Monday, January 14, 2008

1 - Encontro Amoroso

Chego a casa depois de mais uma passagem pelo sonâmbulo turno noturno que me absorveu nas longas horas da noite, mastigando-me, degustando a minha resistência até ao último grito íntimo de delírio. Abro e fecho a porta de entrada de casa tão silenciosamente como uma verdadeira invasora… de vidas, de horas e horas perdidas, tempos trocados. Sei que no escuro do quarto ainda dormes na nossa cama que tantas vezes sustenta a solidão dos nossos corpos, um seguindo o outro, como confessores indignos dos nossos próprios desejos. O cheiro do meu suor está colado na minha pele como se fosse uma outra pele. Depois de pousar a mala no sofá, passo a mão pelo pescoço e pela nuca, num gesto que tem tanto de carícia como de repelente, tentando relaxar os músculos retesados, sacudindo depois as mãos como pudesse expulsar com estes simples movimentos aparentemente aflitos, esta película invisível que me arrasta continuamente numa sensação melancólica. Não posso. Nesse suor estão dissolvidos todos os momentos da noite passada, todos os pensamentos que absorvi no silêncio dos gemidos e dos lamentos forasteiros de perdidos, nos sussurros de palavras irracionais de lúcidas. Não me recordo a última vez que esqueci este cheiro, a última vez que percebi que não domina o meu sentido olfativo. Não me é possível esquecê-lo nem nos poucos momentos de lazer, de descanso ou simples alienação… porque tudo o que desejo é que o meu pensamento se perca e se esqueça de mim, esqueça que tem uma dona, um comando ou rumo, que tem sonhos, planos formulados e por formular, responsabilidades para demarcar de tudo o resto, preocupações para tentar esquecer… Dispo-me lentamente aqui mesmo na sala sempre fria de Invernos substituindo Invernos das solidões consecutivas que nenhum verão como este consegue vencer. A roupa sobre o sofá como os contornos de um fantasma de um tempo perdido. Entro na casa de banho lenta e silenciosamente, invejando fantasmas e invado a banheira túmulo. A água morna abraça o meu corpo e esconde todo o meu cansaço por pequenos momentos. O vapor esconde-me e afasta-me do mundo. Leva-me para um lugar onde não existo e de onde não quereria voltar, apenas para ser tua novamente. A água leva parte deste peso, de noites a alimentar esperanças que não são minhas, de vidas prestes a terminar nas minhas mãos, de lamentos que acabam por ser também um pouco meus. O que realmente se perde nas lágrimas? Por fim renascida, invado o nosso quarto, silenciosamente e vejo-te, ali tão perto, misturado na roupa de cama como se tivesses lutado toda a noite. Não suportas o calor dos verões, debates-te toda a noite na tentativa de te libertares dele. Não consegues… olho para o relógio da cómoda e percebo que falta apenas um minuto para despertares com o despertador. Desligo-o furtivamente e deito-me na cama ao teu lado sem que sintas a minha presença. Por um momento apenas. Serei tua novamente, no dia em que o tempo não nos diga que é tarde demais... abres os teus olhos e estou ali, mesmo no teu raio de ação. O tempo já a correr contra nós. Estamos ambos despidos, frente a frente como não estamos há muito tempo, há demasiado tempo. Desejo-te. Sei que talvez não consigas compreender este momento. Sei que estou perdida há muito tempo. Sentes a minha respiração pesada sobrepondo-se à tua de uma maneira cavalgante, como se lutasse para libertar toda a minha vontade. Não posso. Agarras-me pelo braço decidido e puxas-me para junto de ti. Por momentos a sensação da tua pele sabe-me a salvação, a Santo Graal, a maneira como me agarras num movimento só e me esmagas junto ao teu peito parece-me uma colisão divina. Não demora muito até que as tuas pernas deslizem para junto das minhas e o teu sexo entre no meu sem que digas qualquer palavra, nem sequer entre beijos. Primeiro devagar, seguro, depois com mais vigor. Primeiro de lado, depois puxando-me para o teu colo. Não podes saber o que quero e preciso. O que ambos precisamos. Este ato em si destrói-me até me libertar. O teu vigor, a tua vontade, os teus músculos retesados como estivesses nervoso ou tenso, como lutasses novamente durante a noite para te libertares do calor que te invade. Não consegues… impeles sim uma e outra vez o teu sexo no meu, dentro do meu, até ser meu também. As tuas mãos nas minhas nádegas, forçando o meu corpo a balançar sobre o teu. Cada vez mais longe. Estou tão cansada. A noite anterior, todas as noites que perdemos, todos os nossos desencontros a atirarem-me finalmente ao chão. Todas as noites novamente perdidas. Sinto que estivemos longe e que nos mantemos assim desde então, mesmo agora quando o amor cresce entre nós dois de uma forma desgovernada, como fosse um mal-entendido, e, ainda assim incontrolável. Cada vez com mais força. Encontrámo-nos. Cubro a face com uma das mãos e choro quando sinto o orgasmo inundar-me de uma torrente só, a sensação de calor a partir do meu sexo, espalhando-se pelo resto do corpo. Bato no teu peito e tu gritas e gemes de uma maneira rouca. Nem te apercebes que choro. Nem sei se realmente estamos aqui os dois. Eu subi de uma realidade qualquer, tu desceste de um sonho descalço. Estamos ambos neste plano por um tempo determinado e ínfimo, finito. O suficiente para este pequeno encontro amoroso. Ouço ainda palavras de eterno amor na tua voz sussurrada, chamando-me para perto, enquanto me abraças numa prisão de pulsações. O nosso tempo acabou.

1 comment:

Unknown said...

Ola Miguel! É a primeira vez que aqui passo e certamente não será a ultima. Quanto a este teu texto consigo comenta-lo numa so palavra: BRILHANTE!!! Tens um estilo de escrita especial e unico. Parabéns! Vou continuar a ler "as palavras que nunca serão minhas"

Sílvia