Havia uma aura inexplicável à tua volta. Atraía-nos como a luz atrai a pequena e frágil traça, queimando-nos da mesma forma ardente ao nos aproximarmos demasiado desse teu flamante calor. Hipnotizava-nos a tua magnífica beleza delirante que iludia a nossa realidade, ficando qualquer um de nós tragicamente à mercê de cometermos o erro crasso de nos deixarmos loucamente levar pelo infinito desejo sem que daí houvesse retorno. Junto de ti formavam-se inúmeras fantasias eróticas, desejos de amor e outras frivolidades terrenas derivadas de imaginárias conquistas impossíveis, estabelecendo-se porém toda uma distância inalcançável que te separava de quem te rodeava, mesmo quando no teu cabelo amazona se prendiam respirações ou se libertavam suspiros ainda tão juvenis. Sabia ser mais um dos teus reféns deixados à solta, angustiadamente consciente de saber não haver pior prisão do que aquela que se vive sem cárcere que a defina. Mas seria porventura inevitável. Desde o primeiro olhar o sonho do teu corpo incrustado na minha violada sensualidade, desde o teu primeiro sorriso esse reflexo eterno de imitação na minha boca como pudesse haver uma correspondência imediata de metades que se completariam ali mesmo. Divago… era tudo muito mais intenso. E secreto.
Ainda
hoje não consigo reviver nem reconstruir os passos que dei para chegar até ti. Amigos
comuns, encontros casuais, um atrevimento fugaz de abrir a minha boca e
fazer-te sorrir por uns segundos. Dos contactos breves às conversas a sós a eterna
sensação de uma queda livre sem saber para onde caía. Estávamos puramente
ilibados naquele ambiente estudantil universitário que compunha, entre olhares
persecutórios e desejos hostis, o contexto que nos rodeava, a fórmula
inequivocamente correta de viver a vida e saboreá-la nos erros cometidos; porque
aqueles eram os nossos anos. Se há altura para viver a paixão é nesses anos de
juventude quando não se pode negar essas vontades do corpo que se afogueiam
descontroladamente até ao rubor das faces, como escarlatina demente e
permanente. Descuidadamente percorri esse caminho inacessível que me aproximava
cada vez mais do teu púlpito, esquecendo, a cada passo na direção da tua
intimidade, como poderia depois regressar até ao ponto onde antes sabia ser eu.
Talvez na verdade apenas quisesse perder-me na tua inacessibilidade e depois
sobreviver. A mulher Majestade e eu o teu rei e súbdito… a tua beleza arrebatadora,
o corpo perfeito, a sedução em cada movimento, era tudo na verdade demasiado
perfeito. Toda essa tua violência sedutora aproximou-nos ao ponto de ser impossível
resistir. Como poderia eu resistir?
Esta
manhã, tantos anos depois, uma música trouxe-te de volta, a mesma música que
dançámos sozinhos numa noite de apelos da alma e agravos do coração, meus e
teus… cantávamos palavras escondidas atrás do momento que passava lento ao som
da balada ferida. Na minha memória o mesmo perfume gravado como uma sombra do
mesmo tom da tua pele morena, a mesma sensação de assombro a regressar perante
a tua presença voluta nos meus braços. Oiço a música devagar, os meus olhos fixos
na enseada calma à minha frente, a deixar a vida vir atrás de mim para recordar
o naufrágio desse meu passado na língua do refrão, como sabedoria
circunstancial:
Oh you were majesty
Your robes were heavy
And your longing was a cutting from bone
Minha
Majestade… vivi momentaneamente sob o teu desígnio, sob a tua alçada e completo
controlo. Nada poderia afastar-me de ti. Nunca teria caído aos teus pés sem que
da tua boca saísse o meu nome invocando esse desejo. Nunca poderia ter-me
libertado e sobreviver se desse desejo tivesse nascido um amor. Escravo para sempre seria o meu fado. De um homem perdido
a fugitivo seria esse, para sempre, o som do meu clamor.
Oh you were majesty
Your ropes were heavy
And your cheeks were very red
Oh you were majesty
And it's like I said
That spirit, is now dead
Depois de Majesty dos Madrugada

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