As
cores nos meus quadros são réus dos teus reflexos intermitentes. Paisagens
urbanas desérticas que antecipam a tua ausência, a forma como me foges das mãos
ainda antes do crepúsculo ser extinto pelo negrume profundo da noite,
submergindo numa qualquer rua noturna para te esconderes de mim, misticamente centrada
na tua personagem de encenar outras personagens, envolvida na exuberância de
momentos capturados por essa fome de uma imortalidade irreal e singular. Um
ponto de fuga interminável que reproduzo e aprofundo uma e outra vez através de
fotografias ampliadas pela arte de sutura dos meus pincéis. Dessa paleta tons melancólicos
vou construindo um mundo de beleza mística e perfeita onde se perdem olhares e
falsas perceções, estranhos ao verdadeiro sentimento exprimido na simples ausência
de silhuetas arcanas. São apenas edifícios e ruas ultrapassadas pelo tempo mas
não pela virtude da sua antiguidade que determinam este falso contexto de
espiritualidade urbana adormecida. Ali escondido por detrás dos reflexos das
sombras o verdadeiro e simples sentimento oculto. Vão-me sobrevivendo os longos
silêncios que deixas aqui, como vocábulo de um cenário que transporto para as telas
brancas de saberem já a tua inexistência e onde só eu posso definir-te. Falo
aqui, nas cores dos meus pincéis, um monólogo de um sentimento disléxico de
quem amplia o seu amor mas reflete desamor…
Acabas
por regressar. Regressas sempre. Numa antecipação da noite que se afasta e te
deixa entrar. O teu corpo sombra procurando o meu como quisesses mergulhar para
dentro do meu peito e interromper a revolução que ali permanece desde o teu
último beijo. Entras ao de leve na cama e sobes imediatamente ao meu corpo
altar, onde sabes ser deus. Não há palavras que parem a tua intenção de viver
um momento indistinto que ainda assim em ti perdura mais do que qualquer outro.
Penso sempre que se regressas é porque precisas de alguém que saiba onde está o
teu coração, ainda que saiba que este é o teu filme e eu seja apenas um
personagem que desempenha um papel no teu drama arquitetado em emoções desarrumadas.
Longas são as horas dos nossos corpos demorados um no outro. Adormeces sem te
despedires… Ficas por uns dias. Mergulhas nos meus quadros. Ocupas-me as mãos
indefesas. Sobes-me ao pensamento e desmontas pequenos enigmas. Espalhas
sorrisos no meu rosto apenas por ter o teu rosto no meu. Falas-me das rotinas
de dias copiados que são na verdade medos futuros. Vivemos juntos o que se vive
quando se partilham espelhos. Durante dias não necessitas de uma personagem e
deixas que me apaixone por ti por te apaixonares assim. Guardo estes dias por
saber que a tua impaciência vai crescendo à medida de saberes serem
insuficientes as minhas conquistas que mais parecem derrotas inevitáveis. Vou
percebendo como se prolongam os teus silêncios perante o meu esgotamento de
intenções, como se funde o teu gosto no meu sem que daí sobressaia um sabor,
como te isolas demorada num canto como a anunciar uma partida porque acreditas
que a prisão do amor é ser livre. Ficas por uns dias. Haverá noite outra vez.
De High and Dry dos
Radiohead


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