Escondes-me por detrás
de cada conto, de cada fábula, por detrás de cada episódio espinhoso, cada
história meio anedótica como fosse apenas uma personagem secundária ou uma mera
figurante esquiva e silenciada. Nas conversas dispersas a meio tom, o
entusiasmo estranho de quem não as ouve pela primeira vez, repetindo as mesmas
gargalhadas como se fosse obrigatório sobrepô-las sempre às tuas palavras numa
clara demonstração de veneração contratual. Olho para ti e culpo-te. No meu
íntimo. Ninguém me vê. Tu não me vês. Há muito tempo que me tornei invisível. Sinto-me
um esboço de gente servindo apenas como teu adereço, única possibilidade de
transformar a minha existência em algo visível ainda que para ti, de pouco
valor. Hoje sei que é assim. Tantos anos a convencer-me do contrário, inúmeros
rasgos de esperança por mudanças que nunca chegaram aos meus pés, com tanto de
inocentes como de culpadas, uma vida corrida, filhos e netos, mágoas e mágoas
trazidas para casa por ti para eu as carpir devotamente. Deve ser isto a que
chamam de amor dependente. Não saber deixar de amar apesar de tudo, quando esse
tudo é uma avalanche, um maremoto na nossa direção que devasta meio mundo com a
sua passagem e ainda assim entendo reerguer os escombros, sobrepondo pedra
sobre pedra no meio do caos sem qualquer plano ou projeto, alicerçando a minha
convicção de que do passado é possível resgatar algum sentimento que já não
tenho a certeza de alguma vez ter existido. Resta-me a celebração de algumas boas
memórias para me convencer… Continuas a lançar sobre esta mesa toda essa impercetível
necessidade de atenção. Os teus filhos e derivados atentos a cada pormenor das
tuas reminiscências, talvez se lembrem que estou aqui também. Sempre
conseguiste chamar a ti uma atração quase incompreensível apesar da tua
personalidade fechada, desse mau-humor característico de quem acredita
genuinamente ser maior que o mundo ainda que não saiba o mundo quem és. Apenas
um restolho quase abafado de gente, igual a tantos outros de quem não se
guardará memória depois da última vez que o teu nome for pronunciado nos lábios
de alguém que contigo se cruzou nesta vida aflita, por muito ou pouco tempo,
pouco importa. É assim que morremos de vez...
-
Não digas asneiras…
… e assim morro eu um
pouco mais quando na tentativa de corrigir um pormenor da tua história secular me
fazes sentir tão pequena. Tinha eu a certeza que tal história se passara numa
outra rua, num outro ano, numa outra vida talvez… quando os meus sorrisos ainda
eram por ti e só por ti, a galgar sonhos e fantasias juvenis. A minha voz a
sumir-se assim para dentro da minha garganta como se fosse um poço donde só
regressa uma água parada, acabando por conter cá dentro todos os impropérios
que me apetece dizer, ciosamente levantando os pratos da mesa quando na verdade
os quero atirar todos ao chão que sempre adornei para ti. É assim o fim da
história desta noite. Ficamos apenas os dois, as vozes da nossa descendência logarítmica
afastando-se pelo corredor da casa, pela rua, cada vez mais longe até os
deixarmos de os ouvir, um sossego cada vez mais amiúde e desencantado de velhos
desorientados. Sobes para dormir e perguntas-me se não subo também. Por que razão
quererás saber se vou já dormir também? Não respondo e já não te ouço
novamente. Acabo por seguir-te pouco tempo depois não vá o meu mundo
desaparecer e eu sem saber o que fazer… Sentes deitar-me ao teu lado, ainda não
dormes porque não sabes dormir sozinho, nesta ou noutra cama qualquer, a
solidão sempre te fez péssima companhia. Dizes que tens frio que não te
consegues aquecer, que o quarto se assemelha a um túmulo. Abraço-te para te
aquecer. Se nos vissem agora nunca conseguiriam descobrir onde guardo eu a
minha alma.
13 de
Outubro 1945
Uma
data como qualquer outra, mas ainda assim,
nesse dia, talvez o
céu estivesse diferente…

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