Chego a casa depois de mais uma
passagem pelo sonâmbulo turno noturno que me absorveu nas longas horas da
noite, mastigando-me, degustando a minha resistência até ao último grito íntimo
de delírio. Abro e fecho a porta de entrada de casa tão silenciosamente como uma
verdadeira invasora… de vidas, de horas e horas perdidas, tempos trocados. Sei
que no escuro do quarto ainda dormes na nossa cama que tantas vezes sustenta a
solidão dos nossos corpos, um seguindo o outro, como confessores indignos dos
nossos próprios desejos. O cheiro do meu suor está colado na minha pele como se
fosse uma outra pele. Depois de pousar a mala no sofá, passo a mão pelo pescoço
e pela nuca, num gesto que tem tanto de carícia como de repelente, tentando
relaxar os músculos retesados, sacudindo depois as mãos como pudesse expulsar com
estes simples movimentos aparentemente aflitos, esta película invisível que me
arrasta continuamente numa sensação melancólica. Não posso. Nesse suor estão
dissolvidos todos os momentos da noite passada, todos os pensamentos que
absorvi no silêncio dos gemidos e dos lamentos forasteiros de perdidos, nos
sussurros de palavras irracionais de lúcidas. Não me recordo a última vez que
esqueci este cheiro, a última vez que percebi que não domina o meu sentido olfativo.
Não me é possível esquecê-lo nem nos poucos momentos de lazer, de descanso ou
simples alienação… porque tudo o que desejo é que o meu pensamento se perca e
se esqueça de mim, esqueça que tem uma dona, um comando ou rumo, que tem
sonhos, planos formulados e por formular, responsabilidades para demarcar de
tudo o resto, preocupações para tentar esquecer… Dispo-me lentamente aqui mesmo
na sala sempre fria de Invernos substituindo Invernos das solidões consecutivas
que nenhum verão como este consegue vencer. A roupa sobre o sofá como os
contornos de um fantasma de um tempo perdido. Entro na casa de banho lenta e
silenciosamente, invejando fantasmas e invado a banheira túmulo. A água morna
abraça o meu corpo e esconde todo o meu cansaço por pequenos momentos. O vapor
esconde-me e afasta-me do mundo. Leva-me para um lugar onde não existo e de
onde não quereria voltar, apenas para ser tua novamente. A água leva parte deste
peso, de noites a alimentar esperanças que não são minhas, de vidas prestes a
terminar nas minhas mãos, de lamentos que acabam por ser também um pouco meus.
O que realmente se perde nas lágrimas? Por fim renascida, invado o nosso
quarto, silenciosamente e vejo-te, ali tão perto, misturado na roupa de cama
como se tivesses lutado toda a noite. Não suportas o calor dos verões, debates-te
toda a noite na tentativa de te libertares dele. Não consegues… olho para o
relógio da cómoda e percebo que falta apenas um minuto para despertares com o
despertador. Desligo-o furtivamente e deito-me na cama ao teu lado sem que
sintas a minha presença. Por um momento apenas. Serei tua novamente, no dia em
que o tempo não nos diga que é tarde demais... abres os teus olhos e estou ali,
mesmo no teu raio de ação. O tempo já a correr contra nós. Estamos ambos
despidos, frente a frente como não estamos há muito tempo, há demasiado tempo.
Desejo-te. Sei que talvez não consigas compreender este momento. Sei que estou
perdida há muito tempo. Sentes a minha respiração pesada sobrepondo-se à tua de
uma maneira cavalgante, como se lutasse para libertar toda a minha vontade. Não
posso. Agarras-me pelo braço decidido e puxas-me para junto de ti. Por momentos
a sensação da tua pele sabe-me a salvação, a Santo Graal, a maneira como me agarras
num movimento só e me esmagas junto ao teu peito parece-me uma colisão divina.
Não demora muito até que as tuas pernas deslizem para junto das minhas e o teu
sexo entre no meu sem que digas qualquer palavra, nem sequer entre beijos.
Primeiro devagar, seguro, depois com mais vigor. Primeiro de lado, depois
puxando-me para o teu colo. Não podes saber o que quero e preciso. O que ambos
precisamos. Este ato em si destrói-me até me libertar. O teu vigor, a tua
vontade, os teus músculos retesados como estivesses nervoso ou tenso, como
lutasses novamente durante a noite para te libertares do calor que te invade.
Não consegues… impeles sim uma e outra vez o teu sexo no meu, dentro do meu,
até ser meu também. As tuas mãos nas minhas nádegas, forçando o meu corpo a
balançar sobre o teu. Cada vez mais longe. Estou tão cansada. A noite anterior,
todas as noites que perdemos, todos os nossos desencontros a atirarem-me
finalmente ao chão. Todas as noites novamente perdidas. Sinto que estivemos
longe e que nos mantemos assim desde então, mesmo agora quando o amor cresce
entre nós dois de uma forma desgovernada, como fosse um mal-entendido, e, ainda
assim incontrolável. Cada vez com mais força. Encontrámo-nos. Cubro a face com
uma das mãos e choro quando sinto o orgasmo inundar-me de uma torrente só, a
sensação de calor a partir do meu sexo, espalhando-se pelo resto do corpo. Bato
no teu peito e tu gritas e gemes de uma maneira rouca. Nem te apercebes que
choro. Nem sei se realmente estamos aqui os dois. Eu subi de uma realidade
qualquer, tu desceste de um sonho descalço. Estamos ambos neste plano por um
tempo determinado e ínfimo, finito. O suficiente para este pequeno encontro
amoroso. Ouço ainda palavras de eterno amor na tua voz sussurrada, chamando-me
para perto, enquanto me abraças numa prisão de pulsações. O nosso tempo acabou.
Monday, January 14, 2008
1 - Encontro Amoroso
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1 comment:
Ola Miguel! É a primeira vez que aqui passo e certamente não será a ultima. Quanto a este teu texto consigo comenta-lo numa so palavra: BRILHANTE!!! Tens um estilo de escrita especial e unico. Parabéns! Vou continuar a ler "as palavras que nunca serão minhas"
Sílvia
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