Thursday, January 24, 2008

2 - Enquanto Dormes

Tu falas enquanto dormes. É comum durante a noite já toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, acordares-me com doutrinas murmuradas como numa conversa íntima de amantes. Revelas-me essas palavras pela noite fora, codificando sonhos, provenientes da profundidade e escuridão do sono, esperando que eu as oiça e agarre. Uma variedade de sons desconexos, monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… a luz ténue dos candeeiros da rua atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, revelando-a. Mostra-me nos seus reflexos as tuas expressões, a intensidade com que se deformam os sons e as palavras que vão saindo da tua boca. A tua face tornando vivos os sons e crivando um contexto. Os sons balbuciados, que não fazem sentido no plano de um quarto silencioso, esquecido como tantos outros no ventre da noite toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, dançando, sussurrando, adormecendo, levando-nos com ela. Resisto e perco-me nas horas das minhas insónias a olhar para ti enquanto dormes, o teu corpo belo misturando-se nos  contornos dos lençóis revoltos, levando-me a ansiar por mais sons desconexos, eu a aprender línguas mortas e paralelas, entusiasmado com uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, a delirar com uma frase a sobressair neste meu silêncio secreto… tento perceber o que me dizes, tento entrar nos teus sonhos à força, perceber as tuas preocupações, afugentar os teus medos, guardar os teus segredos, junto dos meus. Vou perdendo o rastro ao tempo, sobrevivendo a custo com a ajuda da luz ténue dos candeeiros da rua que atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, como se fosse uma carícia minha, tornando-te mais minha do que em qualquer outro momento. Tu que agora me deixas a espaços com uma torrente de sons balbuciados noite após noite, monólogos de línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… Por vezes frases, frases desunidas que apanho como pedaços de nós, esperando que sobrevivam a nós, que revelem o que fomos. Mas não consigo acompanhar-te. A tua intensidade invade-me e deixa-me a lutar por mim... A noite sonâmbula finalmente desaparece. A infantilidade da madrugada traz-te no seu regresso, os teus olhos abertos pelo toque do despertador intruso, a luz densa do dia que atravessa a janela incisiva. Descobres os meus olhos, também eles abertos e fixos em ti. Um bom-dia a correr, numa língua morta e paralela a este plano, um beijo mal dado com sabor a sono. Já foges de mim… Os sons do dia, todo ele braços e pernas, músculo, movimento, a entrarem pela casa como intrusos inesperados. O som da água a perfurar torneiras, o som da água a colidir intensamente no teu corpo, os teus pés húmidos a marcar o chão de um lado para o outro num rasto confuso que não ouso perseguir, portas a bater nesta e naquela divisão, a torradeira a fazer saltar fatias de pão tostado como se fossem brinquedos atirados ao ar, peças de loiça primeiro sobre a bancada da cozinha depois sobre a mesa da sala, a televisão a inundar subitamente o ar de palavras estranhas, falando por nós, novamente os teus pés de um lado para o outro, o som abafado da tua pele sobre o pavimento, um passo impaciente, mais portas a bater, do quarto, do roupeiro cheio de eus e tus pendurados à espera de sair dali a correr, a imagem cansada da casa de banho ainda húmida do teu duche como se fosse suor, as gavetas da cómoda, toda uma sinfonia de sons e vestígios que te levam dali para fora, uma vez mais os teus passos, agora torturando os vizinhos com o som oco dos teus saltos altos, finalmente o tilintar das tuas chaves de casa a assinalarem a antecipação da última porta que se fecha, o final do agora, de mais este momento apressado. No fim de tudo, tantos sons desconexos, nós a comunicarmos através de línguas mortas e paralelas sem palavras, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível na minha mente que não tem destino onde se fazer ouvir… Por vezes frases, frases que só fazem sentido neste plano porque os nossos corpos por vezes colidem e não temos mais nada para dizer, mas dizemos o que queremos ouvir. Oiço de ti uma despedida fugitiva, duas pequenas palavras totalmente compreensíveis que conseguem inundar o ar de solidão. A minha solidão. Mais uma porta que se fecha…. Fico ali a olhar para aquela porta como se tivesses fechado um túmulo atrás de ti. Resta-me saber que mais tarde a noite virá, toda ela corpo, de forma negra e silenciosa. Com ela a luz ténue dos candeeiros da rua atravessando as janelas abertas, incidindo sobre a tua face para te revelar no meu silêncio secreto dos teus sons desconexos, dos teus monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase... alguém com quem eu possa falar... 

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