se fosse uma carícia minha, tornando-te mais minha do que em qualquer outro momento. Tu que agora me deixas a espaços com uma torrente de sons balbuciados noite após noite, monólogos de línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… Por vezes frases, frases desunidas que apanho como pedaços de nós, esperando que sobrevivam a nós, que revelem o que fomos. Mas não consigo acompanhar-te. A tua intensidade invade-me e deixa-me a lutar por mim... A noite sonâmbula finalmente desaparece. A infantilidade da madrugada traz-te no seu regresso, os teus olhos abertos pelo toque do despertador intruso, a luz densa do dia que atravessa a janela incisiva. Descobres os meus olhos, também eles abertos e fixos em ti. Um bom-dia a correr, numa língua morta e paralela a este plano, um beijo mal dado com sabor a sono. Já foges de mim… Os sons do dia, todo ele braços e pernas, músculo, movimento, a entrarem pela casa como intrusos inesperados. O som da água a perfurar torneiras, o som da água a colidir intensamente no teu corpo, os teus pés húmidos a marcar o chão de um lado para o outro num rasto confuso que não ouso perseguir, portas a bater nesta e naquela divisão, a torradeira a fazer saltar fatias de pão tostado como se fossem brinquedos atirados ao ar, peças de loiça primeiro sobre a bancada da cozinha depois sobre a mesa da sala, a televisão a inundar subitamente o ar de palavras estranhas, falando por nós, novamente os teus pés de um lado para o outro, o som abafado da tua pele sobre o pavimento, um passo impaciente, mais portas a bater, do quarto, do roupeiro cheio de eus e tus pendurados à espera de sair dali a correr, a imagem cansada da casa de banho ainda húmida do teu duche como se fosse suor, as gavetas da cómoda, toda uma sinfonia de sons e vestígios que te levam dali para fora, uma vez mais os teus passos, agora torturando os vizinhos com o som oco dos teus saltos altos, finalmente o tilintar das tuas chaves de casa a assinalarem a antecipação da última porta que se fecha, o final do agora, de mais este momento apressado. No fim de tudo, tantos sons desconexos, nós a comunicarmos através de línguas mortas e paralelas sem palavras, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível na minha mente que não tem destino onde se fazer ouvir… Por vezes frases, frases que só fazem sentido neste plano porque os nossos corpos por vezes colidem e não temos mais nada para dizer, mas dizemos o que queremos ouvir. Oiço de ti uma despedida fugitiva, duas pequenas palavras totalmente compreensíveis que conseguem inundar o ar de solidão. A minha solidão. Mais uma porta que se fecha…. Fico ali a olhar para aquela porta como se tivesses fechado um túmulo atrás de ti. Resta-me saber que mais tarde a noite virá, toda ela corpo, de forma negra e silenciosa. Com ela a luz ténue dos candeeiros da rua atravessando as janelas abertas, incidindo sobre a tua face para te revelar no meu silêncio secreto dos teus sons desconexos, dos teus monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase... alguém com quem eu possa falar... 

