Tu falas enquanto dormes. É comum
durante a noite já toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, acordares-me
com doutrinas murmuradas como numa conversa íntima de amantes. Revelas-me essas
palavras pela noite fora, codificando sonhos, provenientes da profundidade e
escuridão do sono, esperando que eu as oiça e agarre. Uma variedade de sons
desconexos, monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra
perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… a luz ténue dos candeeiros da
rua atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, revelando-a.
Mostra-me nos seus reflexos as tuas expressões, a intensidade com que se
deformam os sons e as palavras que vão saindo da tua boca. A tua face tornando
vivos os sons e crivando um contexto. Os sons balbuciados, que não fazem
sentido no plano de um quarto silencioso, esquecido como tantos outros no ventre
da noite toda ela corpo, de forma negra e silenciosa, dançando, sussurrando,
adormecendo, levando-nos com ela. Resisto e perco-me nas horas das minhas insónias
a olhar para ti enquanto dormes, o teu corpo belo misturando-se nos contornos dos lençóis revoltos, levando-me a
ansiar por mais sons desconexos, eu a aprender línguas mortas e paralelas,
entusiasmado com uma ou outra palavra perfeitamente compreensível, a delirar
com uma frase a sobressair neste meu silêncio secreto… tento perceber o que me
dizes, tento entrar nos teus sonhos à força, perceber as tuas preocupações,
afugentar os teus medos, guardar os teus segredos, junto dos meus. Vou perdendo
o rastro ao tempo, sobrevivendo a custo com a ajuda da luz ténue dos candeeiros
da rua que atravessa as janelas abertas e incide sobre a tua face, como se
fosse uma carícia minha, tornando-te mais minha do que em qualquer outro
momento. Tu que agora me deixas a espaços com uma torrente de sons balbuciados
noite após noite, monólogos de línguas mortas e paralelas, uma ou outra palavra
perfeitamente compreensível, por vezes uma frase… Por vezes frases, frases
desunidas que apanho como pedaços de nós, esperando que sobrevivam a nós, que revelem
o que fomos. Mas não consigo acompanhar-te. A tua intensidade invade-me e deixa-me
a lutar por mim... A noite sonâmbula finalmente desaparece. A infantilidade da madrugada
traz-te no seu regresso, os teus olhos abertos pelo toque do despertador
intruso, a luz densa do dia que atravessa a janela incisiva. Descobres os meus
olhos, também eles abertos e fixos em ti. Um bom-dia a correr, numa língua
morta e paralela a este plano, um beijo mal dado com sabor a sono. Já foges de
mim… Os sons do dia, todo ele braços e pernas, músculo, movimento, a entrarem
pela casa como intrusos inesperados. O som da água a perfurar torneiras, o som
da água a colidir intensamente no teu corpo, os teus pés húmidos a marcar o
chão de um lado para o outro num rasto confuso que não ouso perseguir, portas a
bater nesta e naquela divisão, a torradeira a fazer saltar fatias de pão
tostado como se fossem brinquedos atirados ao ar, peças de loiça primeiro sobre
a bancada da cozinha depois sobre a mesa da sala, a televisão a inundar
subitamente o ar de palavras estranhas, falando por nós, novamente os teus pés
de um lado para o outro, o som abafado da tua pele sobre o pavimento, um passo impaciente,
mais portas a bater, do quarto, do roupeiro cheio de eus e tus pendurados à
espera de sair dali a correr, a imagem cansada da casa de banho ainda húmida do
teu duche como se fosse suor, as gavetas da cómoda, toda uma sinfonia de sons e
vestígios que te levam dali para fora, uma vez mais os teus passos, agora
torturando os vizinhos com o som oco dos teus saltos altos, finalmente o tilintar
das tuas chaves de casa a assinalarem a antecipação da última porta que se
fecha, o final do agora, de mais este momento apressado. No fim de tudo, tantos
sons desconexos, nós a comunicarmos através de línguas mortas e paralelas sem
palavras, uma ou outra palavra perfeitamente compreensível na minha mente que
não tem destino onde se fazer ouvir… Por vezes frases, frases que só fazem
sentido neste plano porque os nossos corpos por vezes colidem e não temos mais
nada para dizer, mas dizemos o que queremos ouvir. Oiço de ti uma despedida
fugitiva, duas pequenas palavras totalmente compreensíveis que conseguem inundar
o ar de solidão. A minha solidão. Mais uma porta que se fecha…. Fico ali a olhar
para aquela porta como se tivesses fechado um túmulo atrás de ti. Resta-me
saber que mais tarde a noite virá, toda ela corpo, de forma negra e silenciosa.
Com ela a luz ténue dos candeeiros da rua atravessando as janelas abertas,
incidindo sobre a tua face para te revelar no meu silêncio secreto dos teus sons
desconexos, dos teus monólogos em línguas mortas e paralelas, uma ou outra
palavra perfeitamente compreensível, por vezes uma frase... alguém com quem eu
possa falar...
Thursday, January 24, 2008
2 - Enquanto Dormes
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