Thursday, October 10, 2019

57 - Desbloqueio


Não te amo. Olho para ti adormecido ao meu lado, a tua respiração a mergulhar fundo no sono como um vento açoitado, manifestando a espaços os seus lamentos compassados. Sobre ti, o lençol desfigurado e erróneo como tempestade petrificada, moldado parcialmente ao teu corpo, amparado pela tua pele… a nu retalhos do teu figurino escultura bronze, antecipando novos desejos por descobrir. Ainda agora éramos um. Silabando loucuras…

Não te amo. Descobriste-me numa esplanada num dia de sol, o meu sangue frio quase solidificado, fantasiada de alguém que não sabia ser eu. Como se desmascarasses um impostor, sentaste-te na minha frente e ouviste concentrado as minhas verdadeiras palavras que não ousava dizer por ainda não saber como falar sem que a minha voz denunciasse todas as mágoas lançadas sobre a mesa. As tuas perguntas falcão consumindo essa sensação de estar num jogo de querer e não poder, angustiada pela fome que não sabia como saciar por julgar já não ter o direito de ser um monumento nas mãos de um hábil homem talento. Tudo o que era eu tinha sido antes numa vida fechada de um amor volvido amargo agora já sem nenhum depois. Do meu corpo habituado a lançar-se sempre com rede, uma repentina queda infinita até aos teus braços que estavam ali para me agarrar e do nada ensinar-me a dançar sem chão. Foi tudo o que precisei, por um momento, por vários sucessivos momentos até deixar de prender a respiração dentro de mim como sempre o fizera.

Não te amo. Ainda que saiba agora de cor no teu corpo o que não sabia do meu. Por não me saber mulher, sobrepunha-se o medo de não o voltar a ser. Essa palpitação visceral que dispara sem rumo vinda das entranhas e nos deixa na boca um sabor a sal… Olho para ti perdido nesse sono renovador e só quero trazer-te de novo para mim, voltar a esse momento em que a tarde se faz noite nas tuas costas e posso deixar-me escurecer sob o teu corpo que se faz condor, enquanto de mim se solta um palavrão que me chega à boca como se fosse um louco louvor.  

Não te amo. Porque não tenho que te amar. Porque não tem de ser uma história de amor o que se deixa para contar nas entrelinhas do acaso, quando na verdade só quero esquecer todas as minhas fantasias irresolutas e por um momento viver numa fantástica cena de filme. Faz parte… talvez faça parte. Reaprender a ter uma solução nas mãos desarmadas, uma intenção nas pernas trémulas que se abrem como portas escancaradas, um destino no sexo que se rende. Talvez tenhas sido tu por não saberes pedir licença, por tocares no meu corpo como se fosse algo inexperimentado, por me convenceres hipnotizado que tens uma história para me contar num quarto de hotel, por me resgatares de uma sombra para calmamente atravessarmos o luar sem o comtemplar… olhando-nos na boca.       

Não te amo mas amo a tua presença. Amo a tua salvação, a forma como a tua mão entrou pelo meu peito adentro para me apertar o coração e pô-lo a bater de novo, secretamente... O ar fresco da manhã ainda criança recai como um impercetível véu na minha face, como um carinho inusitado, as ruas vazias conduzindo-me os passos para um caminho sem rumo mas desejado, todas as chamas deflagrando atrás de mim como a queimar os vestígios de um passado que não quero reviver.

Não te amo. Sento-me nessa esplanada a admirar o sol que renasce e em mim há um outro fogo que arde.

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