Nunca poderei
compreender o vosso amor. Nunca mais poderei perdoar-te a ausência.
Inevitavelmente, não poderei perdoar-me pelo afastamento que entre nós fui
deixando construir-se sozinho, tão bem escrita foi esta tragédia sem fim. O
destino aos poucos a revelar a ineludível fatalidade, o cruel e amargurado caminho
traçado por vocês ao longo daqueles escassos três anos que se tornaram nesse
percurso cada vez mais tortuoso, percorrido na direção de uma perdição
inevitável, mãos entrelaçadas uma na outra sem hesitação, olhares suspensos da
realidade num conforto da fatalidade partilhada, a espaços encoberta por uma magia
artificial, futuros severamente rendidos. Consigo recordar perfeitamente o
primeiro momento da vossa história de amor iludido. Chegaste numa tarde
anunciando essa sensação mútua de euforia e melancolia, na qual dizias ter
renascido. Entraste pelo meu quarto adentro, delirada com o novo contorno em
redor do teu coração, uma marcação de território vincada e delineada com clara definição,
como um desenho concreto feito numa folha de papel à espera de tema. Era
oficial. Estavas apaixonada. Não sabias o que dizer... habitualmente só ficavas
assim após um novo poema, que, encontrando-te desprevenida, (por acreditavas
fielmente que eram os poemas que te encontravam) silenciava-te durante dias, deixando-te
num inesgotável sentimento de virtude único que só tu poderias compreender.
Eras feliz aí, como pensavas ser com ele a partir desse dia em que pousaste a
cabeça no meu colo, o teu longo cabelo indeciso entre o louro e o castanho
espalhado como um vento a repousar, os teus olhos de um verde-escuro singular
absorvendo o teto do meu quarto como se fosse agora um outro céu, descrevendo-me
com um prazer ainda incompreendido para mim, as suas feições harmoniosas, o
mistério naquela personalidade masculina recém-adulta, a voz que já comandava a
tua vontade sem saber como. Ali de cabeça pousada no meu regaço na verdade já
não estavas presente. O teu espírito tinha sido raptado sem um resgate que o
pudesse alguma vez mais devolver. Tinhas dezasseis anos, eu, apenas catorze.
Quem nos poderia salvar? Mas sorri ao ouvir-te falar de amor naquele dia. Começaste
a namorar secretamente porque não querias que ninguém soubesse e tinhas medo da
reação dos nossos pais que nos protegiam com uma tenacidade feroz. Irremediavelmente,
pouco tempo depois, já toda a gente sabia e comentava, fruto de uma cidade
pequena que ecoa os segredos alheios com enorme prazer. Foi uma questão de
tempo até o suposto segredo entrar pela nossa casa aos gritos, anunciando-se
pela voz do nosso pai entre um timbre de desilusão e franca desorientação. Foram
meses sem fim de discussões e confrontos. Desde as profecias sobre os perigos
óbvios de sexo desprotegido ou de uma possível gravidez indesejada, aos perigos
do desvio de rota de uma vida com enorme potencial em detrimento de um
personagem de reputação desgarrada, sem futuro, sem posses que o pudessem validar,
sem hipóteses de ser alguma vez digno, tudo foi arma de arremesso, tudo foi
medo lançado aos teus pés para evitar que desses mais um passo em frente. Tudo
foi feito para te parar como era suposto por quem te amava, ainda que mais não
fossem do que empurrões pelas costas para te lançar nos braços dele ainda com
mais vigor. Das restrições, ao controlo rígido dos horários, passando pelos
castigos, morrendo nas súplicas de quem já não sabia que pessoa ser para voltar
a controlar o que nunca foi na verdade controlável, tudo foi feito para te proteger,
para te trazer de volta, ainda que intimamente soubéssemos que já não nos
pertencias e que havia um caminho inevitável a percorrer do qual não
regressaríamos. Foram longos meses de declínio. Onde esteve o gatilho ninguém
sabe. Era destino? Queria saber para o poder corrigir. Começaste o teu processo
de afastamento devagar como se tivesses traçado um plano de fuga pacientemente.
Aos poucos deixaste de falar, dando-me a sensação de estares cada vez mais
absorta num mundo ao qual nós não poderíamos aceder. A tua genialidade para
aquilo a que eu chamava “mundo dos sentimentos” desaparecida para sempre. O teu
corpo subitamente a mudar tragicamente, a envelhecer, a tornar a tua beleza
outrora exterior e interior num invólucro desgastado. Os problemas evidentes dos
consecutivos estados de magia artificial a entrarem na nossa casa, a derrotarem
ferozmente todas as tentativas de te salvar, condenando-nos com uma violência
atroz pelas vãs tentativas de salvamento. À força, carregados de esperanças
pequenas, os pais levavam-te para as clínicas onde passavas dois, três meses
para tentarem recuperar a sua filha. Levavam o corpo e acreditavam trazer
novamente o teu espírito quando lhes dizias que desta vez ias conseguir
recuperar, que não se iam arrepender e que querias novamente ser surpreendida por
poemas como antes. Beijavam-te, regressavam a casa sem ti e guardavam o teu espírito
entre eles, chorando todas as noites baixinho quando tudo era silêncio e os
desesperos crescem desgovernadamente no nosso íntimo… ainda assim, sobrevivendo
na expectativa de que fossem verdade as palavras que saíam da tua boca. Ao ouvi-los,
ficava sozinha no meu quarto a pensar porque seria o amor teu inimigo, porque te
teria o amor escolhido a ti para ser indigno. Nunca mais iria sorrir ao ouvir
falar de amor… Regressavas, mas para regressar para ele e não para nós. Não era
preciso esperar muito e de nada serviam as ameaças psicológicas e até físicas dirigidas
ao teu amante para se afastar de ti. Repetia-se o ciclo. Uma a outra vez. Desaparecias
com ele por vários dias, sem dares notícias e os pais procuravam-te insanamente
numa ilusão já completamente inglória. Regressavas inerte e voltavas a
desaparecer. Até um dia não voltares nunca mais. Foi o que restou desses dias.
O som do telefone a tocar numa hora noturna incompreensível, a voz da mãe a
gritar do meio da noite rasgando o seu silêncio de uma forma atroz, tornando-o,
para sempre, num abismo horrível, de um desespero sem tamanho que o defina. As
lágrimas da mãe morrendo devagar no peito do pai que nunca as conseguiria
conter por ter ele também um mar de lágrimas a transbordar. Eu… a sentir que
estaria para sempre sozinha a partir desse momento… encontraram-vos juntos,
deitados lado a lado de frente um para o outro, num canto de um casarão há
muito abandonado, as seringas espalhadas pelo chão, móveis velhos a cair de
podre, lixo e sujidade por todo o lado, as vossas mãos a tocarem-se ao de leve
como numa despedida, janelas meio fechadas com plásticos, um cheiro nauseabundo
a tornar o ar irrespirável, o teu longo cabelo indeciso entre o louro e o
castanho prostrado no chão como um vento esgotado, os teus olhos de um
verde-escuro singular perdidos e prostrados num outro céu.

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