Saturday, February 6, 2021

71 - Rei morto. Longa vida à Rainha!

 

Soube de ti durante a manhã de ontem. Numa conversa casual, num encontro fortuito e inesperado com uma amiga de infância à muito ausente. Penso que foi apropriado como a tua presença regressou ao meu íntimo, surpreendida admito, longe estava eu de te recuperar ainda que por momentos no meu pensamento. Entre sorrisos e recordações de uma era pós adolescência já perfeitamente arrumada, surgiu o relato da tua vida atual como se tivesse sido um pedido meu. Talvez tenha sido algo na minha expressão ao ouvir novamente o teu nome lançado na conversa, numa primeira abordagem cuidadosa, como se fosse por mero acaso e inocência. Todos nós temos muitos passados guardados. Passados que não hesitamos em trazer de volta para nos animar, para reforçar partes de nós que não poderemos de forma alguma perder, passados que guardamos secretamente porque talvez digam mais de nós do que aquilo que queremos admitir e passados como tu, memórias distantes de outras pessoas que fomos e das quais já não entendemos o ser. Ouvi serenamente o relato. Sobre a tua nova vida distante, sobre uma família que te acompanha e que te será muito preciosa. Sobre como estás uma pessoa diferente, diferente de quando eras meu, subentendi. Desse relato, alguns factos mais importantes que na verdade eu já conhecia, outros mais triviais perfeitamente ausentes da minha realidade, no fundo todos estranhos para mim, agora, tantos anos depois, narrados como se falassem de uma pessoa totalmente desconhecida. Mesmo assim foi o suficiente para voltar a lidar com o sentimento que durante alguns anos me deixou imersa no imenso mar que eras tu. Seguia-te para todo o lado mesmo sem destino assente, fui tua sem reservas, na minha mente não poderia haver outra condição reservada para a minha vida que não fosse estar contigo. Nada nem ninguém poderia demover-me dessa convicção e perante um espelho nada mais poderia ver que não fosse a tua sombra bem delineada ao meu lado, mesmo quando na solidão de noites eternas perdia a consciência e em seguida a segurança da minha realidade nos sonhos esmagados pela tua ausência. Sob o teu nome residia o meu escondido. Na minha inocência juvenil era-me suficiente residir no teu coração, deixar-me encantar pela tua capacidade constante de mostrar em qualquer situação irreconhecível, um segredo, uma razão codificada para estarmos ali os dois a apontar na direção de um futuro que só poderia ser completo quando partilhado por ambos. Criaste essa história para mim desde cedo e deixei-me levar por ela dia após dia, feliz que estava por ser tua protagonista até já não ser nada mais do que uma personagem que pouco controlo detinha sobre a sua própria vida. Deixei-me distrair pelo amor prisão que sentia por ti e pela influência que sobrepunhas nas minhas decisões cada vez mais aglutinadas na única e incólume razão de existir para ti. Já não tenho em mim a exata perceção de quando resgatei algo meu e de como me foi urgente essa necessidade de voltar a sentir a felicidade de conhecer as palavras que saíam da minha boca. Talvez tenha sido a soma de vários momentos que fizeram desmoronar toda essa ideia de um amor único e irrepetível que perduraria para sempre. Talvez tudo tenha acontecido demasiado cedo e com demasiada intensidade, talvez a estranha sensação de ter prematuramente toda a minha história escrita em função de outra pessoa tenha sido avassaladora. Resististe até ao limite da inocência e decência talvez. Admito que foi difícil deixar-te. Foi um abandono e um regresso. Foi regressar a casa e não encontrar ninguém. Não encontrar nada que pudesse ser-me familiar para além do invólucro vazio que era o meu corpo. Tive de voltar a lidar com os meus instintos desmaiados e resgatar a segurança de voltar a confiar na estranha sensação de ser apenas eu, sem mais ninguém, ainda que a então inexperiência de vida não me permitisse a tanto. Ao ouvir novamente o teu nome na boca da minha amiga é esse eu que já não reconheço, que arrumei e deixei para trás, crivado pela aprendizagem de que um amor afinal não é suficiente para definir quem somos. Sorri para dentro de mim e habilmente, mudei de assunto. Eu e a minha amiga acabámos por deixar o passado nesse instante e voltámos a nós, em nós já tão pouco evidente essa intimidade. Prometemos voltar a encontrarmo-nos para beber um café. Não sei se a voltarei a ver… Mas tarde ao chegar a casa ouço as vozes das minhas filhas a correrem na minha direção. A voz do meu marido orienta-me rumo à sua presença serena e na qual poderia sofrer para sempre em sossego. Sou eu num mundo meu. Para já estou blindada, até que a vida me supere de alguma forma. 


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