Monday, January 14, 2008

1 - Encontro Amoroso

Chego a casa depois de mais uma passagem pelo sonâmbulo turno noturno que me absorveu nas longas horas da noite, mastigando-me, degustando a minha resistência até ao último grito íntimo de delírio. Abro e fecho a porta de entrada de casa tão silenciosamente como uma verdadeira invasora… de vidas, de horas e horas perdidas, tempos trocados. Sei que no escuro do quarto ainda dormes na nossa cama que tantas vezes sustenta a solidão dos nossos corpos, um seguindo o outro, como confessores indignos dos nossos próprios desejos. O cheiro do meu suor está colado na minha pele como se fosse uma outra pele. Depois de pousar a mala no sofá, passo a mão pelo pescoço e pela nuca, num gesto que tem tanto de carícia como de repelente, tentando relaxar os músculos retesados, sacudindo depois as mãos como pudesse expulsar com estes simples movimentos aparentemente aflitos, esta película invisível que me arrasta continuamente numa sensação melancólica. Não posso. Nesse suor estão dissolvidos todos os momentos da noite passada, todos os pensamentos que absorvi no silêncio dos gemidos e dos lamentos forasteiros de perdidos, nos sussurros de palavras irracionais de lúcidas. Não me recordo a última vez que esqueci este cheiro, a última vez que percebi que não domina o meu sentido olfativo. Não me é possível esquecê-lo nem nos poucos momentos de lazer, de descanso ou simples alienação… porque tudo o que desejo é que o meu pensamento se perca e se esqueça de mim, esqueça que tem uma dona, um comando ou rumo, que tem sonhos, planos formulados e por formular, responsabilidades para demarcar de tudo o resto, preocupações para tentar esquecer… Dispo-me lentamente aqui mesmo na sala sempre fria de Invernos substituindo Invernos das solidões consecutivas que nenhum verão como este consegue vencer. A roupa sobre o sofá como os contornos de um fantasma de um tempo perdido. Entro na casa de banho lenta e silenciosamente, invejando fantasmas e invado a banheira túmulo. A água morna abraça o meu corpo e esconde todo o meu cansaço por pequenos momentos. O vapor esconde-me e afasta-me do mundo. Leva-me para um lugar onde não existo e de onde não quereria voltar, apenas para ser tua novamente. A água leva parte deste peso, de noites a alimentar esperanças que não são minhas, de vidas prestes a terminar nas minhas mãos, de lamentos que acabam por ser também um pouco meus. O que realmente se perde nas lágrimas? Por fim renascida, invado o nosso quarto, silenciosamente e vejo-te, ali tão perto, misturado na roupa de cama como se tivesses lutado toda a noite. Não suportas o calor dos verões, debates-te toda a noite na tentativa de te libertares dele. Não consegues… olho para o relógio da cómoda e percebo que falta apenas um minuto para despertares com o despertador. Desligo-o furtivamente e deito-me na cama ao teu lado sem que sintas a minha presença. Por um momento apenas. Serei tua novamente, no dia em que o tempo não nos diga que é tarde demais... abres os teus olhos e estou ali, mesmo no teu raio de ação. O tempo já a correr contra nós. Estamos ambos despidos, frente a frente como não estamos há muito tempo, há demasiado tempo. Desejo-te. Sei que talvez não consigas compreender este momento. Sei que estou perdida há muito tempo. Sentes a minha respiração pesada sobrepondo-se à tua de uma maneira cavalgante, como se lutasse para libertar toda a minha vontade. Não posso. Agarras-me pelo braço decidido e puxas-me para junto de ti. Por momentos a sensação da tua pele sabe-me a salvação, a Santo Graal, a maneira como me agarras num movimento só e me esmagas junto ao teu peito parece-me uma colisão divina. Não demora muito até que as tuas pernas deslizem para junto das minhas e o teu sexo entre no meu sem que digas qualquer palavra, nem sequer entre beijos. Primeiro devagar, seguro, depois com mais vigor. Primeiro de lado, depois puxando-me para o teu colo. Não podes saber o que quero e preciso. O que ambos precisamos. Este ato em si destrói-me até me libertar. O teu vigor, a tua vontade, os teus músculos retesados como estivesses nervoso ou tenso, como lutasses novamente durante a noite para te libertares do calor que te invade. Não consegues… impeles sim uma e outra vez o teu sexo no meu, dentro do meu, até ser meu também. As tuas mãos nas minhas nádegas, forçando o meu corpo a balançar sobre o teu. Cada vez mais longe. Estou tão cansada. A noite anterior, todas as noites que perdemos, todos os nossos desencontros a atirarem-me finalmente ao chão. Todas as noites novamente perdidas. Sinto que estivemos longe e que nos mantemos assim desde então, mesmo agora quando o amor cresce entre nós dois de uma forma desgovernada, como fosse um mal-entendido, e, ainda assim incontrolável. Cada vez com mais força. Encontrámo-nos. Cubro a face com uma das mãos e choro quando sinto o orgasmo inundar-me de uma torrente só, a sensação de calor a partir do meu sexo, espalhando-se pelo resto do corpo. Bato no teu peito e tu gritas e gemes de uma maneira rouca. Nem te apercebes que choro. Nem sei se realmente estamos aqui os dois. Eu subi de uma realidade qualquer, tu desceste de um sonho descalço. Estamos ambos neste plano por um tempo determinado e ínfimo, finito. O suficiente para este pequeno encontro amoroso. Ouço ainda palavras de eterno amor na tua voz sussurrada, chamando-me para perto, enquanto me abraças numa prisão de pulsações. O nosso tempo acabou.

Saturday, January 12, 2008