Tenho
o teu sorriso reservado quando sinto que já não tenho nada para dar. A recordação
da tua gargalhada funciona para mim nesses momentos tão difíceis como uma banda
sonora estimulante, ainda que na verdade por estes dias seja tão difícil
conseguir tirar de ti esse som maravilhoso que envergonha a beleza do mais
angélico céu. Tenho sempre nas minhas mãos as tuas mãos, essa sensação da tua
pele tão delicada e suave a passar pela minha face quando me atormentam todas as
decisões difíceis que não nos deixam avançar, quando o impasse de vermos todos
os nossos planos seguirem irremediavelmente por água-abaixo nos vai deixando
cada vez mais restringidos a pequenos momentos, onde encontramos, à força de
uma sensibilidade amplificada, uma magia outrora eventualmente irreconhecível e
desprezada. Uma luz especial que entra pelo quarto dentro para realçar o brilho
fugaz dos teus olhos, uma música louvada que toca inesperadamente e nos devolve
aos compassos certos do nosso amor, uma palavra esquecida que volta a ter um mesmo
significado, recordações cristalizadas que já não ousávamos recordar… são pequenas
vitórias que não alteram absolutamente nada neste impasse eterno mas que
elevamos e comemoramos no silêncio de um carinho, de um beijo, como se trouxessem
nelas o fim desta guerra invisível… são tão delicadas e importantes nesse papel
de devolverem-nos alguma esperança, quase talvez na mesma proporção dos dias em
que sentes regressar alguma energia ao teu corpo, a qual nos deixa, cruelmente,
apenas por breves momentos, à porta de um passado colocado em suspenso.
Deixo-te na cama que nunce te devolve mas levo-te comigo para onde vou, sempre,
sobre os meus ombros, o teu corpo sem peso, sentada num trono que só tu poderás
ocupar por ser para sempre teu, no topo da minha alma. O sol descobre o meu
rosto e tento sorrir, por ti, por nós, para evitar pensar e sentir que saio
porta fora deixando-te para trás nessa fragilidade corporal, nesse teu
sofrimento silencioso onde apenas posso oferecer o meu espírito de guarda. A
vida não para e não espera por nós. Porque esperaria? Na verdade eu não quero
saber. Independentemente do que o futuro nos trouxer seremos para sempre nós.
Independentemente de trazer comigo em permanência essa horrível frustração de
não poder entrar-te pelas veias dentro e descobrir onde reside essa maldita e
inexplicável doença, combater até à morte pelo regresso da tua vida, corrigir tudo
o que está errado, fazer todas as reparações e devolver-te a mecânica da tua
alma fabulosa, enérgica e sentimental, seremos sempre nós. Tenho em mim esta doença
incurável, para sempre uma fórmula irresolúvel de variáveis infinitas das quais
apenas conheço um único resultado que és tu. Estou aqui… Por mais que os dias
nos atravessem como se fossemos ambos corpos celestes sem destino, por mais que
a vida nos pareça ignorar e o tempo passe ao largo dos nossos braços estendidos,
não deixarei que as tuas lágrimas deixem de ter um sentido, por mais que tudo
desmorone à nossa volta. Serei corpo inconquistado, armadura de aço
inquebrável, dançarás para sempre no meu colo em cima de todos os escombros e
escutarei as tuas doces palavras bem perto do meu ouvido, decifrarei todos os
seus códigos, todas as mensagens ocultas atrás da fragilidade de uma vida que
nunca poderia ter mais significado para mim como agora. Regressarás mais forte
e poderei descansar em ti. Deito-me junto a ti só para sentir-me seguro no
início desta manhã que renasce gloriosa após atravessar a noite que não quis
adormecer… a esperança reinventando-se sozinha. Tenho em mim essa doença
incurável. És tu.
Texto para o Rui e para a Ana
Que a vida lhes devolva alguma da sua
generosidade e beleza…

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