Sunday, October 13, 2019

58 - Alma Escondida


Escondes-me por detrás de cada conto, de cada fábula, por detrás de cada episódio espinhoso, cada história meio anedótica como fosse apenas uma personagem secundária ou uma mera figurante esquiva e silenciada. Nas conversas dispersas a meio tom, o entusiasmo estranho de quem não as ouve pela primeira vez, repetindo as mesmas gargalhadas como se fosse obrigatório sobrepô-las sempre às tuas palavras numa clara demonstração de veneração contratual. Olho para ti e culpo-te. No meu íntimo. Ninguém me vê. Tu não me vês. Há muito tempo que me tornei invisível. Sinto-me um esboço de gente servindo apenas como teu adereço, única possibilidade de transformar a minha existência em algo visível ainda que para ti, de pouco valor. Hoje sei que é assim. Tantos anos a convencer-me do contrário, inúmeros rasgos de esperança por mudanças que nunca chegaram aos meus pés, com tanto de inocentes como de culpadas, uma vida corrida, filhos e netos, mágoas e mágoas trazidas para casa por ti para eu as carpir devotamente. Deve ser isto a que chamam de amor dependente. Não saber deixar de amar apesar de tudo, quando esse tudo é uma avalanche, um maremoto na nossa direção que devasta meio mundo com a sua passagem e ainda assim entendo reerguer os escombros, sobrepondo pedra sobre pedra no meio do caos sem qualquer plano ou projeto, alicerçando a minha convicção de que do passado é possível resgatar algum sentimento que já não tenho a certeza de alguma vez ter existido. Resta-me a celebração de algumas boas memórias para me convencer… Continuas a lançar sobre esta mesa toda essa impercetível necessidade de atenção. Os teus filhos e derivados atentos a cada pormenor das tuas reminiscências, talvez se lembrem que estou aqui também. Sempre conseguiste chamar a ti uma atração quase incompreensível apesar da tua personalidade fechada, desse mau-humor característico de quem acredita genuinamente ser maior que o mundo ainda que não saiba o mundo quem és. Apenas um restolho quase abafado de gente, igual a tantos outros de quem não se guardará memória depois da última vez que o teu nome for pronunciado nos lábios de alguém que contigo se cruzou nesta vida aflita, por muito ou pouco tempo, pouco importa. É assim que morremos de vez...

- Não digas asneiras…

… e assim morro eu um pouco mais quando na tentativa de corrigir um pormenor da tua história secular me fazes sentir tão pequena. Tinha eu a certeza que tal história se passara numa outra rua, num outro ano, numa outra vida talvez… quando os meus sorrisos ainda eram por ti e só por ti, a galgar sonhos e fantasias juvenis. A minha voz a sumir-se assim para dentro da minha garganta como se fosse um poço donde só regressa uma água parada, acabando por conter cá dentro todos os impropérios que me apetece dizer, ciosamente levantando os pratos da mesa quando na verdade os quero atirar todos ao chão que sempre adornei para ti. É assim o fim da história desta noite. Ficamos apenas os dois, as vozes da nossa descendência logarítmica afastando-se pelo corredor da casa, pela rua, cada vez mais longe até os deixarmos de os ouvir, um sossego cada vez mais amiúde e desencantado de velhos desorientados. Sobes para dormir e perguntas-me se não subo também. Por que razão quererás saber se vou já dormir também? Não respondo e já não te ouço novamente. Acabo por seguir-te pouco tempo depois não vá o meu mundo desaparecer e eu sem saber o que fazer… Sentes deitar-me ao teu lado, ainda não dormes porque não sabes dormir sozinho, nesta ou noutra cama qualquer, a solidão sempre te fez péssima companhia. Dizes que tens frio que não te consegues aquecer, que o quarto se assemelha a um túmulo. Abraço-te para te aquecer. Se nos vissem agora nunca conseguiriam descobrir onde guardo eu a minha alma.  

                                                           13 de Outubro 1945
Uma data como qualquer outra, mas ainda assim,
 nesse dia, talvez o céu estivesse diferente…

No comments: